O legado da Copa para o turismo (Parte 1)

Quando é que o Brasil foi tão visivelmente invadido por turistas estrangeiros pela última vez?

Ricardo Freire, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2014 | 02h05

Nos primeiros anos do milênio, o real desvalorizado chegou a promover uma pequena Copa de visitantes que vinham atrás não da bola, mas do sol. Foi a época das maiores ocupações em Santa Catarina e Búzios por argentinos. Já as praias do Nordeste - sobretudo as do Ceará e do Rio Grande do Norte - se viram cativas de escandinavos e ibéricos, que chegavam em voos charter ou nas rotas então recentemente inauguradas pela TAP. Na baixa temporada, os estrangeiros lotavam resorts da Bahia e de Alagoas - os mesmos que hoje ficam quase vazios entre as férias escolares.

A progressiva valorização do real foi minando os contratos com as operadoras europeias, e a crise mundial de 2008 sepultou talvez para sempre a possibilidade de a TUI ou a Thomas Cook - as versões europeias da CVC - oferecerem o Brasil a seus clientes.

O que o Brasil fez para não perder esse mercado? Nada - mais ou menos como a defesa da seleção no jogo contra a Alemanha. Não aumentou o investimento em marketing, não criou nenhuma campanha de impacto, não intensificou a divulgação do Brasil no exterior. Pelo contrário: fechou os escritórios de representação lá fora (só foram reabertos no ano passado, sob grande fanfarra de assessoria de imprensa).

Enquanto isso, aprendemos o caminho do exterior. Embalados pelo sucesso da economia, pelo real forte e - é bom lembrar - por uma mudança na política de emissão de vistos de entrada para brasileiros nos Estados Unidos, desatamos a viajar para fora do País como nunca antes (na história deste, etc.). O turista brasileiro passou a ser cortejado pelo mundo inteiro. O Brasil, que poderia ser o país do turismo, virou um país emissor de turistas. Em 2014, mais de 2 milhões de brasileiros visitarão os Estados Unidos. Quase 1% da população brazuca pagará sales tax em solo americano.

Viajamos tanto para o exterior e ficamos tão encantados com o que vimos lá fora que passamos a acreditar que o Brasil era um destino de terceira categoria. Que não estamos preparados para receber nem a nós mesmos, que dirá aos bacanas que falam inglês. Que não há como um estrangeiro vir para um lugar tão bagunçado, despreparado e caro, e ainda gostar.

Daí veio a Copa. (Semana que vem continuo.)

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