Anda Ambrosini/Unsplash
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O primeiro dia depois do fim

Quando a cura e a vacina para a covid chegarem, tudo ganhará um novo significado

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 03h00

O meu primeiro reflexo ao acordar é pegar o celular e procurar as notificações dos sites de notícia. A esperança é a de me deparar com a manchete definitiva sobre uma vacina ou um remédio eficaz contra a covid-19. Esse dia vai ser louco...

Vou pular da cama, abrir a janela e gritar: “Quem diria, mel com limão! Mel com limão!”

Na minha fantasia, a saída para pandemia seria algo prosaico e acessível, como mel com limão, suco de tomate temperado com Tabasco ou gim-tônica. Algo que eu poderia resolver abrindo a geladeira de casa.

Nesse dia, vou tomar o banho mais demorado da vida, soltar a voz no chuveiro e desfilar um repertório vasto, que deve abraçar de Frank Sinatra a Zeca Pagodinho. Vou fazer a barba com esmero e me achar jeitoso. Vou usar uma roupa de festa. Tipo smoking ou fraque. Como não sei a diferença entre eles, e a ilusão é minha, vou de fraque. 

Antes de sair de casa, vou tomar o café da manhã dos campeões, um café da manhã tão, tão, TÃO, que em algumas culturas ele seria chamado de “breakfast”. 

No Estadão, uma matéria incrível da Fabi (Fabiana Cambricoli) vai explicar como a vacina ou o remédio ou ainda o mel com limão nos livrou da pandemia e do distanciamento social. Depois, vou ligar a televisão para assistir a Aline Midlej, da Globo News, abrir um sorrisão e avisar: “Acabou, vencemos a pandemia”. 

E dá-lhe ouvir o Drauzio Varella, Jean Gorinchteyn, Margareth Dalcolmo, Roberto Medronho e todos os médicos, pesquisadores e especialistas (que eu já enxergo como se fosse da família) esclarecendo os detalhes dessa vitória da humanidade. 

Sim, devidamente trajado, vou dar um abraço no porteiro antes de sair por aí. Mesmo já tendo feito o meu “breakfast”, planejo entrar em cada lanchonete e pedir a coxinha mais amanhecida do balcão. Vai ser a coxinha da vitória!

Então, vou subir a Rua Teodoro Sampaio e entrar em uma loja de instrumentos musicais. Vou comprar uma guitarra vermelha, daquele tipo que as bandas de metal farofa usavam nos anos 80. E daí que eu não sei tocar?

De fraque, com minha guitarra debaixo do braço, vou seguir para a Dr. Arnaldo e pegar o ônibus para o trabalho. Sim, o Brasilândia ou o Morro Grande.

Vou curtir cada segundo de espera pelo busão. Não vou praguejar, não vou reclamar de nada. Vou esperar meu coletivo como quem espera um beijo de olhos fechados (e todo exagero será perdoado durante a quarentena).

Quando o ônibus chegar, vai ser uma festa. Até o cobrador estará de bom humor – mesmo diante da impossibilidade de troco para uma nota de R$ 20. 

Vou sentar na janelinha e curtir a paisagem como se fosse um turista na minha própria cidade. Olha, a Avenida Pacaembu, a Rua Monte Alegre, toda a Barra Funda...

Já posso sentir o cheiro do Rio Tietê. E esse cheiro é bom. Que saudade de sentir o fedor do Tietê! 

No trabalho, vou exibir minha guitarra vermelha, abraçar os colegas e contar um monte de lorotas sobre minha vida na quarentena. Vai ser lindo. 

Sobre o que vou fazer na minha primeira noite depois do fim do confinamento? Bem, prefiro contar mais tarde, vou deixar para uma hora em que nenhuma criança estiver me lendo.

Tudo isso vai acontecer de verdade. Ou quase tudo. Menos a parte do mel com limão.

A cura não será por meio do mel com limão, do suco de tomate temperado com Tabasco ou da gim-tônica. A cura virá pela ciência, pelas pesquisas, estudos, testes e processos rígidos.

Por enquanto, precisamos de paciência e de sonhos loucos. O meu é mais ou menos assim. E o seu? Como será o seu primeiro dia depois do fim da pandemia? 

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