David Lefranc/Paris Tourist Office
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Gilberto Amendola
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Os transtornos na vida de um homem romântico

Eu ia pegar um avião para surpreendê-la, como naquela comédia romântica. Mas aí...

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2019 | 04h40

Eu ia pegar um avião para surpreendê-la. Ia fazer igual àquela comédia romântica, aquela que você sabe qual é, mas me foge o nome agora.

Eu ia pegar um avião para fazer um gesto irresponsável/fofo de amor.

Eu ia mesmo.

Só que daí eu fui procurar passagem na internet.

Vocês sabem quanto custa uma passagem comprada assim em cima da hora?

Eu sei, eu sei, eu poderia parcelar em 10 vezes. Mas e o medo do amor acabar antes da última prestação? Ué, pode acontecer... Olha, 10 meses são mais ou menos 300 dias, o que significa tempo suficiente pra gente mudar de ideia, o fogo esfriar, você conhecer outro carinha ou eu tropeçar em outra pessoa.

O planeta é redondo e coisas assim podem mudar as nossas vidas de um segundo para o outro.

Não que você não seja meu grande amor. Você é. Hoje, agora, você é. Mas imagina o boleto do cartão de crédito chegando daqui 10 meses! E se a gente não estiver mais junto?

Se eu pudesse pagar à vista, beleza! Mas assim, parcelado, acho que fica arriscado – até para mim que te amo demais.

Além dos mais, fora a questão do dinheiro, tem outros pormenores...

Será que meu chefe me daria essa folga? Quero dizer, mesmo se eu saísse em um voo noturno da sexta-feira, ainda assim, precisaria de pelo menos 5 dias de folga. Não faz sentido gastar uma fortuna com passagem aérea para Paris e passar apenas um fim de semana. Duvido que com o tanto de trabalho acumulado eu seria liberado. No mais, provavelmente, descontariam esses dias do meu holerite.

Acho que em comédia romântica todo mundo é rico ou faz home office.

Ou calha de viajar atrás do grande amor durante o período das férias.

O risco do fator surpresa

Levei em conta outro inconveniente também: o fator surpresa.

Sim, esse tipo de rompante romântico só faz sentido se for feito de surpresa. Ou seja, se eu aparecesse em seu emprego, apartamento ou café preferido com um buquê de flores e sem nenhum aviso.

Cá entre nós, eu ainda correria o risco de não te encontrar. Vai que você tem um compromisso em outra cidade. Vai que você está recebendo a visita de parentes. Vai que, naquela semana, você não consegue apreciar o meu ato heroico/ romântico com a devida atenção. Como se vê, eu poderia dar o azar de não te encontrar nas primeiras horas e precisar procurar um hotel para pernoitar.

Um hotel em Paris assim, no susto, pode custar os olhos da cara. Eu não tenho orçamento para ficar bem localizado em Paris. Imagina se um pego um arrondissement muito longe do seu apartamento... Eu poderia me perder naquele metrô e não te encontrar jamais.

Eu realmente ia pegar um avião para surpreendê-la. Mas também pensei em todo o constrangimento na hora de passar pela alfândega. Eu já me imaginava tendo de responder um interrogatório sobre minha viagem:

- Férias?

- Não.

- Trabalho?

- Não.

- Qual o motivo da sua viagem?

- Convencer a mulher da minha vida a ficar comigo.

Daria um problemão. Acho que eu teria o visto negado. Iam me tratar feito um terrorista. Meu psicológico sairia muito abalado com um incidente destes.

Se fosse uma comédia romântica, o agente da alfândega iria me aplaudir e incentivar; o dinheiro não seria um problema; meu chefe me daria quantos dias de folga eu precisasse; e você estaria me esperando às margens do Rio Sena.

Como nada disso vai acontecer, vou mandar um zap com um coraçãozinho e uma piscadinha. Vou dizer que estou com muita saudades daquilo que a gente ainda não viveu.

Quem sabe a gente ainda não passa o Dia dos Namorados juntos e shallow now.

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