REUTERS/Murad Sezer/File Photo
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Os dois lados de um aeroporto

Aeroportos são catárticos

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

17 Abril 2018 | 03h00

Nosso estimado viajante está com planos de lançar-se ao mar (para desespero de sua mascote Trashie, que enjoa muito) por um período. Quer vasculhar todas as pequenas enseadas do Mediterrâneo, com o único compromisso de aproveitar as melhores delas – não importa quanto tempo essa tarefa consuma. 

Diz-se por aí que, provavelmente, Mr. Miles virá ao Brasil nos próximos dias para aconselhar-se com Amyr Klink, seu velho companheiro de jornadas e conversas.

A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: ao contrário de muitos de seus leitores, eu adoro o ambiente dos aeroportos. O que o senhor acha? 

Maria Clara Dimas, por e-mail

"Well, my dear, it depends. Depende, of course, do aeroporto. Há muitos deles ao redor do planeta que são insuportáveis. Sobretudo, I must say, os que ficam em cidades menores ou países pequenos. Não vou citá-los nominalmente, mas conheço estabelecimentos desse tipo que mais parecem feiras livres; cujos banheiros são preparados para espalhar doenças; não têm assepsia, papel ou tampas de privada. 

Estive recentemente em um deles (mas apenas olhei da porta, my God) em que havia água no chão. Não muito: apenas o suficiente para que os usuários ficassem molhados até a canela. Sem contar que, well, a cor da água não era atraente – se é que água pode ter cor. 

Meu velho amigo Sardenson Walterberg, um emérito viajante em ocasiões inapropriadas, teve o azar de ser escalado para um trabalho na Índia em plena época das monções. Eis que, ao esperar o seu avião na sala de embarque de um aeroporto internacional, descobriu que as cheias da estação invadiam o próprio terminal. Suddenly, Sardenson viu um cachorro quase a se afogar na sala onde estava. Chapinhou para salvá-lo mas – believe me –, quando chegou perto do animal que batia as patas desesperado, descobriu que o suposto cãozinho era uma ratazana do tamanho de um perdigueiro. Ao menos foi o que me contou.

Há outros inconvenientes insuperáveis em aeroportos: o preço de tudo o que se come, bebe e compra, sobretudo em locais de grande movimento. Em muitos deles (permita-me um certo exagero) é possível tomar um café pelo preço de uma cafeteria ou comprar uma garrafa de água pelo preço de uma fonte. Fico estupefato quando vejo multidões nos chamados duty free shops.

Leia mais: Você sabe por que tudo no aeroporto é tão mais caro?

Indeed, eles vendem produtos sem impostos, mas apenas aqueles cujo preço é tão elevado que o desconto sequer faz diferença. Nem para os endinheirados, que vão comprá-los anyway, nem para os menos agraciados, que jamais sequer sonharam em possuí-los. 

Desagrada-me, as well, o ambiente de vigilância intensa desses lugares. Compreendo as razões, for sure. Mas fico com a sensação de que todo mundo está acompanhando seus movimentos. Seja para proteger os demais, seja para roubar suas malas. Do you know what I mean?

On the other hand, aeroportos são catárticos. Porque neles pessoas se despedem ou se reencontram – e se beijam com a maior das intensidades, sobretudo os apaixonados (adoro ver beijos de aeroporto, I must say, poucas coisas são tão intensas e belas). 

Numa visão aristotélica (não, my friends, não cheguei a conhecer Aristóteles pessoalmente, como os maldosos devem estar pensando), são lugares que provocam descargas de desordem emocional ou afeto desmedido. Nesse sentido, darling, estou de acordo com cada uma de suas palavras. Em lugares de onde se sai ou aonde se chega, as pessoas se despem de pudores e inibições. Choram os que vão, choram os que vêm. Olham-se profundamente os que vão se afastar por longos períodos, padrões de vida são rompidos abruptamente. 

A jovem que parte retornará, talvez, uma mulher; há aqueles em que se vê a diversão das férias em cada olhar e outros que se reencontram desviando o olhar, porque a vida os fez outras pessoas, mais felizes, durante a ausência antes indesejada.

Temo estar me estendendo demais, Mary Claire. O assunto me fascina. Para quem viaja sempre, como eu, aeroportos são a promessa de novas alegrias e descobertas. Isso, I must say, me basta.”

 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS. SIGA-O NO INSTAGRAM @MRMILESOFICIAL.

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