Paisagens rurais na rota do imperador

Carlos V escolheu as tranquilas - e iluminadas - terras da Comarca de La Vera, [br]entre montanhas, cachoeiras e cerejeiras, para passar os últimos dias de sua vida

Camila Anauate, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2010 | 00h47

As cores do outono dão o tom da rota. Tingem montanhas, atravessam rios, realçam flores, plantas, frutos. Amarelo, forte. Verde, vivo. Pinhão. Quando beiram a estrada e gritam à janela do carro, fazem entender por que o imperador Carlos V decidiu passar seus últimos dias nessas tranquilas - e iluminadas - terras.

A paisagem rural da Comarca de La Vera, ao norte de Extremadura, em nada lembra a de outras regiões. São pueblos encravados em vales, rodeados por árvores de carvalho, cerejeiras, cachoeiras e gargantas que se formam com o degelo. Vivem da agricultura - produzem o melhor pimentão do país -, do turismo rural e das lembranças de Carlos V.

O imperador foi carregado pela região até chegar ao Monastério de Yuste, seu último lar. E deixou marcas no caminho. A rota parte de Jarandilla de la Vera, no antigo castelo dos Condes de Oropesa, hoje um sofisticado Parador de Turismo. Ali, ele descansou por três meses, enquanto o palácio em Yuste ficava pronto.

Nesse meio tempo, seus soldados ficaram em Garganta La Olla, o povoado vizinho. Simples, vazio, perdido nas montanhas - e no tempo. O lugar exibe em suas vielas uma arquitetura popular característica: sobrados de barro e madeira, cujos terraços superiores são mais amplos porque neles os agricultores secam os tradicionais pimentões.

A Casa de las Muñecas é um fiel exemplo desse estilo. Mas tem uma cor azul que destoa e uma boneca talhada no arco da porta. Era diferente porque era prostíbulo.

O destino final é Cuacos de Yuste, um vilarejo sombrio, onde está a casa de Juan de Áustria, filho bastardo de Carlos V. O imperador quis conhecê-lo ainda menino, mas nunca assumiu publicamente a paternidade. Anos mais tarde, depois de sua morte, seus outros filhos reconheceram o irmão.

A dois quilômetros do centro, o Monastério de Yuste, declarado Patrimônio Europeu, segue famoso por ser o local onde o imperador passou seus últimos dias, de fevereiro de 1557 a setembro de 1558. Ao lado da igreja e dos claustros, Carlos V mandou construir seu palácio, uma maravilha do Renascimento.

O interior, porém, é simples. Inclui a sala dos servos; a sala de leitura, com janelões para uma vista pacificadora; e o quarto. Dele mesmo o imperador assistia às missas, através de uma porta que se abria diante do altar.

O mais curioso é que Carlos V foi morrer de malária. Pouco antes, ele fez um testamento e registrou seu último desejo: 30 mil missas fúnebres.

Ninguém sabe se Felipe II conseguiu realizar o pedido do pai. Ele tentou. Rezou algumas missas no próprio monastério, onde mandou construir uma cripta voltada para a paisagem que o imperador tanto gostava. Carlos V morreu no outono.

E rezou outras tantas na esplendorosa Catedral de Plasencia, a capital informal da região norte de Extremadura. Carlos V teria ficado orgulhoso.

Plasencia, portanto, é o ponto final dessa história. E da rota imperial.

De bar em bar

Plaza Mayor

É aqui que acontece a vida em Plasencia. Se der, vá em uma terça, dia de feira. Ao redor da praça, ótimos bares para o tour de tapas

La Pitarra del Gordo

Com patas de porco no teto, é superoriginal. Peça torradas de morcilla patatera e uma taça do vino de pitarra

Café Español

Siga para o outro lado da praça e ganhe a simpatia dos garçons. No balcão, de pé, prove a porção de jamón

Succo

Na Calle Vidrieras, viela que sai da praça, é a opção mais sofisticada. Vá de zorongollo, salada com pimentão e atum, e vinho da terra

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