Ilvy Njiokiktjien/NYT
Ilvy Njiokiktjien/NYT

O que significa ser um turista responsável?

O turismo correto deveria criar lugares melhores para os moradores viverem, não só para as pessoas visitarem

Hannah Sampson, The Washington Post

21 de janeiro de 2020 | 17h00

O ano é 2013 e a (hipotética) viagem é uma combinação de retidão e diversão: ir de avião para uma ilha no Caribe, se hospedar num Airbnb, ajudar a criar uma sala de aula em uma escola, visitar um orfanato e depois visitar uma segunda ilha, se hospedar em um resort com tudo incluído, com direito a nadar com golfinhos. Conhecer o mundo! Ajudar as pessoas locais a pagarem o aluguel! Retribuir! Contribuir para a economia. Eis um viajante responsável.

Hoje esse tipo de férias pode provocar um suspiro de horror, acompanhado de perguntas e comentários: o Airbnb foi legal? Não existe o problema do turismo de massa naquele local? Diga se contribuiu para projetos que visam reduções de carbono para compensar o voo. A escola precisava de fato de uma nova sala de aula e, a propósito, desde quando você usou um martelo para pregar um prego? Sabe que turismo com visita a orfanatos é algo problemático? O resort era de propriedade privada de um morador local? Como você apoia o cativeiro de animais?

“Acho que por muito tempo acalentamos a ideia de que se podia viajar para qualquer lugar, fazer qualquer coisa e que isso não teria algum impacto”, disse Jonathon Day, professor de turismo sustentável na Purdue University, e chairman da Travel Core Code Initiative, cujo objetivo é promover o turismo responsável.

Viajar nesta época em que são maiores as preocupações com a mudança climática, desigualdade de renda, overturismo, bem-estar dos animais, a ganância e a exploração por parte das empresas, pode ser perigoso.

As pessoas que querem conhecer o mundo e, ao mesmo tempo, serem gentis para com o planeta se deparam com obstáculos, especialmente porque a percepção da sociedade vem mudando, com uma maior conscientização dos danos potenciais das viagens de luxo internacionais.

E, para piorar a situação, não existe consenso sobre o que torna uma viagem responsável, consciente, ou sustentável, por mais impecável que um turista bem-intencionado aspire ser.

“Não tem a ver com adotar escolhas perfeitas, porque como aprendemos, o que sabemos e compreendemos como turismo responsável está sempre mudando”, afirmou Justin Francis, CEO e cofundador da empresa Responsible Travel, que se descreve como uma companhia de viagens “ativista". "Trata-se de tomar decisões melhores do que as adotadas alguns anos antes”.

Viajar sempre foi considerado algo inerentemente bom: amplia os horizontes, fomenta a compreensão, promove o intercâmbio cultural e muda o viajante para melhor. É também um importante motor econômico em muitos destinos em todo o mundo, propiciando empregos e, com frequência, incentivando a conservação. Mas os especialistas são unânimes num ponto, ou seja, de que esses sentimentos não são equivocados.

“Não quero ser um estraga-prazeres na viagem”, disse Jonathon Day. “As pessoas saem de férias e voltam renovadas, são educadas, e tudo mais. Só precisamos ser mais atentos e assumir um pouco mais de responsabilidade”.

Envolvidos no setor, ávidos para se adaptarem às tendências, já vêm fazendo alguns ajustes por conta própria. Grandes cadeias de hotéis, como Marriott International e o Intercontinental Hotels Group, eliminaram as garrafas de plástico. Algumas empresas aéreas, incluindo JetBlue e British Airways, estão compensando as emissões de carbono nos voos domésticos. A KLM no ano passado chamou atenção ao incentivar as pessoas a viajarem menos de avião.

Mas para aquele que quer ser mais proativo nos seus esforços como bom cidadão global, os especialistas focados nas viagens responsáveis oferecem algumas diretrizes básicas. Francis diz que o turismo correto deveria criar lugares melhores para os moradores viverem, não só para turistas visitarem.

A organização Travel Care Code faz três perguntas importantes, afirmou Day: você está respeitando seus anfitriões? Está reduzindo o desperdício, incluindo o consumo de energia? E está seguro de que o dinheiro que gasta vai para a comunidade local?

Além dessas questões gerais, há algum consenso quanto a maneiras de os turistas serem mais responsáveis:

Voar menos

Não significa viajar menos. No caso das companhias aéreas de baixo custo as viagens curtas ficam mais baratas e tornam mais fácil fazer passeios curtos, ou visitar vários lugares em uma única viagem. Mas não é o ideal no tocante às emissões de carbono.

Os defensores do turismo responsável sugerem que as pessoas que tiram férias várias vezes por ano pensem em realizar uma viagem mais longa e substituir outras por viagens de trem, visitas a lugares mais próximos ou tirar férias nos arredores.

