Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

O que fazer na estação de Valle Nevado além de esquiar

Começamos com guerra de neve, repetida várias vezes em nome dos bons stories e boomerangs nas redes sociais

Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2018 | 04h30

Luz plana, aprendi no Valle Nevado, é o nome que se dá à iluminação difusa dos dias sem sol. O relevo perde seus contornos, fica impossível distinguir os altos e baixos da montanha. É situação de risco: nas pistas, o perigo é de perder a referência do horizonte, o que pode desorientar e causar tontura. 

O domingo amanheceu com tempo fechadíssimo e temperatura 10 graus mais baixa que a do dia anterior. De desorientada bastava eu mesma na minha condição de iniciante, pensei. Decidi passear pela estação em vez de esquiar.

Giovana Lemes, de 9 anos, e seu irmão Gabriel, de 7, foram mais valentes. Minutos antes das 11 horas, quando a área reservada à escola de esqui e snowboard começa a encher de instrutores e alunos, eu os encontrei nos preparativos finais para a aula. O pai das crianças, Rodrigo Lemes, de 44 anos, é um praticante dos esportes na neve. Achou a infraestrutura do Valle Nevado “excelente”.

Coincidentemente, a família paulistana seria acompanhada naquela manhã por Chino, o meu instrutor do dia anterior. As crianças estavam pela primeira vez numa estação e tinham feito aula particular no dia anterior. A melhor parte, para Giovana, foi “andar na esteira” do Jardim de Neve, a ala infantil. Gabriel comentou que “eu só caio de cabeça”. Soube que, apenas um dia depois, o menino já estava descendo uma pista intermediária. 

Quem também se encheu de coragem e foi para a pista dos aprendizes ensaiar os movimentos de snowboard aprendidos na manhã do dia anterior foi um dos meus colegas de grupo. Pouco depois das 11 horas, enquanto começavam a cair os primeiros flocos de neve, chegou a notícia de que ele havia levado um tombo sério. Depois do resgate numa maca e do primeiro atendimento na clínica do resort, estava sendo transferido de helicóptero a um hospital em Santiago. Duas noites de internação e uma ressonância depois, o diagnóstico foi fratura em uma vértebra; felizmente, ele pôde voltar ao Brasil no mesmo voo que o restante do grupo, caminhando, para terminar o tratamento em casa. Sim, a neve pode ser bem perigosa. 

Troy Darrington trabalha na neve há 30 anos. Na estação de Park City, nos Estados Unidos, começou na patrulha de segurança, guiou tours e, nas últimas dez temporadas, vem atuando como instrutor. Consultado na última terça-feira sobre jeitos menos arriscados de cair durante a prática de esqui e snowboard, Darrington disse ao Estado que “não existe um jeito bom de cair”. “Nós ensinamos a não usar as mãos para se apoiar (na queda) porque isso pode acabar mal”, explica. Jones Puig, seu colega de estação e com experiência de três anos como instrutor, afirma que punho e cóccix são as fraturas mais recorrentes.

Segundo Darrington, é na queda frontal que se manifesta o instinto de usar as mãos como apoio, caminho certo para machucar punhos e braços. Ao cair para trás, os esquis continuam apontados para a base da montanha; o jeito de pará-los é jogar os pés para o lado, de forma que fiquem paralelos à descida. No meu maior tombo, consegui “escolher” cair de lado, usando os quadris. Deu certo sem querer: não precisei das mãos e sofri apenas arranhões. “Instrutores devem ensinar controle e equilíbrio para ajudar esquiadores e snowboarders a caírem menos”, disse Darrington.

Da hora do almoço até o fim do domingo, a nevasca caiu forte sobre o Valle Nevado, cobrindo o mundo com uma camada fofa e tornando céu e montanha um todo branco sem distinção. O teleférico Andes Express, que leva a uma altitude de 3.485 metros, de onde partem pistas intermediárias e avançadas, chegou a parar em alguns momentos de visibilidade mais baixa. Esquiar não era uma opção para iniciantes. Restava brincar na neve.

Começamos com guerra de neve, repetida várias vezes em nome dos bons stories e boomerangs nas redes sociais. E terminamos na piscina aquecida. A temperatura no fim da tarde estava pelos 15 graus negativos. Assim mesmo, teve brasileiro rolando na neve e passando neve no corpo para em seguida mergulhar na água quente. O choque térmico, pode acreditar, é uma delícia.

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