Orgulho e identidade

2 Música

O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2011 | 03h08

O músico Kolo Barst, que costuma cantar em creole, foi outro dos artistas martinicanos influenciados pelas ideias de Edouard Glissant. E também aderiu ao movimento de independência da Martinica, que não é violento e usa a cultura como veículo para propagar ideias.

Mas, para além dos objetivos contestadores, outras manifestações culturais autenticamente martinicanas merecem a atenção do visitante. O carnaval local é a festa mais importante do ano, quando a ilha inteira se engaja nos preparativos. O formato se assemelha bastante ao carnaval brasileiro: quatro dias de desfiles, carros alegóricos, rainhas e fantasias elaboradas. No território da música popular, o zouk embala de almoços nos restaurantes de praia a apresentações ao ar livre. Outro ritmo que merece atenção é o bèlè, de origem africana, que usa tambores como base.

3 Futebol

O futebol é um dos pontos que melhor evidenciam as contradições de ser um departamento ultramarino - e não um país de fato. Apesar de estar no Caribe e ter seleção própria, resta à Martinica ceder jogadores à equipe francesa nos campeonatos internacionais. A ilha não faz parte da Fifa e compete apenas nas eliminatórias da Copa Ouro, um torneio regional.

Por isso mesmo, muitos moradores preferem torcer pelo Brasil a incentivar a França - especialmente os defensores da independência da ilha -, o que faz da camisa da seleção brasileira de futebol um belo cartão de visitas, capaz de despertar simpatia, quebrar o gelo e dar assunto a conversas.

Não são poucos, aliás, os martinicanos que já fazem planos para vir ao Brasil assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2014.

1 Literatura

Crítico voraz do colonialismo europeu, Aimé Césaire foi o relator da lei que elevava algumas antigas colônias a departamentos ultramarinos da França. Por sua qualidade literária e ideias progressistas, acabou influenciando muitos movimentos de esquerda e autônomos na Martinica. O principal deles, que existe até hoje, é o que prega a independência em relação à França.

Césaire deixou seguidores, como o também escritor Edouard Glissant, que morreu em fevereiro deste ano, aos 82 anos. Glissant partiu do conceito de negritude de Césaire para criar ideias que batizou de antilhanidade e crioulização. Militante anticolonização e autor de um trabalho que mistura memórias, folclore, declarações polêmicas e reflexões, abriu caminho para escritores e artistas creoles mais jovens da própria Martinica, como Raphäel Confiant e o premiado Patrick Chamoiseau.

A cultura é, provavelmente, o território no qual a Martinica melhor consegue se diferenciar da França metropolitana. Uma forte identidade local ganha corpo, voz e sonoridade na literatura, na música e mesmo no futebol. O mais ilustre dirigente político da ilha foi Aimé Césaire (1913-2008), prefeito de

Fort-de-France por décadas, mundialmente conhecido por sua obra literária e, especialmente, por sua poesia surrealista. Fundador do movimento literário da negritude com o poema Caderno de um Regresso ao País Natal (1939), o autor destacava as raízes africanas para resgatar o orgulho de ser negro entre os ex-escravos e colonizados.

/ PAULO FAVERO

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