Roman Boed/Flickr
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Os cadeados do amor

Lembranças de uma história de amor na Ponte Carlos, em Praga

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2019 | 03h40

Não vai demorar nada para aparecer algum policial. Sabe-se lá como funcionam as leis por aqui. Paciência. Fiz toda essa viagem para apagar um erro e lançá-lo contra o rio. Agora, vou até o fim. Mesmo que isso represente uma visita à delegacia, uma multa, deportação ou maldição.  

No supermercado das metáforas ruins existe uma que se destaca: a dos cadeados do amor.

Mas eu nem sempre soube disso. Há quatro anos eu visitava Praga pela primeira vez. Foi na minha lua de mel. Giorgia estava especialmente linda naquele dia. Cabelos cacheados caindo sobre um casaco pesado de neve. Caminhávamos pela Ponte Carlos quando tirei do bolso um cadeado. Assim como milhares de turistas ao redor do mundo, iríamos celebrar nosso amor de um jeito bem peculiar, aprisionando-o.

Fizemos planos para repetir o gesto em outras cidades: na Ponte Vecchio (Florença); Ponte do Brooklin (Nova York); Casa da Julieta (Verona); Fonte dos Cadeados (Montevidéu); Ponte Luzhkov (Moscou) e até infringir a lei na Pont des Arts (Paris) – já que, na época, o governo francês havia acabado de remover a memorabilia romântica em nome da segurança da própria ponte. 

 Tiramos selfies, nos beijamos e voltamos para o Brasil – satisfeitos em trancafiar nossa relação e jogar a chave fora. 

Mas para o amor, qualquer amor, é preciso assegurar uma rota de fuga, uma saída de emergência, uma varanda para fumantes ou ornitólogos. 

Depois de dois anos, os sinais, fortes sinais, já estavam espalhados pela casa. No silêncio do café da manhã; na barulho das páginas dobradas de um jornal; no esquecimento em deixar a ração para o cachorro; nos resmungos de desaprovação, em uma série de “tanto faz” ou de “escolhe você”. Acho que eu também queria ir embora. Mas quem deu o passo decisivo foi ela. Era domingo. E, na hora do almoço, Giorgia me disse que não me amava mais. 

Achei que ficaria aliviado. Mas os meses seguintes foram um terror. Giorgia era meu primeiro pensamento do dia. Giorgia era a falta que eu sentia quando entrava no carro; o frio na barriga quando o celular tocava; minha segunda garrafa de vinho em plena segunda-feira à noite. 

Liguei, mandei e-mail, apareci na casa dela. Quis voltar. Giorgia foi direta: “Se livre disso, se liberte de mim.”

Ela já está em outra. E eu? Eu estou aqui em Praga, em cima da Ponte Carlos, com um alicate nas mãos e procurando um cadeado com as nossas iniciais: R.G.

Estava tão absorto na minha missão que não notei a presença de um homem logo atrás de mim. A névoa não me deixava enxergá-lo com nitidez. Mas vestia terno, usava uma espécie de cartola, tinha a sobrancelha intensa e orelhas estranhas, acho que pontudas. Ele se aproximou, tossiu, e disse: “Existe esperança, esperança infinita – mas não para nós”. Depois, desapareceu na ponte. Como um fantasma... 

Vasculhei os cadeados. Quantos amores agonizantes ainda estariam presos nessa masmorra? Quantos inocentes não caíram na bobagem de usar um cadeado como símbolo romântico? Encontrei o meu logo depois. Não tive coragem de arrancá-lo. Era só um cadeado desgastado e agarrado ao passado. Por lá ele ficou e ficará – até que um dia a ponte desabe ou que algum burocrata da prefeitura resolva expurgá-lo para sempre.

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