O temperamento das cidades

Assim como as pessoas, as metrópoles têm personalidades bastante específicas

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, miles@estado.com.br

24 Março 2009 | 02h37

Nosso extremado viajante está, nestes dias, exultante pelo nascimento de Tito, herdeiro de uma de suas mais queridas afilhadas, a bela e geniosa Natty, a quem ele viu crescer às margens do Lago de Annecy.

A chegada do pequeno delfim fez com que mr. Miles abandonasse uma programada incursão à Caxemira e voasse para Amboise, na França, onde a mãe deu Tito à luz uma noite após ter jantado um memorável espaguete à carbonara. Convidado pela família regozijante a segurar o recém-nascido, mr. Miles jura ter visto o menino olhando em seus olhos, a balbuciar, em oito idiomas, a palavra vovô. Ninguém acreditou nele, é claro. Mas, mais tarde, naquela noite, nosso correspondente foi visto sentado às margens do Loire com oito garrafas e uma taça de vinho ao seu lado. A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles: qual país e cidade o senhor escolheria para morar, considerando segurança, estabilidade de governo, beleza do lugar, custo de vida, emprego...

Koiti Takeushi, por e-mail

"Well, my friend: como você sabe, sou um cidadão do mundo. Minha cidade é aquela em que estou. Meus concidadãos são as pessoas que vejo nas ruas, com as quais compartilho um copo e uma conversa, tenham elas a crença que lhes dê conforto e o idioma que lhes dê poesia.

However, Koiti, é de se supor que seres menos errantes que eu tenham mais afinidade, always, com as cidades onde nasceram ou escolheram viver. Eu poderia citar-lhe inúmeros exemplos dessa situação, mas basta-me falar de Steve Lockland, que não troca sua sombria Manchester por nenhum lugar no mundo, ou de Gonzalo Barrios, que não vê, no planeta, cidade mais bela que sua querida Asunción, no Paraguai.

Atendo-me aos aspectos mencionados em sua correspondência eu diria, by the way, que segurança é muito mais um estado de espírito que uma qualidade urbana. Tenho amigos que se sentem absolutamente tranquilos vivendo em Cabul, no Afeganistão. Nevertheless, há outros que caminham sempre atentos e assustados, mesmo morando na paz de Helsinque. A estabilidade do governo também conta pouco, dear Koiti. Cuba e a Coreia do Norte, for instance, são um primor nesse quesito. Nem por isso, I presume, Havana e Pyongyang são cidades especialmente agradáveis. A beleza do lugar, I agree, conta muito. Mas mesmo essa variável depende claramente de gosto pessoal. Não há metrópole geograficamente mais bela que o Rio de Janeiro - embora Sidney, Hong Kong, Vancouver e a Cidade do Cabo disputem essa primazia. Mas o que pensará quem prefere o espanto das montanhas?

Custo de vida? Of course, my friend: quem não gostaria de viver em uma cidade econômica? Unfortunately, esse fenômeno está intrinsecamente ligado à pobreza do país. Ou seja: vantagens de um lado, desvantagens de outro. Don't you agree?

Anyway, Koiti, o assunto que você me propõe é fascinante e polêmico. Como as pessoas, as cidades têm personalidade. Como nas pessoas, as well, o temperamento das cidades combina mais com uns do que com outros. Minha sugestão, as always, é que você viaje muito. Passe pelas cidades e deixe que elas passem por você. Irrite-se com algumas delas, apaixone-se por outras. Em algum momento, I'm sure, você descobrirá aquela que ocupou seu coração."

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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