Priscila Mengue/Estadão
Entardecer no Pantanal do Mato Grosso Priscila Mengue/Estadão

Pantanal, Nobres e Chapada: o 'trio maravilha' de Mato Grosso

Cada um a seu modo, os três destinos oferecem imersão em uma natureza rica e diversificada. Veja o que fazer por lá

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2019 | 05h00

A qualquer momento, araras, onças ou outra das centenas de espécies da região podem aparecer no horizonte – ou, logo ali, a alguns metros de distância. Uma nova descoberta rapidamente se espalha em avisos, cutucões ou gestos, que apontam para o céu, as árvores, o mato, o rio, a estrada, todos os lados. Em Mato Grosso, paciência, tempo e sentidos aguçados guiam viajantes por cidades nos arredores de Cuiabá

Visitamos o Estado em junho, já considerado período de seca. A temperatura beirou os 30 graus durante o dia, o céu se manteve aberto e nenhuma gota de chuva se apresentou. Foi assim que percorremos o Pantanal Norte, a Chapada dos Guimarães e a ainda pouco conhecida região de Nobres, repleta de nascentes e rios cristalinos. 

O primeiro e um dos principais atrativos da viagem não foi um ponto de parada, mas uma travessia: a da Transpantaneira, que liga Poconé a Porto Jofre. A região faz parte do Complexo de Preservação do Pantanal, considerado Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera pela Unesco.

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De chão batido e em meio a solavancos, atravessar os 147 quilômetros da Transpantaneira tem um pouco de safári: é comum avistar animais, especialmente jacarés e aves. Em um trecho, o nosso carro parou. O motivo? Um tuiuiú de um metro e tanto de altura parado no meio da estrada. De plumagem branca, pescoço vermelho e cabeça preta, a ave – tal qual um personagem em fuga em um filme de ação – desfilava pela estrada até considerar seguir pelas margens da via. Foi nesse momento, de um voo breve, que exibiu seus cerca de dois metros de envergadura.

Cruzando a Transpantaneira

Embora a distância seja curta, atravessar a Transpantaneira leva quase quatro horas. Por isso, o ideal é fazer a viagem sem pressa, com pernoite nas fazendas e paradas para fotografar a paisagem e o portal de madeira que dá boas-vindas aos viajantes. 

O Pantanal perpassa pouco mais de 200  mil quilômetros quadrados de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, além de Paraguai e Bolívia. É banhado por águas oriundas das cabeceiras do Rio Paraguai, que levam quatro meses para atravessar o território e criar as áreas inundadas.

São elas que garantem as paisagens mais características, formando corixos, canais criados nas depressões de terrenos e que viram quase espelhos d’água. É no período da vazante e seca (maio a outubro), contudo, que as visitas à região se tornam mais populares: a Transpantaneira está transitável e os animais retornam à cabeceira dos rios. 

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Por ali circulam cerca de 300 espécies de peixes, 150 de répteis e anfíbios, 460 de aves e 130 de mamíferos, dentre outras. Parte delas (como os jacarés) é avistável em qualquer período do dia, mas outra é mais evidente no alvorecer e entardecer.

O tuiuiú (ou jaburu) é um dos animais mais presentes – e lembrados na decoração de pousadas e lembrancinhas. O único que rouba essa atenção é a onça-pintada – atrativo de safáris fluviais, com partida no começo da manhã e se estendendo por horas (ou dias). As expedições costumam ser promovidas por hotéis e pousadas e são totalmente contemplativas.

Cara a cara com a onça

De Porto Jofre, partimos para um passeio pelo Rio Cuiabá. No píer, um funcionários nos apresentou ao barqueiro e garantiu: nós iríamos ver onças naquela manhã. 

Os barqueiros costumam se comunicar ao encontrarem algum felino. Logo no início da expedição, o rádio da nossa embarcação foi acionado e seguimos com mais velocidade até uma área onde outros grupos estavam parados. Tentamos achar a onça, mas nada. Após a tentativa frustrada, voltamos um trecho. Foi quando o guia apontou para um canto. Não vimos nada de imediato, mas, minutos depois, enxergamos o vulto de uma onça em meio à vegetação. 

