Chris Helgren/ Reuters
Chris Helgren/ Reuters

O lado ruim das coisas

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Mr. Miles*, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2018 | 05h09

Mr. Miles anuncia que está percorrendo o sertão do Piauí e da Paraíba para conferir o efeito das chuvas depois de uma das maiores estiagens da história do Nordeste brasileiro. “My friends: não posso acreditar que essa seja uma região árida. Tudo o que vejo é verde, florido e farto. Estou absolutamente delighted com essa nova observação. Sinto-me animado e otimista. Parafraseando Euclydes da Cunha neste mesmo jornal, “o sertanejo é, antes de tudo, um apaixonado por suas terras quando verdejam”.

A seguir, a pergunta da semana.

Caro Mr. Miles: suas crônicas são excelentes, mas tenho a sensação de que é preciso mencionar mais o lado ruim das coisas. As reportagens de turismo, em geral, só mostram as belezas e omitem as mazelas de cada lugar. O senhor não acha? 

Clodoaldo Roriz Medeiros, por e-mail

“Well, my friend: não acho que você venha lendo minhas colunas com assiduidade. Ainda na semana passada, ao falar sobre aeroportos do mundo, mencionei, sem qualquer pejo, tudo o que me desagrada nesses estabelecimentos. Assim, of course, como aquilo que me enternece.

O mundo, I must say, é tudo o que nós mesmos somos. Ele seduz, agride, instiga e provoca emoções contraditórias. Ainda assim, persisto em dizer que não há nada melhor do que conhecê-lo para tirar suas próprias conclusões. Vou lhe citar alguns exemplos, muitos deles já mencionados em mais de 15 anos de comunicação com meus leitores. Quem vai às pirâmides de Gizé, for instance, não imagina que elas são vizinhas de um bairro muito pobre. Fotógrafos e cinegrafistas que registram as construções milenares não costumam virar suas câmeras para o lado oposto, pela simples razão de que o propósito é mostrar o raro e incomum, não o feio e corriqueiro.

Meu querido amigo Lord Spatafora costuma dizer que o jornalismo de viagem (ou turismo, as you wish) é a arte de propagar mentiras, visto que revistas, blogs, jornais and so on registram apenas o que há de melhor em cada destino. É a mesma razão, I presume, porque publicações automobilísticas não põem carros sujos e amassados em suas reportagens, divulgadores de moda usam modelos fotogênicos (e não pessoas comuns) em seus editoriais e revistas de gastronomia não publicam pratos de aparência desmazelada. 

Sigamos com exemplos: poucos sabem mas, entre os 26 restaurantes que existem na bela Piazza Navona, em Roma, ao redor de duas das mais belas fontes de Bernini (e do Palazzo Pamphili, a mais valiosa embaixada de vosso país em todo o planeta), apenas dois têm cozinhas. I said two

Can you imagine such a madness?

In fact, duas dúzias de charmosos estabelecimentos da famosa praça romana desenhada por Domiciano no século 1º d.C, possuem apenas congeladores repletos de pratos industrializados e micro-ondas para aquecê-los. Eu mesmo tive a oportunidade de conhecer vários desses espaços, com a ajuda de alguns amigos que atuam como garçons e maîtres na área. 

O curioso, however, é que jamais ouvi alguém reclamando do prato que lhe foi servido nem, by the way, do preço insuportavelmente caro cobrado por lugares que ficam – as you say – na boca do gol.

O que pelo menos parece atestar a qualidade das indústrias romanas de refeições congeladas.

Parece idílico passear pela dunas do Saara ao sol poente mas, a menos que se esteja protegido com cuidado, há grandes chances de contrair queimaduras de segundo grau. Assim como os incomparáveis picos e agulhas do Parque Nacional de Torres del Payne, no Chile, jamais saem nas fotos acompanhadas pelos ventos gélidos e fortes que sopram durante quase todo o ano.

Em outras palavras, caro Clodoaldo, o melhor e o pior podem andar de mãos dadas em muitas partes do mundo. Para entender tudo isso, nada como ir de um lado para o outro com a cabeça aberta e estar disposto a desvendar o planeta da forma mais aberta e complacente possível. I’m sorry to say, my friend, mas as mais belas praias do mundo vêm acompanhadas dos insetos mais chatos e persistentes. Os endereços turísticos mais cobiçados têm, como complemento indesejado, longas filas de espera. As regras e normas oriundas, of course, de gente que as infringiu antes de serem criadas são uma praga com a qual há de se conviver mundo afora. Ainda assim, vale a pena. Ah, se vale.”

 

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  

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