Os templos mais belos do mundo

Nosso entusiasmado viajante partiu de suas ilhas para uma viagem ao norte da Turquia. Não nos disse nem o destino nem a razão. Em breve, porém, devemos ter notícias para compartilhar. A seguir, a correspondência da semana:

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2016 | 02h50

Querido Mr. Miles: como grande viajante, o senhor deve conhecer milhares de templos de todas as religiões. Quais são os que mais o emocionaram? 

Cecilia F. Maia, por e-mail 

“Well, my dear: antes de mais nada, devo confessar que não sou uma pessoa devotada e não tenho afinidades religiosas. Admiro os que fazem de sua fé um escudo virtuoso contra as vicissitudes da vida e, as you know, não gosto nem um pouco dos que levam suas crenças a outros povos, como se a eles – e apenas a eles – pertencesse a verdade. A fé, como o whisky, precisa de dosagem adequada. Excesso dela leva ao que chamamos de fanatismo – religioso, político, ideológico – e resulta, unfortunately, nas disputas mais sangrentas do planeta, mesmo no século 21.

Forgive me, however, pela introdução não solicitada, até porque sua pergunta não tem, é claro, nenhuma manifestação explícita de fé. Trata-se de uma questão objetiva, a qual posso, sem dúvida, responder. E, nesse caso, admito, a mesma fé que produz cizânia pode gerar obras-primas. Fico me perguntando o que seria do mundo sem catedrais, igrejas, mesquitas, templos budistas, hinduístas, judaicos ou anímicos. Provavelmente teríamos um planeta menos exuberante, sem muitos dos grandes mestres da pintura e da escultura e, well, com menos velas – o que não me faria a menor diferença, I must say.

Meu amigo Tony (N. da R.: Tony Wheeler, criador dos guias ‘Lonely Planet’) diz, para quem quer ouvir, que tem um hobby: fazer o que chama de ‘a lot of templing’. Ou seja: aonde quer que ele vá, com ou sem sua esposa Maureen, visita templos e, frequentemente, com eles se encanta. Há alguns anos, quando esteve na Igreja de São Francisco, em Salvador, ficou de tal maneira extasiado que prometeu dar um puxão de orelhas no autor de seu guia sobre o Brasil, pelo fato de ele não ter dado o devido destaque ao templo.

Os 9 mil templos de Bagan, na Birmânia (hoje reduzida ao nome Mianmar) são impressionantes. A quantidade já fala sobre o tamanho da fé que inspirou aquele povo. O templo de Karnak, em Luxor, é outra obra impressionante de paixão religiosa. However, como quase todas as demais, sempre fala de um tempo de glória e riqueza de alguma civilização, infelizmente quase sempre em detrimento de outras.

As mesquitas têm o lindo perfil de cidades com torres e abóbadas. Eis porque é sempre grandioso vê-las, ainda mais quando recortadas contra a luz do pôr do sol. Nos templos budistas, a fé parece vir dos ventos e dos ruídos que quebram um silêncio ancestral. E, nos judaicos, há um canto atávico de dor e esperança – que subitamente se alegra vertiginosamente ao celebrar a vida.

Se eu lhe desse uma resposta objetiva, dear Cecilia, estaria, com certeza, traindo os meandros de minha memória. Escrevo essas linhas e os templos passam pela minha cabeça com a velocidade de pássaros coloridos. Vou tentar abstrair a presença da arte, que faz da Capela Sistina uma obra sem concorrentes. Vou tentar, apenas, mencionar momentos em que me senti enlevado pela força espiritual de algum lugar. Therefore, cito quatro lugares, para que não diga que fugi de sua pergunta. 

A Sainte Chapelle, em Paris, que nas tardes luminosas filtradas pelos seus milhares de vitrais torna-se uma floresta de deuses e ninfas; o Panteão de Roma, cujo óculo central permite a entrada de algum cúmplice iluminado do Universo; os moais de Tongariki, que, embora não sejam um templo formal, levam as pessoas a abaixar-se em reverência; e, last but not least, uma pequena capela sem nome que vi no caminho para Diamantina, guardada pela chave única de uma vizinha simples e sorridente – como deveria ser a vida.”

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