Onde estão as boas maneiras nas viagens durante a pandemia?

Segundo especialistas, em momentos de estresse agudo há uma menor tolerância da frustração. Mas a solução é simples: basta se colocar no lugar dos outros

Christopher Elliott, The Washington Post

26 de janeiro de 2021 | 05h00

Depois de uma recente viagem de avião de Los Angeles a San Diego, nos Estados Unidos, Rosalinda Randall ficou pensando por que motivo os viajantes perderam as boas maneiras durante a pandemia. Rosalinda estava na penúltima fileira do avião esperando que todos desembarcassem. O passageiro sentado atrás dela pulou na sua frente, bloqueando a passagem para pegar a bagagem do compartimento superior.

“Ele queria a sua mala, e queria já”, lembra Rosalinda. “Como era o último, teria tempo de sobra para retirar a mala.”

Rosalinda tem um bom motivo para questionar sobre o declínio da civilidade durante a pandemia. Ela é uma especialista em etiqueta, em São Francisco, na Califórnia, e oferece oficinas sobre cortesia e boas maneiras.

Segundo os especialistas, os viajantes perderam tanto uma quanto outra à medida que a pandemia foi se prolongando.

“Estou pensando nessa indagação há algum tempo”, diz Jodi RR Smith, que dirige a Mannersmith Etiquette Consulting em Marblehead, Massachusetts. “Por mais que eu deteste estas palavras, ‘sem precedentes’ explica o declínio das boas maneiras.”

A civilidade se baseia no precedente, afirma Jodi. Quem viaja sabe como se comportar porque já esteve na mesma situação antes e sabe o que se espera dele. Mas, durante a pandemia – “uma época sem precedentes” –, as pessoas não sabem o que se deve esperar. Como você se comporta em um ambiente fechado no corredor de um avião ou no elevador de um hotel? Você pede licença antes ou perdão depois?

Os viajantes ainda tentam determinar os limites, e isso cria situações embaraçosas. Leela Magavi, diretora regional da Community Psychiatry, uma organização para a saúde mental ambulatorial na Califórnia, afirma que alguns dos seus pacientes se queixaram de que o simples pedido para usar a máscara, às vezes, provoca explosões emocionais, palavrões e gritaria.

“Ao mesmo tempo, alguns turistas alegam que não querem usar máscara porque acham que ela vai estragar a experiência das férias”, acrescenta. A tensão entre os viajantes que definem a observância de maneira diferente leva a verdadeiros confrontos.

Estresse acumulado entre as razões

E há mais. Dean McKay, professor de psicologia da Fordham University, pesquisa questões de saúde mental relacionadas à pandemia. Ele afirma que o estresse de viajar durante uma crise de saúde pública exacerba o declínio das boas maneiras.

“Nos períodos de estresse agudo, há uma menor tolerância da frustração, o que por sua vez promove a agressão e a irritação”, explica. “Como viajar é, muitas vezes, estressante em circunstâncias normais, a probabilidade de que as boas maneiras sejam suspensas aumenta, considerando o fato de que é preciso adotar mais medidas a fim de conter o contágio da covid.”

David Brace afirma ter visto um número maior de viajantes se tratar de maneira grosseira nos últimos meses, e até mesmo brigas a respeito de máscaras e distanciamento social. Mas um incidente se destaca. Em uma viagem em direção ao sul dos Estados Unidos, ele decidiu parar em um drive-thru para um lanche.

“A jovem à janela foi muito grosseira e, honestamente, não agiu como em outras ocasiões”, conta Brace, que mora em Zimmerman, Minnesota, e escreve um blog sobre viagens em família e espiritualidade. Brace respondeu à ira da jovem com um sorriso amistoso e desejou que ela tivesse um dia abençoado. Quando chegou perto da janela para pegar o seu pedido, ele viu o rosto dela, e parecia que ela iria chorar.

“Talvez ela tivesse acabado de receber alguma notícia muito ruim”, ele diz. “Ou tivesse perdido alguém nos últimos dias, e a sua indiferença em relação a mim fosse provocada por um sofrimento interior que ela estava sentindo.”

Faça sua parte

A questão é: um pouco de civilidade pode superar os piores lapsos nas boas maneiras. Mas há mais uma coisa que podemos fazer para restaurar as boas maneiras do público viajante. Sermos pacientes, dar o bom exemplo e demonstrar simpatia, afirmam os especialistas.

“As boas maneiras implicam mostrar paciência”, afirma Rachel Wagner, consultora de etiqueta em Bixby, Oklahoma. “Paciência com os que não são tão competentes em tecnologia quanto você no check-in, com os seguranças, com a mãe que luta com um bebê no colo e com os itens de mão.”

Smith concorda que ser educado é a melhor maneira de convencer os companheiros viajantes a serem educados. Use “por favor” e “obrigado”, particularmente quando os outros não fazem isso. Rosalinda evitou uma briga no voo para San Diego, afastando-se do passageiro ultraestressado atrás dela e permitindo que ele apanhasse a sua mala. “Nós fazemos o que vemos”, disse Smith, “e quanto mais vemos, mais provavelmente o imitamos”.

Compreender o estado de espírito dos outros passageiros ajudará no processo. “O importante é nunca esquecer de que estamos nisso juntos”, afirma Bonnie Tsai, fundadora da Beyond Etiquette, empresa de consultoria em etiqueta de Los Angeles. “Para que todos melhoremos e superemos isso, precisaremos proteger os outros e nós mesmos atendendo às diretrizes de saúde e segurança dos profissionais de saúde e do nosso governo local.”

A solução é simples. “Precisamos nos colocar no lugar dos outros”, afirma Bonnie.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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