Epitácio Pessoa/Estadão
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Oração para o dólar parar de subir

Mea culpa: perdoai as ofensas que proferi quando estavas a R$ 3

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2019 | 03h00

Dólar que estais no céu, e que continua subindo tal qual o padre do balão, e que já alcançaste o infinito estrelar, volte ao nosso (que também é o vosso) reino. 

Perdoai as minhas ofensas, aquelas que proferi quando ainda estavas na casa dos R$ 3. Foi-se o tempo em que ansiava por uma artificial paridade ou um confortável 2 por 1. 

Hoje, humildemente, me contentaria, ave Maria, com uma queda contida. Centavo por centavo. 

Sem um recuo, a viagem nossa de cada ano, perdoai a minha ofensa, iria para as cucuias (que não é uma praia do Caribe). 

Como posso, do alto da minha falta de recursos, gastar R$ 12 em um simples café expresso? Ou rasgar R$ 80 em um dry Martini? 

Tentei seguir aquele mandamento fundamental, o mais belo dos princípios: “Quem converte não se diverte”. Mas, ai de mim, pequei contra os bons modos e proferi palavras rudes ao receber a fatura do meu cartão de crédito. 

Atirei pedras contra meu saldo bancário. Economizei em quase tudo aquilo que não fosse básico, que não fosse o oxigênio de uma existência frugal. Ainda assim, me faltam notas para fechar um pacote de viagem simples, de duas semaninhas em terras estrangeiras – e sem nenhuma extravagância em termos de hospedagem. 

Dólar que estais no céu, conte-me o que fazer para trazê-lo ao patamar da realidade (da minha realidade). Posso fazer promessas, deixar de comer chocolate, subir a escadaria da Catedral da Sé de joelhos, pular sete ondas, apoiar a reforma da Previdência ou qualquer outro exotismo. 

Dólar, cheio de graça, deixe-me sonhar com as minhas futuras férias. Deixe que minha imaginação cruze continentes, que visite museus, que tome vinho e cumpra todo o roteiro turístico de um bom cidadão. 

Ó dólar que estais nas alturas e que, de cima, tudo vê, perceba todo o sacrifício que tenho feito em vosso nome. Repare nas horas extras, no trabalho dobrado, no porquinho da primeira infância totalmente destruído. Ouso contar moedinhas para ofertá-las ao senhor. Por favor, aceite. 

Sei, ó senhor doleta, que posso passar minhas férias em um destino brasileiro. E passarei, senhor, com muita alegria e prazer. Ainda assim, sua ascensão meteórica tem impactado qualquer cantinho. A sua influência está evidente e é inescapável. Estamos à sua mercê. Qualquer paragem custa os olhos da cara, os seus olhos verdes, ó money

Digo isso, nobre l’argent, porque dependo da sua boa vontade (e infinita bondade) para colocar os pés na estrada. Portanto, fique onde está. Pare para respirar. Experimente um pouco de ioga ou um chá verde. E, depois, lentamente, retorne à atmosfera do possível, pausadamente, até viabilizar as minhas mais caudalosas fantasias de uma noite de verão. No mais, pare de puxar o euro para o alto também.

Como em Sonho de Ícaro, rogai por nós, e depois de “voar, voar/subir, subir/ e ir por onde for”... Ufa, é chegada a hora de cumprir a profecia e “descer até o céu cair”. Então vem, todo poderoso dólar, “desce mais, desce mais um pouquinho, desce mais, desce devagarinho”.

Dólar que estais no céu, e no meio de nós, vamos colaborar. Quero viajar de novo. Ó mercados, ó Benjamin Franklin, ó conjuntura externa e pressões internas, bora valorizar minha dor e se desvalorizar um tiquinho. Custa pouco para o senhor e muito para mim, seu súdito. Você já foi mais compreensível. Não banque o gênio indomável. Vamos discutir a relação e, pelo menos, parar de subir (cair são outros quinhentos, eu sei). 

Respeitosamente, ó dólar do Pai e do Espírito Santo, rezo por você, rezo no comercial, no turismo e no paralelo. Rezo na casa de câmbio com esperança também. Não deixeis que eu caia em tentação e livrai-me do cheque especial. 

 Amém e além.

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