Museu Nacional/UFRJ
Museu Nacional/UFRJ

O museu é o enredo

O hábito de colecionar, as viagens e os sambas-enredo

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2018 | 03h00

Para ler ouvindo:

Uma Noite do Museu - Acadêmicos do Tucuruvi

Uma Noite Real no Museu Nacional - Imperatriz Leopoldinense

 

Viajar é uma história. Mas, no carnaval, tudo parece ser plural, inclusive as viagens e as histórias. Os enredos, afinal, continuam sendo a força das escolas de samba, dos blocos de rua, de quem pula a folia. São roteiros que se cruzam, culturas que se misturam, regiões distantes que tornam-se próximas, dividindo a mesma passarela. Eis o que, ano após ano, me faz prestar atenção a cada um dos sambas-enredo, desejosa de que a viagem a que me convidam seja instigante.

Vou começar pedindo licença às queridas Portela e Império Serrano, cujos enredos, este ano, falarão dos judeus nordestinos que fizeram história em Nova York e da rota da seda, respectivamente. À necessária Paraíso do Tuiuti, que levará à Sapucaí uma reflexão sobre os 130 anos da abolição da escravidão. Licença à sagacidade crítica de Mangueira, onde “pecado é não brincar carnaval”, e da Beija-Flor, onde “canto é resistência” e não há governo que faça calar a festa. 

Quero pedir licença a todas as escolas para falar de um enredo em especial, um enredo que, por uma combinação dos astros (prefiro que seja devido à importância), duas delas decidiram levar às passarelas: o museu. É ele, este companheiro de viagens, o protagonista da Acadêmicos do Tucuruvi, escola paulistana que, por um infortúnio, não poderá desfilar seu enredo, Uma Noite no Museu, com todo seu potencial: seu barracão pegou fogo no último dia 4, queimando, entre outras coisas, todas as fantasias das baianas.

Uma Noite no Museu se inspira no filme de mesmo nome, lançado em 2006, uma comédia estilo Sessão da Tarde no qual o “acervo” do Museu de História Natural de Nova York ganha vida quando o público vai embora. No grande museu a céu aberto da Tucuruvi, porém, o acervo alegórico não tem a ver apenas com animais empalhados ou trajes indígenas. Tem a ver com tudo aquilo que, desde tempos pré-históricos, provoca nos homens o hábito de colecionar objetos, histórias e afetos. Grandes entusiastas deste fascínio são as viagens.

A origem da palavra museu é grega: mouseion, que significa “templo para as musas”. Na Grécia Antiga, as musas eram as deusas da eloquência, da história, da música, da dança, das poesias, da tragédia, da comédia e da astronomia. Ou seja, mouseion era um espaço de inspiração intelectual e divina, como a Biblioteca de Alexandria, primeiro lugar a receber essa denominação. 

De lá para cá, o conceito de museu mudou e seus “segundos nomes” se diversificaram e especializaram – há o Museu do Amanhã, do Sexo, do Esgoto (sim, do Esgoto). Em todos os casos, tendemos a nos prender aos acervos, sem refletir sobre o museu em si e naquilo que o que o cerca. Bom exemplo é o Museu Nacional, que completa seu bicentenário este ano, motivo pelo qual a escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense lhe prestará homenagem, levando à Sapucaí o enredo Uma Noite Real no Museu Nacional.

 

Não havia dito que os roteiros se cruzam? Pois a escola que carrega o nome da Imperatriz Leopoldina, mulher de D. Pedro I, se viu diante de um grande tema: preservar e recriar a memória – não é isso que fazem os museus? – do Palácio de São Cristóvão. Aos pés do morro da Mangueira, na Quinta da Boa Vista, foi lar da família real e imperial entre 1808 e 1826 e, em 1892, virou o maior museu de história natural da América Latina. Trata-se da mais antiga instituição científica do País, ligada à UFRJ. Como presente, a instituição busca parcerias para o projeto urgente de revitalização do prédio. Enquanto isso, segue aberta ao público (terá programação de aniversário a partir de junho), incentivando a pesquisa – acaba de revelar ovos e ossos de pterossauros encontrados na China – e resistindo tanto quanto o carnaval. 

Museus são espaços em constante mudança, devendo provocar em quem os visita não a sensação de guardarem tempos ultrapassados, mas aquilo que nos liga ao presente. Como a festa de fevereiro, podem nos convidar a ocupar e preservar o que é historicamente nosso e a viajar para épocas e lugares historicamente nossos também.

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