O safári e a vida

De volta à Inglaterra, sem ter tido sucesso na missão de encontrar seu velho amigo encadernador de passaportes de Alepo (na Síria) em algum campo de refugiados da Turquia, nosso incansável viajante foi obrigado a levar sua mascote, Trashie, a uma clínica veterinária no Condado de Essex. A célebre raposa das estepes siberianas que, como todos sabem, adora whisky acima de 12 anos e single malt, meteu-se a beber doses sem conta de raki, em um hotel de Adana. Em pouco mais de uma hora, saiu dançando como um dervixe e, ato contínuo, veio a desfalecer. A redação torce por seu pronto restabelecimento.

O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2012 | 03h13

Mr. Miles: nunca fui à África, mas, em uma reunião com amigos, ouvi dizer que um safári é uma viagem que muda o rumo de nossas vidas. Será isso um exagero ou o senhor concorda com o raciocínio? Um abraço forte de todos os meus amigos aqui de Ribeirão Preto.

Toninho Souza Mello, por e-mail

"Well, my friend, sou absolutamente suspeito para dar palpites sobre o tema. Lembro-me de que quando participei do primeiro safári, em uma kombi sem charme no Quênia, fiquei absolutamente hipnotizado pela experiência. Tinha comigo uma boa máquina fotográfica, com uma lente razoavelmente forte, embora incomparavelmente menor que a de um outro membro do grupo, cujo imenso cilindro de lentes precisava ser apoiado por um tripé.

Descobri, mais tarde, que o tamanho da lente não tem a menor importância para quem deseja flagrar cenas explícitas de vida (ou morte) na natureza. In fact, não importa o valor que você dê à sua habilidade fotográfica. As melhores imagens sempre virão daqueles profissionais que passam o ano inteiro escondidos entre arbustos e, apenas uma vez a cada três meses, capturam uma cena espetacular.

However, dear Toninho, sou obrigado a aceitar que a simples oportunidade de conviver com o limiar da vida de certos seres selvagens, sem qualquer possibilidade de interferir ou, at least, gritar: 'Cuidado, senhora zebra, há um leão tocaiado atrás da próxima moita', torna cada um de nós, espectadores, cúmplices de um conflito definitivo, do qual, anyway, não deveríamos participar.

Há gente que supõe que a experiência de um safári é quase como ir a um zoológico com a perspectiva invertida. In other words: os safaristas seriam apenas estranhos animais com chapéus e roupas esquisitas expostos ao olhar de animais que têm muitas outras preocupações que não a de agradar aos turistas. Well, não é muito diferente disso, my dear Toninho. Se tivéssemos uma importância maior do que a de meros coadjuvantes no intenso balé da vida e da morte nas savanas, não tenho dúvidas de que seríamos devorados como meros canapés de um lauto jantar.

Os animais carnívoros, however, nos ignoram como se fôssemos porções estragadas de pistache. Eles querem comer-se uns aos outros, obedecendo a indiscutível regra de que os mais fortes se alimentam dos mais fracos, embora os mais fracos, com maior atividade sexual (antes de serem devorados, of course) produzam muito mais descendentes do que seus predadores.

Tudo isso, dear Toninho, visto ao vivo, pode mesmo criar exemplos, oferecer metáforas e eufemismos a quem observa muito além dos binóculos.

Afinal, my friend, de alguma maneira, a luta que se pode ver nas savanas africanas, em cenários que lembram a imagem idílica que temos do paraíso original, é dura, bela e assustadora como a de nossas próprias vidas. Estamos todos projetados lá, seja como leões, zebras ou antílopes. E é realmente um choque único poder ver-se de fora. Don't you agree?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.