O poder dos diários de viagem

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2015 | 03h00

Nosso solerte viajante nem contou aonde anda. Apenas pediu-nos permissão para alongar-se na resposta de hoje, que considerou tema de seu especial agrado. Pois aí vamos:

Querido Mr. Miles: tenho guardado comigo o diário de uma viagem que fiz há muito anos – e que gosto de consultar. O que o senhor acha? Está muito fora de moda ou de propósito?

Celina Mercúrio, por e-mail

Well, my dear: as anotações de um diário, qualquer que ele seja, só estarão fora de moda, in my opinion, no tempo em que os próprios dias estiverem fora de moda. Assim como as fotografias são o registro visual de algum fato – uma viagem, um casamento ou um simples encontro de amigos –, os diários têm a insubstituível função de anotar coisas menos objetivas do que o que se pode ver através de uma lente. Nas páginas de qualquer caderno de anotações sem conotação escolar, jogamos, sem reservas, nossas impressões, nossos pensamentos e as sensações que vivemos naquele determinado instante. It’s awsome, darling.

Não há forma mais livre e sensata de manifestar nossas sensações, ainda que, paradoxalmwente, elas sejam proibidas e insensatas. Freud nem sequer existia quando as pessoas – homens, mulheres, crianças e idosos – já se permitiam dizer ao papel aquilo que jamais transformariam em palavras. E é dessa franqueza ilimitada que se produz a evolução das pessoas ou, mais que isso, o despertar das vocações e dos desejos. Meu amigo Walter Bergson foi, certa vez, a um desses hotéis hedonistas do Caribe com o intuito de contar a experiência para seus leitores. Não se sabe o que ocorreu durante aqueles dias, mas o fato é que os leitores tiveram apenas informações factuais. Os amigos, esses sim, souberam um pouco mais. Ao psiquiatra, Bergson contou quase tudo. Mas a verdade continua escondida na mais oculta de suas cadernetas. Do you know what I mean?

Alguns jovens hão de argumentar que os diários tornaram-se obsoletos com a possibilidade de registrar cada passo da viagem com um retrato no Instagram ou um comentário no Twitter. Oh, my god: eles não sabem o que dizem. Além de evidentemente mais elegante, o ato de anotar imprudências ou refletir sobre dizê-las em páginas só suas, não carrega – como o Twitter, o Instagram, os podcasts e outras dessas bobagens infernais – a necessidade de exposição pública que torna tudo menos legítimo e honesto.

Escrevi muitos diários durante minhas jornadas. E, como qualquer viajante, juntei a eles ingressos hoje amarelados, cardápios de restaurantes que já fecharam, tíquetes de atrações que jamais esqueci e, of course, bilhetes de lindas moças que conheci pelo caminho. Mas o mais importante, dear Celina, é que, em cada um deles, estão gravadas as impressões que tive, os raciocínios que intui, os sabores e aromas que provei. Muitos deles, nowadays, parecem-me estranhos – e já não combinam com o que penso e com o que sou. Adoro, however, ver e compreender como mudei. Porque só não mudam as pedras – e mesmo essas o tempo encarrega-se de esculpir.

A cômoda onde guardo as páginas que preenchi ao longo dos anos já está até vergada pelo peso. Não o peso das cadernetas, do papel ou da tinta. Mas o peso muitíssimo mais importante das pensatas, dos devaneios e dos tresvarios. Não os troco por nada e vivo a consultá-los para me encher de lembranças ou de ideias para estas crônicas semanais. Peço-te, therefore, que não abandone a ideia de relatar os segundos, minutos e horas de seu dia quando for viajar novamente. Ou mesmo se ficar em casa.

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