'Oficiais colocavam espelhos sob assoalho do ônibus'

Ex-representante do Centro de Turismo Alemão no Brasil relembra suas visitas à Alemanha durante a divisão

02 Novembro 2009 | 17h42

"Fui representante do Centro de Turismo Alemão no Brasil durante 21 anos, entre 1981 e 2002. Estive mais de 60 vezes na Alemanha, quase sempre para acompanhar grupos de agentes de viagem e jornalistas. Em Berlim, o roteiro incluía as atrações do lado ocidental - restaurantes, teatros e lojas na Kudamm (a avenida Kurfürstendamm) e seus arredores, Tiergarten, Castelo Charlottenburg. E separávamos uma tarde para visitar o lado oriental.

 

Quando o ônibus chegava ao Checkpoint Charlie todos eram obrigados a descer. Os oficiais conferiam os passaportes e revistavam o ônibus detalhadamente. Colocavam até espelhos sob o assoalho. Dali para frente, um guia da RDA nos acompanhava.

 

A passagem sempre chocava, era como voltar no tempo 40 anos. Era tudo cinzento, sem graça, com marcas de balas e bombas. Qualquer lojinha tinha fila na porta. O passeio durava cerca de 3 horas e quase não havia paradas - nem na Alexanderplatz era permitido descer do ônibus. O guia oriental mostrava alguns lugares de destaque como a avenida Unter den Linden, endereço de embaixadas, e um cemitério onde estavam enterrados soldados russos. A Ilha dos Museus estava incluída e isso era ótimo, claro. Por último, íamos todos tomar chá com fatias de bolo em um café bem precário.

 

Eu estava na Alemanha no dia da Queda do Muro, mas não em Berlim. Tinha levado um grupo de agentes de viagem brasileiros a um encontro em Heidelberg. No fim do dia, depois de uma reunião, voltamos todos ao hotel para um banho antes do jantar de encerramento oficial do evento. No quarto, deixei a TV ligada mesmo sem assisti-la. Mas, depois de algum tempo apenas ouvindo o programa meio monótono, percebi a voz exaltada do locutor, o que não é nem um pouco comum na TV alemã. Diante do aparelho, vi aquelas cenas que o mundo inteiro deve lembrar. Cheguei a pensar que aquelas imagens fossem ficção, algum filme.

 

No jantar, percebi claramente que várias pessoas tinham chorado, mesmo aqueles que não tinham nenhuma ligação histórica com a Alemanha."

 

Giovanni Lenard, ex-representante do Centro de Turismo Alemão no Brasil

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