Os Jogos Olímpicos da Barra da Tijuca

"Prezados editores: recebi, com muita alegria, sua solicitação para que eu escrevesse sobre o Rio de Janeiro nesta edição especial do caderno Viagem. Não apenas em função dos Olympic Games, mas – é preciso que eu diga – porque tenho o Rio em alta conta, não há dúvidas que se trata da cidade mais abençoada pela geografia em todo o planeta, é um dos únicos lugares onde troco o whisky pelo chopp (embora minha mascote Trashie não o faça) e, ao longo dos anos, desenvolvi grandes amizades na cidade.

O Estado de S.Paulo

21 Junho 2016 | 00h02

 O Rio é amazing. Fui à praia uma única vez, nos anos 70, para constatar – profissionalmente, of course – a extraordinária exiguidade dos biquínis de suas frequentadoras. Mas como sempre, assim como fazia meu amigo Vinicius de Moraes, ainda que muitíssimo bem-intencionado, não consegui alcançar as areias porque fui retido por um dos botequins do caminho. 

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O botequim, as you know, é uma espécie de pub em shorts – com a diferença de que há garçons, quase sempre adoráveis, que capricham na bebida. 

Devo confessar, however, que quando de minha primeira visita à Wonderful City, ainda não havia biscoitos Globo, aquelas curiosas roscas feitas de ar e temperadas com um mau cheiro de origem indefinível. Estive na cidade em 1931 para a cerimônia de inauguração do Cristo Redentor, a convite do presidente interino – e quão longa foi sua interinidade, isn’t it? – Getúlio Vargas, a quem conheci no porto de Rio Grande, quando veraneava na Praia do Cassino, anos antes.

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Trata-se, sem a menor dúvida, do mais belo panorama urbano do mundo. A excepcional vista que o alto da pedra do Corcovado proporciona é inversamente proporcional à feiura da própria estátua que consta da lista das Sete Modernas Maravilhas do Mundo – desde que você esteja sempre olhando para baixo. Meu amigo Ruy Castro contou, anos depois, que um marujo, famoso por suas bebedeiras, estava no porto no ano seguinte justamente no dia em que a iluminação do Cristo foi inaugurada. Ao ver Jesus despontar, coberto de luz, naquela noite sem lua no Rio de Janeiro, o cidadão resolveu abandonar a bebida e tornou-se um diácono de certa igreja evangélica. Era escocês o marujo, o que explica alguma coisa.

Foi no Rio que apaixonei-me por Leila (N. da R.: Leila Diniz, atriz e musa carioca) e, well, admito que fui correspondido. Foi no Rio que aprendi parte do parco português que falo com amigos como Aurélio Buarque de Hollanda e Antonio Houaiss, homens de poucos pensamentos – mas muitas palavras. Foi no Rio, as well, que compreendi que um desfile da Mangueira é mais bonito do que a Troca de Guarda da nossa rainha; que uma roda de samba produz sons mais agradáveis do que uma gaita de fole e que o nosso football poderia ser mais do que uma bola levantada com 22 sujeitos correndo embaixo.

Só sofri uma única tentativa de assalto na cidade, mas o pobre gatuno levou tantas bengaladas no cocuruto que deve, I presume, ter largado o ofício. Tenho tantas histórias para contar sobre a antiga capital do Brasil e de Portugal que, for sure, seria necessário escrever um livro sobre o tema. E, apesar de não ser um fã dos Jogos Olímpicos (em função do excesso de hinos e bandeiras que revelam um nacionalismo do qual discordo), é possível que eu vá para a cidade em agosto. 

Vou ficar, é claro, na antiga Guanabara e, se alguém chegar a me ver, será no Maracanã, durante a cerimônia de abertura. E digo isso porque o mundo não entendeu, ainda (sempre porque há poucos viajantes), que as competições não vão acontecer no Rio de Janeiro, mas no curioso município da Barra da Tijuca, uma espécie de Miami do sul, sem samba, bossa nova, morros e poetas. Serão os Jogos Olímpicos da Barra, que, thank God, tem a sorte de ficar bem perto do Rio, esse sim um lugar sem comparações.

 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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