O que dizem as cidades

De algum lugar do Brasil, mr. Miles nos envia um relato revelador sobre a essência das cidades e o dom de se comunicar com elas.

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2014 | 02h08

"Vou lhes revelar um segredo. Não há melhor maneira de conhecer uma cidade do que conversando com ela. Yes, my friends: cidades falam. Respondem a perguntas. Contam histórias. Reclamam, quando é o caso, sussurram frequentemente. São, by the way, loquazes como tribunos talentosos e, believe me, tagarelas como meninas adolescentes no closet de um salão de bailes.

Não estou falando, of course, do som das buzinas, do bulício das conversas, do apito dos bondes, do matraquear das britadeiras ou de qualquer tipo de ruído urbano. Refiro-me, indeed, às palavras que as cidades proferem. Às frases que constroem, aos pensamentos que verbalizam, às indignações que manifestam e, em alguns casos, até mesmo, às poesias que declamam.

O melhor, fellows, é que não é preciso ser poliglota para dialogar com uma cidade. Elas são estranhamente compreensíveis e falam o idioma de quem as visita, como se cada um de seus transeuntes estivesse portando um audioguia personalizado. E é claro que o fazem porque têm, always, uma ânsia enorme de contar o que são. Muitas delas têm séculos, até milênios de lembranças para compartilhar. Rancores para expurgar. Conquistas para exaltar. Cidadãos para enaltecer ou espezinhar.

Oh, my friends, como são abençoados os que chegam a ouvir a voz das cidades que visitam. E mais ainda os que perdem o pudor de puxar conversa. That's all they want! Há, é verdade, algumas cidadezinhas mais tímidas, mais recatadas, que talvez não deem papo com tanta facilidade. Outras se resguardam por razões culturais ou religiosas. Nem todas, I must say, são articuladas como as metrópoles cosmopolitas ou têm o discurso inicial aparentemente fútil dos lugares da moda. Algumas parecem até agressivas quando abrem a boca pela primeira vez. Dão ordens. São ríspidas. However, como em qualquer relacionamento, você só vai dialogar mesmo com o lugar se for além das primeiras impressões.

Nesse sentido, a vantagem das cidades sobre as pessoas é que você pode conhecê-las com uma certa antecipação. Ler a seu respeito. Ter noções sobre seu passado, referências sobre sua gente, curiosidade desarmada por seus hábitos. Com essas providências simples, você evita as formalidades e a conversa flui. Assim, ao caminhar pelas ruas, poderá ouvir a cidade lhe contando porque aquela rua está tão próspera ou aquele parque tão descuidado. Ela lhe contará o que faz os seus cidadãos andarem altivos ou, se estiver doente, há de se queixar da dor dos que caminham andrajosos e cabisbaixos. Do you know what else, my friends?

Até o tom da voz conta mais sobre um lugar do que todos os livros que sobre ele já foram escritos. Há povoados que balbuciam como idosos acamados. Há vilas que sussurram com placidez, aldeias monocórdias e metrópoles esganiçadas. Há outras que conversam com voz rouca e sensual, pausando as palavras para que elas produzam efeito mais profundo. Todas elas, my friends, têm muito para dizer. E, se não disserem nada para você (como algumas já não me disseram), é porque talvez sejam lugares comuns, de cotidianos banais e histórias privadas. But you can be sure: sempre haverá quem as escute."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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