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Conforme a mata se tornava menos densa, a onça ficava mais visível. Mais do que isso: descobrimos que outra vinha logo atrás. A dupla se aproximou da praia e, por alguns instante, nos fitou enquanto era fotografada por uma dezena de câmeras. Inesquecível.

Fizemos nossa expedição com o Hotel Pantanal Norte ( R$ 1.900 o tour de 10h para quatro pessoas; diária a R$ 1.055 o casal, com pensão completa). Outra opção é a Pousada Pantanal Norte: o passeio de 6 a 8 horas custa R$ 1 mil (até 4 hóspedes; diária R$ 950 o casal). 

Entre antas e jacarés

Fizemos outro passeio de barco em Poconé, esse com o objetivo de assistir ao entardecer refletido no espelho d’água. Logo no início, o barqueiro faz uma graça para os visitantes atraindo um jacaré para fora d’água, usando uma piranha de isca. Mas a atração foi mesmo a travessia surpresa de uma anta de ponta a ponta, que lentamente nadou até sumir do outro lado do rio. 

Ainda no barco, observamos centenas de aves que retornavam para seus ninhos no topo das árvores. Nada discretas, cantando ou gritando, chegavam em grupos e se amontoavam na vegetação, ocupando todos os galhos disponíveis – como em uma versão leve e pantaneira de Os Pássaros, de Alfred Hitchcock. 

O nosso passeio foi pela Pousada Rio Claro, no quilômetro 42 da Transpantaneira. Na versão de duas horas, custa de R$ 85 (por hóspede, quando há mais de cinco participantes) a R$ 410 (individual), mas também é possível pagar um day-use de R$ 165 (que inclui passeio de barco coletivo por uma hora, trilha, almoço, piscina e guias). 

À noite, depois de saborear o jantar com carnes, farofa de banana e doces de frutas de sobremesa, dois funcionários tocaram canções sertanejas no violão. Quando a música parou e saímos do restaurante, os únicos sons ouvidos eram dos insetos e animais.

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SAIBA MAIS

Como ir: de Cuiabá a Poconé são 104 km, num trajeto de aproximadamente 1h30. De ônibus, o trajeto dura quase 3h e a passagem custa R$ 27,51 (é possível comprar online em sites como o GuicheVirtual.com.br). Para pegar a Transpantaneira, é preciso estar com um 4X4. Outra opção é combinar o transfer e os passeios direto com a pousada. 

Bom Jardim (distrito de Nobres) fica a 2h de Cuiabá – a estrada é boa e você pode ir de carro alugado ou usar o transfer dos passeios. A Chapada dos Guimarães está a 1h de Cuiabá. Vale alugar carro e colocar ambas em um mesmo roteiro.

*A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO SEBRAE-MT.

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Cachoeiras, trilhas e outros encantos da Chapada dos Guimarães

A apenas 50 quilômetros de Cuiabá, parque nacional é uma opção de lazer democrática e com boa infraestrutura próxima

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2019 | 04h00

O acesso fácil de Cuiabá, distante apenas 50 quilômetros, faz com que o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães seja um destino democrático. Frequentada tanto pela população quanto por turistas, tem farta oferta de cachoeiras, belas paisagens e infraestrutura, com muitas opções de pousadas, hotéis e restaurantes. 

O principal cartão-postal é o mirante da cachoeira Véu de Noiva, com acesso livre e gratuito entre 9h e 16h. A queda d’água, de 86 metros de altura, pode ser admirada do alto, em uma trilha curta e fácil. Ainda é possível avistar (ou, na falta de um binóculo,  pelo menos ouvir) as araras-vermelhas que mantêm ninhos nos paredões.

