Os melhores bares do mundo

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

22 Novembro 2016 | 03h00

Nosso solerte viajante anuncia que começa a ficar incomodado com o mau humor do outono britânico e as nuvens negras da nova política internacional. Ele está de malas prontas para latitudes onde “as temperaturas estão mais tépidas e as mulheres menos vestidas”. Especula-se que, desta vez, ele finalmente reapareça no Brasil, onde, entre outras visitas não anunciadas, deverá encontrar o seu fabricante capixaba de pios. Trata-se de um sucessor de seu velho amigo Maurilio Coelho, que iniciou sua produção em 1903. Como todos sabem, Mr. Miles é um paciente birdwatcher e, a seu ver, a produção de pios do Espírito Santo é uma das mais afinadas na arte de produzir instrumentos de sopro para atrair aves ariscas. 

Fontes que preferem manter a discrição garantem que nosso correspondente britânico precisa de três pios específicos: os que atraiam jaós, marrecas-irerê e tururins. 

A seguir a pergunta da semana.

Mr. Miles: como apreciador de viagens e bares, qual é, na sua opinião, o melhor dos bares do mundo?

Walter Julius Saraiva, por e-mail

Well, my friend: quem sou eu para responder uma pergunta dessa magnitude? Nem Hemingway – que, segundo algumas fontes, teria visitado cerca de 98,3% dos estabelecimentos existentes ao seu tempo –, ousou pontificar a respeito. O que poderá dizer um humilde viajante que, com toda a certeza, sequer chegou a encostar os cotovelos em 70% dos bares do planeta? 

Não, dear Walter, sou obrigado a me render aos meus limites. O que não me impede, of course, de citar dois ou três bares históricos. Como o mitológico El Pimpi, em Málaga, muito ligado à história das touradas andaluzas – onde, dizem, o sangue de alguns toureiros foi bebido por seus amigos, diluído em jerez. Hoje, o assunto seria desmentido porque não é politicamente correto. Os malagueños, however, conhecem bem a honrosa tradição. Ou o Foxy’s, em Jost Van Dyke, nas Ilhas Virgens Britânicas. É seguramente o bar que hospeda o revéillon mais agitado do planeta, um tradicional ponto de encontro de velejadores. Durante esses dias, a lotação do ancoradouro local atinge tamanha dimensão que, para alcançarem a praia, os capitães precisam passar sobre um amontoado caótico de iates. Eu mesmo já estive lá e só fui reencontrar o barquinho em que vim na terceira semana de janeiro. Em parte, confesso, pelo tamanho da ingestão de álcool a que me permiti, mas, também, porque não tinha a menor ideia de onde estava atracado meu barco. Can you believe in such a mess? 

O mais mencionado de todos, however, chama-se Peter Café Sport, fica na cidade de Horta, na ilha do Faial, em Açores, e conquistou sua reputação pela qualidade de seu gim-tônica e a hospitalidade de José de Azevedo – believe me or not, o Peter do nome. José ganhou a alcunha por sua semelhança com um marinheiro homônimo da Royal Navy e a adotou com o maior espírito esportivo. Tantos marujos saciaram, com Peter, sua sede de liquor and land, que ele acabou sendo oficialmente homenageado e reconhecido por sociedades navais de todo o Atlântico Norte. Estive lá muitas vezes, naquelas nove ilhas distantes que alguns dizem ser o centro do mundo ou os últimos picos da Atlântida. 

Sempre fui bem recebido por Peter, bebi com fartura e comi ótimas iguarias portuguesas (é a Portugal que pertencem os Açores). O bar é tão cheio de lendas que há os que garantem que o próprio Papa Francisco, o simpático argentino cosmopolita, aparece por lá, com grande discrição, para tomar “unas copas”. Não ouso afirmar que o Peter é o melhor entre todos os bares, até porque, desde pequeno, aprendi que não há pub melhor que seu local pub. Mas garanto-lhe que o mencionado bar açoriano é o único onde você vai encontrar um pequeno Museu de Arte de scrimshaw, com lindos trabalhos gravados e pintados em marfim de cachalote. Que lhe parece? Vamos lá?” 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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