O passageiro ao lado

Sem prólogo, nem revelar seu corrente paradeiro, nosso solerte viajante nos envia a correspondência da semana.

O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2014 | 02h06

Caro mr. Miles: não sei o que está acontecendo. Ou estou engordando muito ou as poltronas de avião estão ficando ainda mais estreitas. Até onde isso vai?

Roberto Marchisio, por e-mail

"Well, Bob: unfortunately, não vou poder responder à sua pergunta por completo, a não ser que você me mande uma foto de como era e, outra, de como ficou. Mas lamento informá-lo de que as empresas aéreas, exceto as de Tonga, não estão minimamente preocupadas com os diâmetros de nossas nádegas ou nossas cinturas.

Menciono o reino de Tonga porque, as you know, esse diminuto arquipélago na Micronésia abriga exemplares humanos nada diminutos que, however, orgulham-se de suas exageradas dimensões e costumam dar-se bem no rugby e em outros esportes que exigem força colossal. Não há hipótese, for instance, de um tongolês voar até o Brasil, a não ser que compre duas poltronas anexas ou, em alguns casos, um assento em classe superior. Anyway, minha tendência é concordar com o seu raciocínio, ainda que eu seja um tipo longilíneo e não tenha o hábito de levar uma régua quando viajo em uma aeronave. O tema, my friend, infelizmente é recorrente.

Recentemente, sentei-me ao lado de um passageiro em longo voo internacional. Exultante, ele me disse que obtivera, graças às suas pernas longas, um assento especial em uma das saídas de emergência da aeronave. Pois foi pouco além das duas primeiras horas de voo a alegria de meu vizinho. Explico: os assentos em saídas de emergência não possuem aquele espaço lateral por onde, quase sempre, espalham-se as carnes excessivas de passageiros mais volumosos. E não têm, of course, justamente porque seus braços (os dos assentos) precisam abrigar a mesinha sobre a qual se come e a pequena televisão que, supostamente, serve para distrair.

Há mais uma agravante, comum a muitos aviões: o controle remoto da televisão - que também comanda a luz de leitura, a campainha de chamada aos comissários e o joystick dos jogos disponíveis - fica encaixado no interior de uma dessas laterais rígidas. É dada ao passageiro a opção de retirá-lo, mas isso significará mais um fio em seu colo, dificultando operações como o abrir e fechar dos cintos de segurança, a retirada da mesinha e a da televisão. De modo aparentemente sensato, meu feliz vizinho, que ia apertado no assento-sem-chorinho, tirou o controle remoto, escolheu o canal de sua preferência, o volume que lhe aprazia e, claro, acabou enrolando o cabo ao outro cabo, dos fones de ouvido. Finalmente desvencilhado da encrenca, o passageiro em questão soltou-se do cinto, guardou o controle e voltou a sentar-se.

Eis que, escolhido o filme, chegou-lhe o jantar. Ainda sorridente, meu vizinho buscou a mesinha. O eterno chicken or pasta foi servido. Pois bastou o pobre remexer-se de modo a comer que, pimba!, o canal da televisão mudou sozinho. Well: sozinho é modo de dizer. O que ocorreu, mais precisamente, é que seu quadril esquerdo pressionou o controle remoto. O filme de aventura transformou-se em um desenho animado. Aparentemente conformado, o homem alto e largo comeu o que havia, aguardou, around half an hour, pela retirada da bandejinha e recomeçou a operação. Enrolou-se de novo, como era de se esperar, mas voltou ao seu filme.

Cinco minutos depois, uma pequena turbulência levou a uma nova troca involuntária de canal. Nevertheless, enquanto o pobre refazia a operação, decidi concentrar-me em minha leitura. Vinte minutos depois, I presume, percebi movimentos sistemáticos oriundos do assento vizinho. Believe me: o passageiro, outrora feliz, agora com um olhar levemente ensandecido, estava aprendendo a operar o controle remoto com seus quadris."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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