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Para 2020, meu manifesto

Você é do tipo que planeja as viagens em detalhes ou deixa espaço para se surpreender?

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2020 | 07h00

Estou a pensar que há três tipos de viajantes. O primeiro é formado por aqueles que, ao decidirem o destino da próxima viagem, saem a pesquisar tudo sobre o lugar. Beneficiados pela multiplicação surpreendente de sites, blogs e contas de Instagram dedicados ao assunto, além das tradicionais revistas e páginas de jornais como esta onde você me lê, munem-se de todas as dicas de lugares imperdíveis, desde a lista de restaurante mais cobiçados até os “cinco passeios mais baratos”.

Segurança é uma das razões. Segurança de saber exatamente onde e como ir para não perder o geralmente curto e precioso tempo no destino pesquisando e/ou batendo cabeça.

Segurança de poder se antecipar a ingressos esgotados e filas quilométricas comprando antes bilhetes para um espetáculo, museu ou deslocamento interno. Segurança de não ser pego de surpresa por preços de última hora acima do desejado: comprando antes, é possível calcular, parcelar e quem sabe até obter algum desconto.

Certamente há mais um bom número de motivos para os integrantes deste grupo viajarem com um arsenal de dicas e experiências compartilhadas, entre eles o próprio prazer de traçar roteiros enquanto o dia do embarque não chega. Motivos que, como os que citei acima, não são nem de longe desprezíveis – eu mesma já aproveitei muito mais alguns lugares por conta dessa pesquisa antecipada.

Digo eu mesma porque me encontro ainda mais próxima do segundo grupo, aquele que não pesquisa quase nada antes de viajar. Há a justificativa da costumeira falta de tempo cotidiano para tal e também a da falta de paciência. Pois onde alguns encontram deleite em desenhar roteiros perfeitos, outros podem se entediar facilmente diante da tarefa.

Mas há ainda uma razão que, acredito, se sobrepõe a todas as outras: a graça de não saber e vir a descobrir. Pois ainda que planejar traga muitas vantagens – e, em alguns casos, seja condição sine qua non –, inevitavelmente ela mina parte da nossa capacidade de nos surpreender com algo. Eis aí um paradoxo: quanto mais sabemos sobre um lugar pelos olhos e palavras dos outros, menos sabemos sobre ele por nós mesmos. É como ver o filme antes de ler o livro: a livre imaginação, não tem jeito, é atingida.

Tenho aprendido algo sobre pedagogia e psicanálise nos últimos meses. Entre as tantas descobertas, uma das mais elucidativas e encantadoras foi a possibilidade e necessidade de deixarmos nossas crianças e jovens serem sujeitos de algo novo no mundo. Algo novo que, por isso mesmo, deve estar livre das velhas expectativas e julgamentos dos adultos. Livre de ideias deterministas que estabelecem “competências” a serem “estimuladas” sem deixar espaço para que o novo e, por isso, incontrolável e surpreendente surja bem ali onde não se esperava nada. Pessoas têm esse poder. Lugares também.

Penso se, no fundo (ou na superfície), deixar-se livre de nossas seguranças viajantes não nos dá justamente a possibilidade do novo. Deixar-se (um pouco) livre daquilo que os outros recomendam para se sentir tranquilo em perder um dia ou outro de viagem sem roteiros, sem ingressos, sem horários.

Isso não significa se despojar de todos os saberes anteriores aos nossos. Tanto quanto na pedagogia, é necessário que a experiência dos mais velhos se apresente aos mais novos para que delas possa se construir algo novo. Pois os lugares que visitamos já foram desbravados por alguém e o que encontramos é o resultado de infinitas interações humanas antes da nossa.

Então fica aqui meu manifesto para este 2020 que começa: formarmos, cada vez mais, o terceiro grupo de viajantes. Aquele que não despreza o que já foi feito, falado, escrito, sentido por seus antecessores, mas que, ao contrário, sabe tirar proveito disso tudo a favor de traçar sua própria e única experiência no mundo, construindo algo novo para si e para quem está ao redor. Temos um longo caminho pela frente e, assim como educar, viajar pode ser mesmo uma aventura singular.

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