O nome que dão aos ventos

Com a caixa postal cheia de mensagens comentando sua visão sobre o turismo do futuro, mr. Miles nos agradece os elogios dos leitores e garante que não tem a patente, nem o projeto da mala que acompanha o viajante como um cão de companhia, a qual se referiu na semana passada. Ele promete voltar ao assunto em uma próxima oportunidade. A seguir, a carta da semana: Querido mr. Miles: o que é mais importante em uma viagem? O destino que se busca ou o caminho que se percorre? Lucila Signoretti, por e-mail ''Well, my dear, perdoe-me a intrusão, mas a sua pergunta me faz supor que estou me dirigindo a uma leitora em estado de paixão latente. Am I right? Ou seria uma viajante de sensibilidade acima da média? Na verdade, darling, há poucas pessoas que refletem sobre o tema que você põe em pauta. But I''m quite sure de que tanto o caminho quanto o destino são a mesma viagem. Sometimes, é verdade, as pessoas julgam que não dão atenção ao caminho, sobretudo quando parece simples alcançar o destino. Basta, for instance, entrar em um avião e, horas depois, encontrar o lugar desejado e então se presume que não houve caminho. It''s never like this. O caminho começa, always, com o germe de um sonho. Ele pode ter sido inoculado durante a leitura de um livro, nas cenas de um filme ou numa remota conversa entreouvida na infância, em que uma tia longínqua de sotaque indefinível contava dos seixos que recolhia no florido caminho de sua escola ou dos cafés esfumaçados em que sonhou mudar um mundo ao qual você compreendeu não pertencer, mas desejou reviver. It''s a long way, my dear. Passa por nossas próprias dúvidas, pelas indecisões, pelos erros; segue, sometimes, à sombra do que não podemos, porque não é a hora, porque não há recursos, porque falta paz ou companhia. Há, também, os medos que surgem como pedras no caminho, ainda que ele siga existindo. And then, suddenly, as malas estão na porta, o carro nos espera e a viagem principia. E quanto mais longa ela for, darling, mais belo será o destino, porque ainda que ele sempre exista, fomos nós que o fizemos and nobody else. Mas essa é apenas uma maneira de ver sua questão. In fact, há caminhos que são o próprio destino. Nowadays, mais e mais pessoas têm aderido a esse conceito, adequadamente chamado de slow travel. Viajar pelo prazer de desfrutar o roteiro. Conversar com as pessoas e, sempre que possível, entrar em suas casas. Ouvi-las com interesse e responder a todas as suas dúvidas. Conhecer o nome que dão aos ventos. Provar de seus temperos e esperar o momento em que elas revelem seus próprios caminhos - que serão, for sure, aqueles que jamais percorreríamos. Não posso deixar de mencionar, as well, a freqüente ocorrência de fenômenos reservados aos viajantes: a inesperada sensação de que, sometimes, nos caminhos a gente encontra o próprio destino. E, em outras vezes, flanando pelo destino, o que surge diante de nós são os caminhos que procurávamos. E, tendo derramado toda essa ladainha, my dear, peço sua permissão para encerrar essas considerações, na expectativa de não tê-la confundido ainda mais. Há, of course, inúmeras maneiras de responder à sua questão. A mais rude delas é, também, a mais prática, aquela que você obteria de um agente de viagens. Seria, probably, algo assim: ''Veja bem: depende do destino. Se a senhora tiver pouco tempo, pegue a auto-estrada. A opção é muito bonita, mas os caminhos são esburacados, mal sinalizados. Isso, é claro, se a senhora não estiver pensando em ir para Paris... Aí, é só a confusão do aeroporto, sabe como é... Depois, bem, Paris é Paris''.'' * Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos. É colunista e conselheiro editorial da revista ''Próxima Viagem''

O Estado de S.Paulo

03 Junho 2008 | 03h16

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