O triste fim das cinzas de Boris

Homem mais viajado do mundo conta a confusão que pode ser concordar em transportar algo na bagagem para um conhecido

Mr. Milles, O Estado de S. Paulo

10 Outubro 2017 | 03h00

A tentativa de emancipação da Catalunha deixou Mr. Miles abalado. “Como pode? Um povo tão criativo e ao mesmo tempo tão tacanho! O mesmo provincianismo que nós (shame on us!) mostramos no Brexit. Unfortunately, o nacionalismo, essa praga mais que antiga, segue grassando pelo mundo. Seja em nome do pior conservadorismo, seja no da mais cretina das causas ditas de esquerda.” A seguir, a pergunta da semana: 

Querido Mr. Miles, qual é o comportamento que se deve adotar quando alguém – mesmo que seja um amigo – pede que se transporte algo na bagagem para o exterior ou do exterior para o Brasil? Aposto que muitos de seus leitores já passaram por saias justas deste tipo.

Joana Marques Seibel, por e-mail 

Well, my dear Joana, eis um caso em que não há regras, senão as do common sense. Indeed, darling, bom senso é tudo e nem é tão abstrato como parece. Procure transferi-lo para quem faz a solicitação e as coisas ficam muito mais claras. Se alguém, for instance, lhe pedir a gentileza de transportar um pneu de Aero Willys para um velho amigo colecionador de carros em Madri, será justo que você, politely, se recuse a fazê-lo. 

O requerente, I presume, não se ofenderá. E, se o fizer, será justo que você reveja suas amizades.

Há outros casos que o bom senso rejeita. Por exemplo: pequenas entregas que lhe custarão horas de locomoção. O querido amigo sabe que você vai a Nova York e pede que a ‘relíquia familiar’ seja entregue em algum subúrbio distante – o que o obrigará a alugar um automóvel, perder-se em incontáveis anéis rodoviários e, of course, levar uma polpuda multa de trânsito. Isn’t it fair

Fuja, também, das encomendas de artigos raros. A carinhosa priminha pede-lhe um indispensável livro de fitoterapia de um mestre oriental, que está esgotado desde 1971, ‘mas em Nova York com certeza você acha fácil’, e sua viagem pela Big Apple torna-se uma fastidiosa peregrinação por sebos, onde há até exemplares da Bíblia em aramaico – mas nada do livro encomendado. 

Decline, as well, do transporte de produtos que tenham propensão a causar constrangimento com as autoridades. Coisas aparentemente inofensivas, como armas, entorpecentes ou explosivos, podem causar-lhe um grande embaraço, do you know what I mean?

Quem pede favores como esses não tem bom senso, don’t you agree? Então não se acanhe e diga não. 

Be careful, anyway, com as chantagens emocionais. Não é fácil, por exemplo, dizer não a quem pede remédios para parentes adoentados. O problema é que, sem uma receita internacional válida, você não vai conseguir comprá-los – e, for sure, my dear, será chamada de ‘desumana’ quando retornar com as mãos vazias. 

Vou lhe contar, em confidência, uma situação constrangedora em que me meti, a propósito, alguns anos atrás. Era o período da Cortina de Ferro e eu estava de partida para a então inexistente Letônia, quando uma conhecida chamada Vinga apareceu-me com uma pequena caixa de metal nas mãos. 

‘Miles’, pediu-me ela entre lágrimas, ‘o último desejo de meu pai era que suas cinzas fossem jogadas no Rio Daugava. Aqui está uma amostra simbólica de sua cremação’, continuou, apontando para a caixinha. ‘I beg you, my friend, faça essa homenagem a ele.’ 

Jamais conheci Boris, mas também jamais pude resistir a uma mulher em lágrimas. No dia seguinte, portanto, desembarquei em Riga com Boris no bolso de meu sobretudo, porque julguei profundamente desrespeitoso (e arriscado) colocá-lo na mala.

Unfortunately, my dear Joana, Boris foi encontrado por um inescrupuloso agente alfandegário soviético, desses que ocupavam as capitais do leste europeu na ocasião. O burocrata, exaltado, imediatamente expropriou as cinzas. De nada adiantaram meus reclamos e explicações: o pai de Vinga, I presume, foi parar na prateleira de um almoxarifado. Nunca contei nada a ela e, of course, tenho algumas crises de remorso, embora ao menos ele tenha terminado seus dias na Letônia. Aprendi, contudo, a não transportar desconhecidos no meu bolso. É só uma questão de common sense. Don’t you agree?”

*MR. MILLES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

Mais conteúdo sobre:
Viagem

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.