Hazel Thompson/NYT
Hazel Thompson/NYT

O nome é Belfast, mas pode chamar de Winterfell

Arredores da capital da Irlanda do Norte é repleta de locações de Game of Thrones; várias empresas levam fãs aos pontos de gravação

Luiz Fernando Toledo e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2018 | 04h45

Uma cidade gelada e marcada por uma forte história de segregação política, dividindo norte e sul por um muro. Poderia ser a fictícia Winterfell de Game of Thrones - e, de certa forma, até é - mas, na vida real, chama-se Belfast, capital da Irlanda do Norte, onde vivem cerca de 300 mil habitantes. 

Não há dúvidas de que a cidade teve a rotina afetada graças ao sucesso de Game of Thrones. Não bastasse ser ali a cidade do Titanic - e vale muito a pena visitar o museu com a história do navio  (£ 18,50 ou R$ 90) -, nos últimos anos o local vem recebendo mais e mais curiosos por qualquer fofoca sobre onde estão os atores e, o mais importante: o que estão filmando por ali.

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Não é exagero: em uma rápida conversa com qualquer guia turístico você fica sabendo das dificuldades que o município teve com fãs aguerridos da série. Alguns se muniram de drones para tentar captar ao menos uma imagem do principal estúdio de gravação da série, que fica logo ao lado do museu do Titanic. Quer saber ainda mais sobre GoT? Muito fácil: converse com alguém na cafeteria, em qualquer restaurante, nos táxis. Todo mundo tem alguma história para contar sobre o elenco ou sobre suas próprias experiências como atores coadjuvantes na série.

 

 

Belfast já era bastante atraente aos turistas antes do sucesso da série por sua beleza e pela riqueza de sua história, marcada por conflitos entre católicos e protestantes. As paredes grafitadas do muro, que ainda divide a cidade em duas, contam parte deste enredo real. 

Mas para conhecer os cenários da série da HBO é preciso ir além. Os pontos mais conhecidos ficam a cerca de 1 hora do centro de Belfast, de carro. Como ficam em lugares não tão próximos uns dos outros, é altamente recomendável que você contrate uma empresa para guiá-lo - do contrário, dá para se perder ou não visitar todos os pontos com a mesma facilidade. Nós fomos com a Game of Thrones Tours, que também faz trajetos a partir de Dublin (capital da outra Irlanda). Sai por £ 50 (R$ 242) por pessoa.

Há dois passeios principais disponíveis. O mais longo passa por diversos pequenos cenários, como as Ilhas de Ferro (incluindo a ponte de uma famosa cena de assassinato na casa Greyjoy) e a caverna de Melisandre. E também um tour no local de filmagem de Winterfell, que oferece até a possibilidade de conhecer os cães que deram vida aos lobos gigantes na TV. Cada roteiro leva um dia inteiro. Prepare-se: há muitas caminhadas, e nem todas de fácil acesso, especialmente em dias de chuva - algo muito comum por ali.

A caverna de Melisandre

A aventura começa cedo, por volta das 8h da manhã, quando o ônibus busca o pequeno grupo de turistas em um ponto no centro de Belfast. Também é possível agendar tours privados, desde que seu cartão de crédito comporte: o preço pode superar £ 300 (R$ 1.450).

 

 

A primeira parada é uma cafeteria que, à primeira vista, não tem nada de incomum. Até que uma placa, logo na frente do estabelecimento, indica que ali em Carnlough Harbour foi o local de filmagem de uma das cenas mais tensas de Arya Stark (interpretada por Maisie Williams) em busca de se tornar Ninguém. É curioso que o local tenha sido usado exclusivamente para uma cena que não durou mais do que cinco segundos - mas da qual todos irão se lembrar.

 

Essas placas indicativas estarão por todo o roteiro. E para quem achar o lugar muito diferente do que se lembra na cena, os guias vêm preparados: constantemente, sacam celulares ou tablets para apresentar vídeos filmados no lugar que está sendo visitado naquele momento.

O segundo passo é uma visita às cavernas Cushendun, de frente para o mar. A placa, no entanto, indica se tratar de Melisandre’s Cave. Para quem não assistiu nada da série, trata-se apenas de uma caverna, sem muito para explorar. Mas o lugar ganha um significado especial para fãs: foi ali que a feiticeira de cabelos vermelhos (Carice van Houten) levou Davos (Liam Cunningham) para consumar um ato que marcaria toda a segunda temporada. No sinal de qualquer chuva, o lugar fica cheio de barro. Mas vale a pena explorar até o fim e fazer muitas fotos lá dentro. 

Diferentemente de outros cenários que visitamos, este é bastante parecido com o que aparece na série, sem muitas mudanças com efeitos visuais.

Outro parada é o campo em que a personagem Brienne de Tarth (Gwendoline Christie) derrota Sir Loras Tyrell (Finn Jones) e, então, pede para se tornar integrante da Guarda Real de Renly Baratheon (Gethin Anthony). É necessário exercitar um pouco a imaginação aqui, já que não há barracas, acampamento ou milhares de soldados para simular um torneio, como na cena. Mas detalhes nas paredes e na posição dos muros entregam que foi ali mesmo que tudo aconteceu.

 

 

Na terra dos Greyjoy

Os lugares mais adorados pelos turistas neste passeio são aqueles ligados aos rabugentos das Ilhas de Ferro, os Greyjoy. Se você tiver contratado um grupo de guias, eles te darão um uniforme para vestir e ficar igual a um soldado seguidor do Deus Afogado. Gritar o lema da casa, “What is dead may never die” (O que está morto não pode morrer), é opcional - mas, mesmo assim, todo mundo grita. Se você duvida, pesquise no Instagram por Ballintoy Point, o nome verdadeiro do cenário, e vejas milhares de vídeos e fotos de gente adulta brandindo espadas e machados como se tivessem oito anos. Sim, nós nos incluímos nesse grupo, como você pode constatar observando a capa desta edição.

