Eva Mospanova/Pixabay
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O trabalho oculto das mães nas viagens

Elas organizam o roteiro, arrumam as malas... Isso também é sobrecarga mental

Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2019 | 07h00

Tirar férias em família é uma delícia, mas o período pré-férias em família é (mais) uma sobrecarga de tarefas na vida de uma mãe. Eu posso – qualquer mãe pode – falar por experiência. Pesquisas também falam. A depender da fonte, mulheres são responsáveis por 50% a mais de 70% das decisões turísticas em casa

Parece bonito, emancipador, girl power, o que até é verdade. Mas também é sobrecarga mental, trabalho feminino oculto. Um tema sobre o qual mulheres mães vêm discutindo há algum tempo – e se aplica às viagens. 

Claro que é gostoso decidir para onde viajar. Mas ter de achar sozinha um destino que concilie as necessidades da família toda, levantar os custos, as alternativas para chegar lá, quais passeios fazer, tudo isso é exaustivo. O pai? Ah, você que sabe, amor, você entende dessas coisas. A gente vai se divertir no lugar que você escolher. 

O paizão se oferece para levar o filho à Polícia Federal para tirar o passaporte. Quer poupar a mãe da fila, fila que não existe mais há anos – ele até hoje não sabe que o passaporte é agendado. O dele mesmo, no ano passado, quem agendou foi a mulher; ele no máximo achou a reservista numa caixa empoeirada e compareceu ao local e no horário indicados. Então é claro que foi a mãe quem lembrou de agendar no site e separou todos os documentos para o passaporte da criança. 

Ou não. Também pode ser que o pai, viajante experiente, tenha cuidado de todas as etapas da renovação de seu próprio documento. É claro que ele faria isso pelo filho, bastava a mãe ter pedido, oras. 

Eu nunca soube de um pai que arruma mala dos filhos se a mãe está em casa. Alguns fazem isso quando ela não está. Só então percebem que a gaveta de meias é um amontado de pés avulsos que nunca mais encontraram seus pares – e o voo é amanhã bem cedo, não dá mais tempo de comprar meias novas. Que a sunga do verão passado ficou pequena para o corpinho que cresce vários centímetros por ano, o pai só vai notar na hora do primeiro tchibum do filho na piscina do hotel. Temos malas para todo mundo? Todas fecham? As rodinhas estão inteiras? Limpas? Sim, foi a mãe que conferiu tudo isso antes.

No orçamento da viagem que não ajuda a montar, o pai opina. Bastante. Quer coisa de homem mais coisa de homem que dinheiro? Inclusive o dinheiro da mãe, o que ela ganha com seu próprio trabalho (o remunerado, não o oculto), é assunto que ele toma como dele. A mãe pesquisa, acha hotel amigável para crianças, acha voos um pouco mais em conta, ingressos para comprar antecipadamente pela internet e anuncia: Paris

Ah, amor, Paris não. Paris é caro, viu como o euro está nas alturas? Por que não Buenos Aires, não dizem que Buenos Aires é a Europa da América Latina? Tem coisa para criança lá? (Tem sim)

O pai não sabe ou não lembra que precisa comprar seguro para todo mundo, mas principalmente para os filhos. Criança é danada para ter piriri longe de casa, pode precisar de hospital. A mãe, em meio a tantos preparativos, também esqueceu. Lembra assim que entram no saguão do aeroporto, no dia do embarque, e dão de cara com o quiosque dos seguros. 

Claro que comprar no aeroporto de última hora é mais caro. O pai se assusta com o preço a pagar pelo seguro de uma semana, com cobertura de saúde de US$ 30 mil, a mínima aceita na Europa. A família vai pagar, não tem jeito. Resignado, o pai comenta: na próxima, a gente precisa lembrar disso com antecedência, amor…

Mas o que é isso?

Se você ainda não entendeu o que é o trabalho oculto das mulheres, vale dar uma espiada na história em quadrinhos Era só pedir que uma autora francesa, Emma, publicou em 2017. O material foi traduzido para o português por uma página brasileira no Facebook, a Bandeira Negra.

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