O mundo para compartilhar com estranhos

Nosso incomparável viajante manda notícias da Borgonha, na França, onde anda provando grandes vinhos, ótimas mostardas, fabulosos escargots e algumas boas histórias. Entretanto, é com certa tristeza que ele responde à pergunta desta semana:

O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2014 | 02h06

Querido mr. Miles: a moda, agora, é compartilhar tudo. Não tenho mais prazer em oferecer um jantar de família, porque a mesa fica silenciosa, filhos e netos gastam o tempo respondendo a mensagens nos celulares e fotografando os pratos que nossa velha cozinheira, Zilá, faz com tanto carinho. Pergunto ao senhor que viaja tanto: estamos caminhando para um novo tipo de relacionamento humano?

Mércia Donatello, por e-mail

"Well, my dear: suas palavras são um pequeno, mas preciso relato sobre o que tenho sentido around the world. Escrevo-lhe, neste momento, desde a Abadia de la Bussière, uma esplêndida construção do século 12 transformada em um refúgio com a chancela Relais & Châteaux. Vim, by the way, convidado pelo bom amigo Clive Cummings, o proprietário, que, afinal, não me deu o prazer de sua companhia em razão de um pequeno acidente doméstico.

Fiquei feliz, however, em ser reconhecido por um pequeno grupo de empreendedores e jornalistas de seu país, que me convidou para jantar em sua mesa e compartilhar minhas velhas e modestas lembranças de viagem. O jantar foi, in fact, muito interessante, já que se tratava de uma degustação baseada nos ótimos itens gastronômicos da Borgonha. Subitamente, reparei - como tenho feito, entristecido, nos últimos meses - que, após um breve e animado início de conversação, a atitude dos circunstantes mudou radicalmente.

No momento da chegada do amuse bouche inicial, eles abandonaram a conversa e, my God!, começaram a fotografar, enlouquecidamente, o pobre crustáceo reduzido em mel de castanhas que fazia bela presença em seus pratos. Ato contínuo, como que em transe, começaram a postar suas fotografias em seus... how do you say it?... Instagrams! O prato esfriava e perdia o sabor, mas o que eles queriam mesmo era compartilhar o que ainda nem sequer haviam comido. Em troca do quê? De curtidas! De likes! Era-lhes tão importante o reconhecimento da comunidade de que eles, in fact, estavam em um lugar especial, pretensamente comendo pratos especiais, que mal lhes importava o sabor da comida.

A cena repetiu-se à saciedade durante quase três horas de jantar. Em diversos lugares do Brasil e do mundo, smartphones deveriam estar produzindo seus irritantes alarmes de aviso - para sublinhar o fato de que algumas pessoas iriam comer pratos muito especiais em uma hospedaria única. Só que elas não o faziam e, o que achei ainda pior, jamais compartilhavam suas sensações com quem estava sentado na própria mesa.

Para minha grande alegria, Trashie, a raposinha das estepes siberianas, mantinha-se deitada aos meus pés, com a expressão amável que costuma mostrar quando está feliz. Continuo me perguntando, dear Mércia, como você, para onde caminham as relações humanas. Será que o prazer verdadeiro de compartilhar emoções e vivências está em vias de desaparecer? Ninguém mais troca olhares, distribui sorrisos ou manifesta emoções. As pessoas digitam, digitam e digitam. E, assim que ouvem um trinado ou um pio, que pode ser a reação de alguém às súplicas recém-postadas, retomam o aparelho, riem sozinhas ou comentam, sussurrando: 'Aquela bisca invejosa! Eu sabia que ela ia menosprezar.'

Tenho comigo a sensação de que esse comportamento esconde grandes solidões. Acho, unfortunately, que eles funcionam como aqueles Tamagoshis japoneses, pequenos, desumanos, mas fiéis companheiros. Anyway, conservo a esperança de que essa praga há de terminar. To share, compartilhar, partager: quem sabe as pessoas voltem a fazê-lo entre si mesmas. Nem que seja para comer um belo jantar na temperatura que ele merece."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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