 

Além de um visual fantástico no Ballintoy Point, também é possível se arriscar ali perto na ponte de corda Carrick-a-Rede. Não que o local seja perigoso - é extremamente seguro, com vários funcionários para ajudar. Mas depois de ter visto a cena que se passa ali, e olhar aquelas pedras pontiagudas logo abaixo... bem, nem todo mundo quer ir para o outro lado e, ainda por cima, ter de voltar depois. Mas é provável que renda a melhor foto do passeio. 

O roteiro encaixa ainda uma ida à Calçada dos Gigantes (Giant’s Causeway), que, embora não tenha relação alguma com GoT, é parada obrigatória. Localizada em Bushmills, a cerca de 90 km de Belfast, a formação rochosa tem 50 milhões de anos - e, como o nome já diz, parece uma calçada elevada, com imensos degraus. Ao todo, são 40 mil colunas de basalto de até 10 metros de altura. Reza a lenda de que a obra teria sido feita por um gigante apaixonado, para facilitar o percurso até o encontro da amada. Na verdade, a formação é resultado de intensas atividades vulcânicas. Hoje, o maior risco é mesmo tomar um escorregão.

O último ponto do passeio é uma breve caminhada pela famosa Kingsroad (que, na vida real, se chama The Dark Hedges), a passarela com árvores entrelaçadas que serve de passagem para Arya Stark fugir de Porto Real, no início da segunda temporada.

WINTERFELL: TROQUE OS CAVALOS PELA BIKE

Ironicamente, o norte de Westeros fica, na verdade, ao sul da capital da Irlanda do Norte. Muitos dizem que o mapa do continente retratado na série é uma espécie de mapa do país de cabeça para baixo, algo que nunca foi confirmado por seu criador.

O nome verdadeiro da fortaleza dos Stark é Castle Ward, uma propriedade pública localizada no vilarejo de Strangford, a 1 hora de Belfast. Não é só um castelo, mas um conjunto de trilhas, que podem ser feitas por bicicleta. No mesmo roteiro é possível visitar as Gêmeas - na vida real, uma só torre - e também parte do caminho percorrido por Bryenne e Jaime Lannister, quando a guerreira o leva de volta para Porto Real. O local está sempre lotado de fãs e tem até fila para fotos.

A primeira sensação ao chegar aqui é a de que está faltando alguma coisa, mesmo para quem viu somente o primeiro episódio da série. Não existe um castelo ou uma fortaleza, mas uma espécie de fazenda com algumas torres. Quase tudo em Winterfell foi montado especificamente para a série - tanto em estruturas físicas quanto em efeitos especiais. Você vai se lembrar melhor das coisas quando o guia mostrar imagens das filmagens - que hoje não são mais realizadas ali por causa do forte assédio dos fãs. Ainda assim, há muitas atrações para se sentir na pele de um Stark.

Arco e flecha inspirado em Bran Stark

Uma das primeiras cenas da história, do pequeno Bran Stark (Isaac Hempstead-Wright) aprendendo a atirar flechas com seu arco, pode ser reproduzida em um campo improvisado. Antes de sair atirando, os convidados são levados a uma sala especial onde podem se vestir como legítimos reis e rainhas do norte (Mais uma vez, vale uma espiada no Instagram com o nome do local, Castle Ward, para ver até onde um adulto pode ir quando exposto a uma dose exagerada de fantasia). 

O mais interessante é que eles mantêm um mapa-múndi em que os turistas assinalam de onde vieram antes de participar do jogo. Pudemos constatar que brasileiros, de praticamente todos os cantos do país, realmente gostam da série e marcaram presença. 

A brincadeira de arco e flecha passa por um rápido tutorial e logo se torna um verdadeiro campeonato - de desastres, caso você não tenha muita habilidade com a arma (como nós). Mas não se preocupe, pois ninguém irá te julgar (muito) e há telas de proteção por todos os lados. Apontar para o colega é expressamente proibido, mesmo que para fotos. 

A maior parte do trajeto ao redor do Castle Ward pode ser feita de bicicleta, o que torna o roteiro mais dinâmico, já que os pontos de filmagem não ficam tão perto uns dos outros. 

Cara a cara com os lobos

Se você agendar com os guias, também dá para conhecer de perto os “lobos” - na verdade, os cães Odin e Thor -, que são irmãos na vida real e estiveram na pele dos personagens Verão e Vento Cinzento. Eles foram preparados por Caroline Benoist, a mesma treinadora responsável pelos cães dos filmes de Harry Potter. A treinadora morreu em 2011, vítima da gripe H1N1. O quinto episódio da primeira temporada da série, O Lobo e o Leão, foi dedicado a ela pela HBO.

APP INDICA LOCAÇÕES NA IRLANDA DO NORTE

São tantas as locações de Game of Thrones na Irlanda do Norte que o órgão de turismo local criou um aplicativo para turistas interessados nos cenários da série no País. O Game of Thrones Northern Ireland Filming Locations (grátis, para Android e iOS) traz os mapas dos dois principais continentes do seriado (Westeros e Essos) e indica no mapa da Irlanda do Norte onde foram gravadas determinadas cenas.

Bem organizado e com design inspirado nos símbolos da série, o app apresenta as cenas separadas por episódio e temporada e disponibiliza fotos de cada episódio gravada no país, inclusive imagens de bastidores.

Há também a possibilidade de fazer a consulta inversa: entrar no mapa da Irlanda do Norte, buscar onde houve filmagens e, de quebra, conhecer a história de cada ponto turístico.

 

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