Observador: do alto, da quadra, do barco

Erguida entre 1960 e 1972, sob muita vaia, a Torre Montparnasse é tida pelos parisienses como o edifício mais feio do mundo. Não tanto pelo formato (tem coisa pior na Berrini...). Pela localização. Ela fica simplesmente monstruosa naquele entorno de construções baixas e elegantes que toda cidade de bom caráter deveria ter. A guia me conduz ao terraço do 56.º andar, o último, e diz: "As pessoas sempre sobem a Torre Eiffel para olhar Paris de cima, só que daqui a vista é melhor, pois se vê justamente a torre". Um bom argumento, embora fácil de derrubar: a visão do alto da catedral de Notre Dame não é tão abrangente, porém deveras mais charmosa.

O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2013 | 02h15

Então, quando a moça se regozija de aquele ser o mais rápido elevador da Europa ("vai do térreo ao 56.º em 37 segundos!"), eu só me sinto o homem errado no passeio errado. A visita custa 13 e o tíquete dá direito a uma fotomontagem minha com Paris ao fundo. Procure ir num dia de sol e, uma vez lá em cima, cave uma brecha entre a multidão de chineses para dar uma espiadela além do vidro. Mapas interativos ajudam a localizar os principais pontos da cidade. À esquerda, passando o café, há umas TVs instaladas no piso onde se pode brincar de homem suicida: pule sobre as telas e acione um filmete que simula a sua queda livre, leve e solta até se estatelar na rua. É mais rápido do que o elevador.

Ao rés do chão - na verdade, das águas do Sena - se encontram os Bateaux Parisiens, os barcos-restaurantes que fazem minicruzeiros pelo rio e se tornaram o must dos brasileiros no réveillon. Funcionam como os aviões: quanto mais homem de dinheiro você for, mais conforto terá. A mim foi oferecido o módulo "pé na jaca", que consiste em ocupar a mesa redonda situada na proa, vista panorâmica, e comer e beber até estourar: champanhe, entradas, primeiro prato, segundo, queijos, vinho, café, sobremesa... A empresa se orgulha de ser dona também do Le Jules Verne, o restaurante da Torre Eiffel comandado por Alain Ducasse e onde se saboreia um menu degustação a 210 por cabeça. Sem o vinho.

Cá embaixo, no entanto, deslizando preguiçosamente pelo Sena, não é exatamente a gastronomia de bordo que me impressiona. O passeio-rango de 89 oferece ângulos bacanas de pontes famosas como a Neuf de Juliette Binoche, a dourada Alexandre III e de edifícios históricos. Les Invalides, Museu d'Orsay, Hotel de Ville, Louvre, Gran Palais... Mas talvez o percurso de 2 horas seja longo demais, percepção agravada pela sensação de que Paris vai passando diante dos meus olhos sem que eu possa de fato estar nela. Tudo bem se você for um homem afeito a esse tipo de coisa, mas vou logo avisando: quando o barco fizer o retorno na Estátua da Liberdade (sim, Paris tem três; esta, de 11 metros de altura, fica na Île aux Cygnes), um cantor surgirá e virá à sua mesa, com microfone, cantar New York, New York.

Do ponto final do bateau ao complexo de Roland Garros são apenas quatro quilômetros, a oeste. Eis aí um passeio para homem nenhum botar defeito. Ok, um homem ranzinza perguntará qual a graça de conhecer o local fora dos dias do Aberto da França, quando aquilo fica vazio como um cemitério. Várias graças. A maior, talvez, a de poder entrar nos vestiários dos atletas, com seus armários de madeira escura, iluminação indireta, atmosfera de closet. O do heptacampeão Rafael Nadal, por exemplo, fica à direita, número 159. Não é propriamente dele, as portas não têm nome. É que o espanhol, por superstição, gosta de usar sempre aquele - e aí quem vai contrariar o rei do saibro, que desbancou o grande Björn Borg do topo do Olimpo? No feminino, o armário da alemã Steffi Graf (seis títulos nos anos 1980/90) virou um tipo de altar. Quando ela se aposentou, a Federação Francesa de Tênis lhe deu a porta original de presente. Outra foi instalada, mas ninguém guarda mais nada lá. Há tenistas que rezam ali na frente antes do jogo, e os números gastos sugerem que muitas passam a mão na plaquinha 19 como se fosse água benta.

Dos vestiários, você sobe à quadra principal pela escada de paredes salpicadas com autógrafos dos campeões. E sabendo que você é um homem brasileiro, a guia lhe ajudará a localizar as assinaturas de Gustavo Kuerten. Então abra a porta pesada de metal e... entre na quadra. O sistema de som cria um clima emitindo apupos da plateia e anunciando você, mero homem turista, como um Nadal, um Federer, um Jokovic... Já sei o que você pensou, homem das cavernas. Mas pode enfiar a raquete de volta no saco: nem mediante suborno eles vão soltar gravações dos gritinhos orgásticos da Sharapova. Esqueça. Contente-se com a visita guiada completa ( 15,50, agende com antecedência), que também dá acesso ao museu, cheio de memorabilia da competição.

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