Orgulhosos gatunos

Nosso incansável viajante deixou a Nova Zelândia e partiu para Parma, na Itália, onde pretende fazer um tour de bicicleta, comer várias porções do famoso prosciutto local e verificar, pessoalmente, os estragos causados pelo recente terremoto na região da Emilia Romagna. Com o fim do mês de agosto, a vida recomeça naquele país e as temperaturas começam a arrefecer.

O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2012 | 03h10

A seguir, a pergunta da semana:

Prezado mr. Miles: tenho minha própria maneira de reviver as viagens que fiz. De cada uma delas, trago recordações que coleciono. Cinzeiros de hotel (que, por sinal, estão difíceis de encontrar hoje em dia), cobertores de companhias aéreas, roupões dos resorts mais chiques, canetas com o nome dos estabelecimentos gravados e outras coisinhas como xícaras, pires, bandejinhas, enfim: qualquer coisa que tenha o nome do lugar anotado, para que eu jamais esqueça dos lugares onde passei. Hoje já me considero um colecionador. O senhor também faz isso?

Mário Caio Villela, por e-mail

"Of course not, my friend. Numa primeira leitura de sua correspondência cheguei a pensar que você adquirisse os objetos mencionados, o que seria apenas uma simpática excentricidade. Como, however, não conheço hotéis que vendam xícaras, pires, bandejinhas e cinzeiros, nem companhias aéreas que ponham preços em seus cobertores, acabei me dando conta de que, I'm afraid to say, você é um gatuno!

Há outras palavras que definem sua condição: larápio, furtador, rapinador, deixo a você que escolha a que preferir. Sei que o marketing de muitos hotéis está sempre disposto a apresentá-los como 'sua casa fora de casa', de modo a fazer com que seus hóspedes sintam-se mais à vontade. Nevertheless, parece-me claro que isso não dá aos clientes o direito de levar qualquer parte do mobiliário do estabelecimento para casa como recuerdo. Imagine, my friend, se você, a pretexto de conservar suas lembranças de um hotel com linda vista surrupiasse o telescópio colocado à disposição dos hóspedes? Ou, my God, se, encantado com uma récita de piano, desse um jeito de levar consigo o imenso instrumento?

Yes, Mário, é tudo a mesma coisa. Quando se está disposto a carregar algo que não é seu, já não importa o que seja. Quem sabe até um lindo quadro da parede de seu quarto…

Para você saber, however, que não está sozinho nesse comportamento pouco louvável, conheço dois ou três amigos que também têm coleções de objetos rapinados de alheios. Um deles, por sinal, é um homem muito rico - Simon Walcott é seu nome -, que poderia comprar, a preço de ouro, todos os objetos que afana. Simon confessou-me, porém, que seu prazer não é o objeto em si, mas o calafrio que sente ao desafiar as proibições. Um caso clássico de cleptomania, isn't it?

Já Geoffrey Maugham, um bookmaker mal-humorado de Chelmsford, no Condado de Essex, tem um armário cheio de cobertores, travesseiros e fones de ouvido furtados de companhias aéreas. Sua justificativa está na ponta da língua: 'Quando sou maltratado a bordo, o serviço é ruim ou a comida está disgusting, sinto-me no direito de organizar uma pequena vingança. Se todos fizessem o mesmo, talvez o serviço melhorasse!', explica o gatuno.

Já disse a ele que, se um dia for visitá-lo para jantar e a comida não me aprouver, vou sentir-me no direito de tirar algum objeto de sua casa. 'Não é a mesma coisa, Miles. Você sabe disso', respondeu-me Geoffrey.Claro que é a mesma coisa, dear Mário. Ou será que, para guardar uma viagem na memória, é obrigatório ser um larápio?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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