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O tamanho da frustração

O que a Notre-Dame tem em comum com o Abaporu? As sagas de duas mulheres atrás de seus desejos de viagem

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

23 de abril de 2019 | 03h00

Sentada na calçada em frente à Praça Jean-Paul II, deixei escorrer algumas lágrimas. Minha frustração pelo malfadado plano alcançava, no mínimo, a altura da Le Flèche, o pináculo que, fosse qual fosse seu lugar em Paris, se colocava à vista. A catedral de Notre-Dame, que hoje não tem mais sua famosa flecha, me fechava as portas. Fui barrada pelo controlador de trajes. Era minha primeira vez na capital francesa e a construção medieval estava na minha listinha de prioridades. 

Tentei visitá-la logo que cheguei à cidade. Acabei gastando mais tempo noutra atração e me vendo obrigada a suar horrores para chegar à Notre-Dame em tempo. Terminei agarrada aos portões como uma vestibulanda que perde o dia da prova.  

No último dia, insisti e voltei à praça. Então, o tal controlador de roupas vociferou num humor especialmente parisiense: “Assim? Não entra. Compre uma calça”. Eu não estava com shorts abaixo do joelho, exigência para que ele me deixasse romper a barreira da fachada gótica. Onde é que eu encontraria calça baratinha (pense em euros) na Île de la Cité? Fui vencida – não sem proferir uma meia dúzia de impropérios contra o fiscal da porta. 

Não voltei a Paris até hoje. Assim, na semana passada, quando vi o fogo queimando parte da história de quase dez séculos da Notre-Dame, meu amargor não só retornou, como cresceu contraditoriamente ao pináculo de 90 metros de altura, que se reduziu a pó.  

Parece exagero de minha parte. Mas uma outra história comprova que frustrações causadas pela expectativa não correspondida do encontro com algo muito desejado numa viagem pode alcançar tamanhos exagerados. Tão exagerados quanto os de um pináculo medieval ou dos pés de um Abaporu moderno. 

Quem pode afirmar isso sem pestanejar é minha amiga Letícia, que travou uma saga de seis longos anos atrás da obra-prima de Tarsila do Amaral, produzida no final da década de 1920 e que é o quadro mais bem avaliado do País. 

Começou em 2013, com uma mensagem do marido dela dizendo que tinha encontrado o nosso Abaporu no Malba, o Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires. É lá que a obra está desde que o empresário argentino Eduardo Constantini a adquiriu por US$ 1,35 milhão num leilão, em 1995. 

Surpreendida com a descoberta, Letícia vibrou pela chance do marido, de férias. Ela, trabalhando, teve de se contentar com a foto da pintura que ele lhe enviou por mensagem de celular. Foi há seis anos - portanto, de má resolução.

Quatro anos depois, ela teve a chance do encontro ao vivo com a pintura. Foi à capital fluminense passar o réveillon e, sabendo que o quadro de Tarsila estava no Museu de Arte do Rio, reservou um dia para o “homem que come o homem”, com mais expectativa para ele do que para os fogos de Copacabana. Mas lá tinha um outro fiscal que, num humor especialmente carioca, logo avisou: “O quadro voltou para a Argentina há quatro dias, senhora”.

Chegou 2019 e o marido da minha amiga decidiu lhe dar de presente uma viagem a Buenos Aires. Desta vez, ela ia ver o quadro em sua residência permanente. Melhor impossível. “A obra Abaporu não está aqui, foi para São Paulo”, dizia a primeira placa que ela leu quando entrou no museu. “Cadê o Abaporu?”, perguntou uma mineira desatenta. “Em São Paulo, senhora, em São Paulo”, repetia Letícia, incrédula.  

Nas coincidentes frustrações que sempre colecionamos em viagens, por melhor que elas sejam, há, contudo, finais mais felizes do que o meu com a Notre-Dame, caro leitor. Pois na mesma semana do incêndio, Letícia foi convidada pela ex-chefe para ir à exposição das obras de Tarsila no Masp ao lado de Tarsilinha, a sobrinha-neta da artista.  

Para não dizer, mentirosamente, que tudo correu sem incidentes, porque a sorte não é tamanha assim, minha amiga ainda perdeu as orientações e chegou atrasada à visita. Dessa vez, porém, a obra estava a pouquíssimos passos dela, e não haveria fiscal, placa ou fogo capaz de impedi-la. Desafiando a negatividade do destino, ela andou até a sala ao lado. Havia, enfim, chegado a hora e a vez de Letícia sentir não frustração, mas a satisfação que é de tamanho ainda maior do que os pés do Abaporu. 

Envie sua pergunta para viagem.estado@estadao.com.

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