Bogdan Cristel /Reuters
Bogdan Cristel /Reuters

O medo do turista na hora de passar pela imigração

Esqueço até como se diz bom dia em inglês

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2018 | 03h00

“Coração ligado, beat acelerado” foi um refrão chiclete nos anos 80 (de uma banda chamada Metrô). Penso nele toda vez que entro na fila da imigração de algum aeroporto estrangeiro. Como sempre acontece, minhas mãos começam a suar, a visão fica um pouco turva e acho que vou cair duro. Será que o agente da imigração vai gostar de mim? Vai me aceitar do jeito que sou?

Enquanto espero a minha vez, torço para a fila andar em um ritmo que me leve ao funcionário mais simpático - que me empurre para um match perfeito com alguém que tenha tido um bom dia, que seja zero xenófobo ou pelo menos tenha boa referência do Brasil.

Confesso, com alguma vergonha, que me sinto muito mais seguro quando sou atendido por uma mulher ou por um “não tipicamente”. Tenho medo de ser barrado por um tipicamente americano, tipicamente canadense, tipicamente alemão, tipicamente espanhol... (insira aqui qualquer país). Sou do tipo que respira aliviado quando, no aeroporto do Texas, sou atendido por um sujeito barbudo e de turbante.

Já usei o espelho de casa para treinar naturalidade ao passar pela imigração. Na frente dele, dou aquele sorriso de propaganda de Corega (fixador para dentadura). Digo bom dia (ou boa noite) no idioma do país que vou visitar e entrego o meu passaporte aberto na página certinha - e ofereço minha impressão digital com a elegância sutil de um pianista austríaco que acabou de ser flagrado mordendo um canapé de ovas vermelhas na Ópera de Viena. Além disso, me imagino abrindo uma pasta azul, organizadíssima, com todas as minhas reservas de hotel, os voos internos, passagens de trem, seguro saúde, carteira de vacinação e fotos do meu cachorro, o Pitoco. Assim, me permito fantasiar com o agente da imigração me cumprimentando com entusiasmo e dizendo coisas do tipo: “você deveria nos visitar mais vezes”, “por favor, fique mais tempo. Nosso país precisa muito de você”, “tome aqui cem dólares para gastar em nossos bares e restaurantes”, “por que não trouxe o Pitoco? Ele é tão fofo”. 

Na vida real, esqueço como se diz “bom dia” em inglês, fico mais tenso do que o marido da Lorena Bobbitt na hora de dormir e sou incapaz de responder questões triviais sobre os motivos da minha viagem. 

- Você está aqui como turista, viajando pelo trabalho ou apenas pretende desestabilizar os pilares da civilização ocidental?

- Ah, o senhor pode repetir a pergunta, por favor?

Fico tenso em imaginar o que esses sistemas de inteligência sabem sobre mim. Então, vejamos, Gilberto, tinha pânico de elevador até os 6 anos, perdeu a virgindade aos 18, tem medo de barata (voadora e das normais também), torce para o Corinthians, ainda não assistiu La Casa de Papel (mas falou mal sem ver), acha que toda comida fica boa com coentro, há dois meses escreveu um post no Facebook dizendo que o Trump é um boçal, tem um tuíte brincando com o fato do príncipe William ser mais feio do que o velho Charles, uma foto no Instagram em que o referido turista (eu, no caso) aparece lamentavelmente embriagado e, que vacilo, 125 registros de visitas à uma página da internet conhecida como XVideos. “Entrada negada!”, grita o agente probo da imigração.

Se, por acaso, pedem para ver a minha mala, acho logo que uma AK-47 vai brotar do meio dos meus trapos. Ou, sei lá, vai que esconderam um rim no bolso do meu paletó... Sei que não fiz nada de errado, mas vai que sou vítima de algum golpe e sou preso por tráfico internacional e... Calma, nada disso nunca aconteceu. Já tomei canseira, já enfrentei cara feia, já reviraram minha mala de um jeito humilhante, mas sempre me deixaram entrar - embora, infelizmente, nunca tenham me oferecido 100 dólares ou perguntado do Pitoco. 

Não tenho medo de avião, mas, às vezes, acho que preciso de um Dramin para passar pela imigração. Você não?

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