“Se você tira oito períodos curtos de férias e pretende viajar de avião, reduza essas viagens para um ou dois períodos mais longos, para um local onde você permanecerá um pouco mais”, diz Francis. Isso permite ao viajante conhecer melhor um local de destino e com menos estresse.

Gregory Miller, diretor executivo do Center for Responsible Travel, diz ser mais benéfico para o planeta fazer voos diretos, quando possível, e voar em aviões mais novos, que são mais econômicos em termos de combustível.

Quando viajar de avião, contribua para a compensação de emissões de carbono. Nem todos concordam com o benefício das compras que têm por finalidade compensar o carbono emitido.

“Você pode viajar num barco à vela como a Greta”, disse Jonathon Day, referindo-se à adolescente ativista Greta Thunberg, que cruzou o Atlântico num veleiro, que não emite carbono, para ir à cúpula do clima nas Nações Unidas. “Se não pode fazer isso, há alguma coisa intermediária? Acho que compensação de carbono funciona, desde que envolva empresas com boa reputação.”

A real solução, diz ele, é termos aviões que não usam combustível de jato. Mas embora as aeronaves comecem a se tornar mais econômicas no uso de combustível, as alternativas no sentido de baixas emissões de carbono para viagens de longa distância ainda estão muito distantes.

Miller recomenda que os viajantes procurem organizações não-lucrativas envolvidas com a compensação de carbono que maximizam as doações de modo que o dinheiro vá para o próprio projeto. E os projetos têm de ser transparentes e serem corroborados por terceiros, afirmam os especialistas.

A companhia de viagem de Francis começou a oferecer compensações de carbono em 2002, mas suspendeu a oferta em 2009.

“O problema é que isto é visto como algo que vai tirá-lo de uma situação incômoda, basicamente transferindo a responsabilidade moral do turista para o avião ou para algum outro projeto. E acho que temos de ser mais responsáveis do que isto”.

 

Seja atento com relação ao lugar onde vai se hospedar

Quando possível, hospede-se em hotéis cujos proprietários são locais, de modo que ais dinheiro vá para a comunidade. Cheque se a propriedade utiliza energia renovável, participa de projetos comunitários sustentáveis e as pessoas são sensíveis às necessidades ambientes do local. Está quase se tornando norma não oferecer mais canudos de plástico ou incentivar os hóspedes a reutilizarem suas toalhas: pergunte que outras medidas o hotel ou o alojamento vem adotando.

Airbnb e outros serviços de aluguel de imóveis de férias podem ser uma solução complicada, dependendo da cidade. Os críticos desses serviços alegam que em alguns casos os investidores adquiriram um número de habitações disponíveis para alugar para turistas, deixando as pessoas da localidade com menos espaços de moradia a preços acessíveis. É melhor saber como essas locações de curto prazo são regulamentadas numa determinada área e se existe escassez de moradias para os habitantes locais.

“Acho que é uma questão de ver com os olhos atentos quais são os impactos da sua participação nesse nível de turismo, comparado com acomodações em hotéis. Se vai desestabilizar a economia local, mas você está economizando alguns dólares, você tem de se dar conta disto”.

Preste atenção no que come

"Os viajantes devem procurar restaurantes de propriedade de moradores do local em vez de as grandes cadeias", diz Francis. E não terem receio de perguntar de onde vêm os alimentos e fazer seu pedido de acordo. Produtos locais extraem menos energia para irem para a mesa. E segundo ele, também devem pensar em comer menos carne e laticínios, porque tais produtos dependem mais de carbono para sua produção.

“O que eu realmente tento dizer é... reduza a cadeia de aprovisionamento de todas as maneiras”.

Escolha as atividades criteriosamente

Miller diz que ser responsável é evitar aquela ideia de “ter uma lista de sonhos a realizar”, indo aos mesmos locais e praticando as mesmas atividades que todo mundo exibe no Instagram. “Assim você acaba contribuindo para o turismo de massa e não estará vivendo uma experiência mais profunda”, disse ele.

Contratar um guia local mantém o dinheiro do turista na comunidade e permite ao visitante ver esse destino de uma maneira mais eloquente, disse ele. O Travel Care Code insiste que o turista caminhe e ande de bicicleta o máximo possível, respeitando o habitat natural, usando trilhas demarcadas, seguindo as restrições contra fogo e não alimentando a fauna.

Francis diz que, quando viaja, gosta de saber se existem projetos ambientais ou de conservação na localidade que ele pode visitar ou apoiar com uma doação. Mas no caso de quem deseja atuar como voluntário, é importante saber se não está tirando o emprego de algum morador local que poderia ser pago pelo trabalho; se o projeto está propiciando alguma coisa boa a longo prazo que a comunidade realmente deseja; e se está qualificado, no caso de a atividade exigir alguma capacitação.

 “Nunca preguei um prego na minha casa”, disse Jonathon Day. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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