Os viajantes e suas síndromes

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Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2018 | 00h40

O chocado leitor Marcelo Cruz disse a Mr. Miles que ouviu a palavra exclave, sem ter a menor ideia do que isso poderia significar, embora julgasse que tivesse algo em comum com um enclave. “Indeed, my friend: o mundo está cheio de enclaves, que são porções independentes no interior de um outro país, e de exclaves, que significam a mesma coisa, mas estão ligados a um outro país territorialmente afastado”, explica nosso colunista. 

Miles cita como enclaves o Vaticano e San Marino, na Itália e o Lesoto, na África do Sul. Já Ceuta e Melila são exclaves espanhóis em território marroquino. Assim como Kaliningrado é um exclave russo entre a Polônia e a Lituânia. “Very easy, isn’t it?

A seguir a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: recebi no meu Facebook uma mensagem explicando uma certa “síndrome de wanderlust”. Isso existe mesmo? Pois, se existe, é exatamente o que eu tenho. Best!

Graziella Moreno Boncer, por e-mail

Well, my dear: tudo de melhor para você também! Sei que é útil, mas estranho até hoje essa tal “página de rosto (ou de rostos)” que, I presume, seja mais visitada do que a Torre Eiffel ou a Golden Gate. Estranho turismo esse, em que não saímos de casa, vemos as outras pessoas rezando, reclamando e louvando, somos fãs de todos os cães engraçadinhos e, my God, odiamos a todos. O mundo está mesmo assolado por intromissões que comprometem a nossa própria razão de ser. Talvez eu devesse dizer que o medo que hoje assola qualquer homem de galantear uma mulher (even in France, mon Dieu!) devesse ser chamado de Síndrome das Paixões sem Início, ou Poorlove Syndrome – em meu idioma natal.

Fosse assim no meu tempo, presumo que teria sido vítima de perseguição, cadeia e androfobia; quiçá nem sequer tivesse visto o mundo e vivido tantos belos romances.

But you’re right, my dear; a tal síndrome de wanderlust, significa, in fact, a paixão por viajar. Vem de wandern (caminhar) e lust (prazer), duas palavras em alemão que, fundidas como aquele idioma exige, significam mais ou menos isso. Há discussões, porque alguns asseveram que o mal (ou o bem, melhor dito!) teria origem genética. Significaria algo como saudades de um lugar nunca visto, uma obsessão que, indeed, eu sinto, mas que suavizo a cada destino que conheço e em cada vez que o reconheço.

Não há um criador conhecido para essa síndrome, darling, mas acho que todos nós, que escrevemos, fotografamos, filmamos ou registramos destinos somos, de certa forma, culpados por esse “bem”, que, infelizmente, aflige apenas uma parte pequena da humanidade.

Preocupam-me, muito mais, questões como a síndrome de couchlust, a síndrome da preguiça que aflige aqueles que não trocam seu sofá por nada, nem mesmo quando ele já está exalando odores desagradáveis – de gordura, cerveja e suor. Ou o famoso prazer pelo medo (conhecido como síndrome de fearlust), que congela os humanos em suas cápsulas, criam terror de aeroporto, avião, hotel, convivência e, last but not least, conhecimento.

Existe também uma síndrome muito moderna e nociva conhecida como síndrome de Trumplust, em homenagem a um presidente que só gosta de seu próprio chão e tenta resolver os problemas repetindo os erros bárbaros que outros povos (desprezíveis, em sua opinião) já cometeram tantas vezes.

Por fim, há que se reconhecer os estragos por aqueles que caem adoentados, vítimas de dumblust, que é o ato de não viajar por pura burrice, na airosa certeza de que um carro novo, uma televisão com maior número de polegadas – e um número crescente de curtidas no “livro de face” faz melhor à vida do que sair por aí, de mala, mochila ou baú, em busca das duas coisas mais importantes da vida: a wanderlust e a richlove syndrome, que não pode, jamais, excluir o prazer inenarrável da corte e do flerte. 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS. SIGA-O NO INSTAGRAM @MRMILESOFICIAL

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