Ilustração: Carlinhos Müller/AE
Ilustração: Carlinhos Müller/AE

O risco de viajar com amigos

Sem mais delongas, notícias de nosso infatigável viajante:

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2009 | 03h23

Querido Mr. Miles: meu marido e eu vamos passar vinte dias viajando pela Europa com um casal de amigos. Temo problemas de relacionamento, porque já ouvi muitas histórias parecidas. O que devo fazer para minimizar esta possibilidade (por motivos óbvios, vou me identificar com nome falso)?

Viajante assustada, por e-mail

"Well, my dear, sua questão é muito sensata. Unfortunately, conheço muitos casos de férias que começaram animadas, tornaram-se constrangedoras, depois, beligerantes e terminaram, abertamente, em pé de guerra, com amizades desfeitas forever.

Anos atrás, quis ser gentil com um amigo, companheiro há 30 anos. De partida para o sudeste asiático, decidi convidá-lo e à sua mulher para que me acompanhassem na jornada. Pois aquele bom e sábio irmão de tantas décadas retrucou-me, sem pestanejar: "Desculpe, Miles, mas eu não viajo com estranhos".

Confesso que me senti ofendido com a resposta, mas, mais tarde, lembrando-me de suas pequenas manias, de sua intransigência com horários e de sua obsessão por fazer as coisas à sua maneira, compreendi que ele estava trocando uma viagem arriscada por uma amizade segura. Do you know what I mean?

As you know, frightened traveler, nem todos têm a capacidade de partir mundo afora sem transportar na bagagem suas próprias idiossincrasias. Ocorre, por exemplo, de um cidadão de hábitos diurnos viajar com um amigo de hábitos noturnos e essa pequena diferença de comportamentos sequer ser notada nos primeiros dias da jornada. Aos poucos, however, o fulano que acorda cedo começa a incomodar o sicrano que dorme tarde e esse, por sua vez, passa a irritar o companheiro ao retornar tarde e ruidosamente ao quarto que compartilham. Ambos ainda não sabem, mas suas férias estão condenadas como uma casa cujos alicerces estão tomados por cupins.

As desavenças, quase sempre, nascem de pequenas - as you say - picuinhas. A escolha de um restaurante, o tempo a se gastar em uma determinada atração, as emoções distintas que cada viajante sente quando exposto às novidades que surgem pelo caminho.

Os Havilland romperam relações com os Simpson em uma viagem à New York porque esses últimos (Maureen, sobretudo), gastaram tanto tempo em compras que o espetáculo da Broadway, reservado para aquela noite, acabou perdido. Os Trevor nunca mais falaram com os Carrigan porque, em uma viagem de carro pela França, o confronto de indicações rodoviárias transformou-se em conflito aberto - a ponto de os Trevor decidirem abandonar o veículo no meio da Borgonha.

As histórias, as you see, repetem-se. Mas, of course, não precisam terminar mal. Minha primeira recomendação é a favor de uma conversa franca que anteceda a viagem e levante, sem medo, os possíveis problemas.

Durante a jornada, my dear, é fundamental que a programação seja diariamente debatida e, em caso de desacordo, cada casal opte por seu próprio itinerário, com liberdade e sem cerimônia. Mas o mais importante, em minha modesta opinião, é que se comemore junto e com alegria os momentos em que os projetos de ambos os casais confluírem para uma mesma direção e resultarem em mútuo prazer. Nesses casos, darling, a viagem será um sucesso e os amigos permanecerão.

O único inconveniente, I'm afraid, serão aquelas maçantes reuniões para rever fotos. No futuro, e por muitos anos."

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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