Não é permitido se aproximar do Véu de Noiva, mas há outras duas cachoeiras para se refrescar do calor: a dos Namorados e a Cachoeirinha. Para chegar a elas, as trilhas são simples e dispensam a companhia de um guia. 

Com tempo livre, dá para investir no  Circuito das Cachoeiras, percurso que percorre seis quedas d’água (7 de Setembro, Pulo, Degraus, Prainha, Andorinhas e Independência) e duas piscinas naturais. Com exceção da Independência, todas as cachoeiras permitem banho.

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O circuito tem seis quilômetros (ida e volta) e somente pode ser percorrido com guia credenciado. Os valores podem variar de R$ 140 a R$ 250 para duas pessoas. A entrada é permitida a partir das 8h30, com saída até as 17 horas.

A trilha atravessa vegetação característica, como as canelas-de-ema, espécie de arbusto símbolo do cerrado e conhecida por entrar em autocombustão no clima seco. O caminho exige esforço moderado, com poucas subidas. As águas são gélidas e transparentes, com locais mais rasos para quem prefere se banhar onde dá pé.

Esculpida pela natureza 

Voltamos a encarar os paredões da Chapada ao percorrer o caminho da Cidade de Pedra. O trajeto até a entrada da trilha é de chão batido, onde apenas veículos 4X4 conseguem chegar. 

Deixamos o carro logo na entrada do parque e seguimos pela trilha, ouvindo as explicações do guia sobre a vegetação e a fauna local. Logo nos deparamos com formações rochosas, que lembram ruínas de alguma construção antiga e deteriorada. Com a ação da natureza, as rochas ganharam desenhos e uma  aparência de pilares.

Seguimos, então, pelo caminho de chão alaranjado até chegarmos ao primeiro mirante. Ali percebemos que estávamos também em cima de um dos paredões. De lá, a 350 metros de altura, uma vista panorâmica das formações de arenito,  que ficam em tom ainda mais avermelhado com a proximidade do entardecer. A trilha é leve e não exige grandes esforços físicos. 

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O custo do passeio varia de R$ 250 a R$ 650 para duas pessoas (com transporte) ou  R$ 140 para duas pessoas (sem carro). O acesso é permitido das 9 às 17 horas. 

A região também tem espaços privados com vista para o parque. Um deles fica no restaurante Morros dos Ventos, que tem dois mirantes que avançam pela borda de um paredão da face sul da chapada. De lá, é possível avistar algumas pequenas quedas d’água e até a cidade de Cuiabá ao fundo.

Outra opção é o mirante Alto do Céu, que tem entrada ao custo de R$ 20. Visitamos o local durante o entardecer, quando encontramos até um casal fazendo registros para um book de noivos debaixo da luz alaranjada do pôr do sol. No deque, estão distribuídos bancos e mesas e, eventualmente, são recebidos eventos culturais. Dentre os visitantes, há quem aproveite para levar um vinho ou um cobertor.

APÓS INCÊNDIOS, ATRAÇÕES FUNCIONAM NORMALMENTE

Embora esteja distante dos grandes focos dos Estados do Amazonas e Pará, o Parque Nacional Chapada dos Guimarães sofreu três incêndios consecutivos desde 9 de agosto. O primeiro levou 10 dias para ser contido e dizimou 13% da área do parque, que possui cerca de 33 mil hectares. Com isso, duas de suas atrações, a Cidade de Pedra e o Vale do Rio Claro, chegaram a ser fechadas ao público. A visitação, no entanto, já foi normalizada.

Entre julho e setembro, queimadas são proibidas em Mato Grosso, já que a época de estiagem aumenta a propensão à combustão espontânea, com risco de incêndios de grandes proporções. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, declarou à Agência Brasil que a maior parte dos focos de incêndio verificados em agosto foi proposital, em áreas com alta concentração de lixo. 

O parque nacional é um dos quatro que o governo federal pretende conceder à iniciativa privada, junto com Jericoacoara (CE), Lençóis Maranhenses (MA) e Aparados da Serra (RS). O edital está previsto para ser publicado em outubro.

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Flutuação em águas cristalinas, a principal atração de Nobres

Cidade é uma espécie de versão rústica de Bonito, no Estado vizinho do Mato Grosso do Sul, com rios límpidos repletos de peixes

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2019 | 04h00

Águas de uma transparência azulada, que permitem a contemplação de peixes coloridos, são o principal atrativo do distrito de Bom Jardim, em Nobres, a cerca de 2 horas de Cuiabá. Por vezes comparada a Bonito, a região tem uma estrutura mais rústica, quase caseira, e aposta nos passeios de flutuação.

Começamos o dia na cidade com um almoço seguido de uma breve sesta em redes de couro e madeira, enquanto aguardávamos o passeio no Reino Encantado. Antes de fazer a flutuação no Rio Salobra, pusemos colete salva-vidas, uma bota especial e pegamos o snorkel e os óculos de mergulho. Filtro solar e repelente são proibidos, para não contaminar o rio.

As águas são límpidas, azuis-turquesa. Ao entrar, já percebemos que são menos geladas do que a das cachoeiras da Chapada dos Guimarães, mas enfrentamos outro desafio: não colocar o pé no chão durante a flutuação. Para não deixar a água turva, disputamos espaço sobre troncos enquanto tentávamos nos equilibrar para uma foto em grupo.

Logo na entrada, os funcionários jogaram ração para atrair os peixes. Depois, o passeio seguiu o curso do rio, que nos levava quase naturalmente pelo caminho, sem exigir esforço, mas dificultando algum retorno para um ponto que chamasse a atenção.

Com o rosto para fora da água, conseguimos observar melhor a vegetação no entorno do rio e evitar trapalhadas com troncos. Mas a graça é usar o snorkel e os óculos para procurar os peixes, que são de tamanhos e cores distintos. 

O passeio pelo Aquário Encantado é bem semelhante. As principais diferenças são que a trilha segue por um caminho repleto de macacos-prego e, eventualmente, alguns quatis. Além disso, os funcionários costumam jogar milho para atrair os peixes, que tentam transportar os grãos na boca. 

Ambas as opções de flutuação custam R$ 90. Em Nobres, o ingresso para os atrativos é comercializado exclusivamente por agências de turismo, isto é, não adianta ir diretamente até a atração turística. 

Pôr do sol

Hospedados em Bom Jardim, saímos da pousada de quadriciclo até a Lagoa das Araras. O caminho é tranquilo e passa ao lado de um terreno de pastagem de gado. A condução pode ser feita até por quem não sabe dirigir, após um breve treinamento. O custo é de R$ 120 por pessoa, por 1h30.

A trilha até a lagoa é curta e autoguiada. Lá, encontramos dois deques, dos quais observamos o entardecer e o retorno de mais de uma dezena de araras até os ninhos – feitos no topo de buritis, palmeiras que chegam a ter 30 metros de altura. A entrada custa R$ 20 e também precisa ser comprada em agência.

Além de Nobres, visitamos também o Sesc Serra Azul, que leva o nome de sua principal atração: uma cachoeira de 46 metros de altura. O acesso até a queda d’água é por uma escadaria de mais de 400 degraus. Embora o número assuste, os degraus são baixos e apenas uma parte do trajeto é de subida. A entrada na cachoeira pode ser feita apenas com colete de flutuação e o ingresso inclui ainda óculos para contemplação dos peixes. 

Da cachoeira, é possível fazer parte do trajeto de regresso por uma tirolesa de 700 metros de extensão e 50 metros de altura. A descida passa pela copa das árvores, aterrissando em campo aberto. A tirolesa custa R$ 60, enquanto a flutuação na cachoeira tem o preço de R$ 80. Há, ainda, um pacote combinado das duas por R$ 130, com desconto para comerciários, além de opções de cicloturismo e arvorismo. Ali também é preciso comprar o ingresso nas agências da cidade.

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