Para falar de Zeus. E da Olimpíada

Pouco sobreviveu aos maus-tratos do tempo, mas Olímpia vale por seu imenso legado - Pequim que o diga...

Carla Miranda, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2008 | 03h08

Daqui a 59 dias, quando a tocha for acesa, deuses há muito esquecidos terão seu esperado déjà vu quadrienal. Muito provavelmente não vão locomover suas vestes esvoaçantes até Pequim, distante 137 mil quilômetros de Olímpia, onde toda essa história começou. Mas acharão engraçado o ritual de atletas vestidos demais - há 12 séculos, a norma era competir sem nadinha sobre o corpo -, disputando provas esquisitas para seus padrões divinais. Se lembrarão, certamente, de uma época em que todas as guerras eram interrompidas para homenagear Zeus, o Deus dos deuses, com uma semana de provas esportivas. E olha que as desavenças não eram poucas: os gregos gostavam de um rififi como ninguém. Foi assim, religiosamente, entre 776 a.C. e 392 d.C., período em que Olímpia virava ímã de todos que sonhavam com a glória de conquistar um ramo de oliveira. O centro de tudo era um estádio com capacidade para 45 mil pessoas, do qual não sobrou praticamente nada. A entrada principal em arco, também chamada de cripta, ainda está de pé. Por ali chegavam os atletas, os juízes e os vips de priscas eras - a turma da geral usava os taludes, umas rampas laterais. Com tão pouco intacto, turista com imaginação leva vantagem. Passar pela escuridão da cripta e chegar à pista devia ser uma sensação equivalente a vencer os corredores do Maracanã e encarar a luz e as arquibancadas lotadas. Atualmente, o que se vê é um terreirão de 200 metros por 30 metros, ladeado por grama rala. Nas colinas do entorno, os troncos enegrecidos das árvores dão mostras de que nem o sagrado é deixado em paz. Tudo foi queimado por piromaníacos, que promoveram incêndios por toda a Grécia em 2007 e demonstraram especial predileção pelas matas do Peloponeso. O episódio está na boca dos taxistas, que fazem papel de guias no trajeto de 30 quilômetros entre o porto da cidade vizinha, Katakolon, e Olímpia. Guias muito bem remunerados, vale mencionar. A primeira pedida é de 90 (R$ 227) - e o motorista que está mais perto do porto não aceitará barganhas. Ande e o preço vai cair para 75 (R$ 189), aceitáveis na falta de opção melhor. Seu taxista-guia vai passar as informações e apontar aqui e ali, sem tirar os pés do acelerador. E você não conseguirá desviar os olhos do velocímetro: 100, 110, 120 quilômetros por hora, o dobro no permitido na estradinha de mão dupla. Com sorte o turista chega a Olímpia em 20 minutos e já abre a carteira para pagar os 9 (R$ 22) que dão direito a visitar o sítio arqueológico e o museu. Fique com as ruínas primeiro, cercadas por árvores e flores. Pouco sobrou, por exemplo, da principal construção, o colossal Templo de Zeus (470-457 d.C.), no ponto mais alto do terreno, com 6 colunas de frente e 13 no comprimento. Era lá que ficava a estátua do deus feita de marfim e ouro pelo mestre Fídias, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Depois que o imperador Teodósio proibiu os jogos, que considerava pagãos demais para seus padrões católicos, a escultura foi levada para Constantinopla (hoje Istambul, na Turquia), onde acabou sendo destruída por um incêndio. Lendo as placas na frente de cada ruína você começa a reconstruir esses séculos de história não tão bem preservados - pilhada e destruída por terremotos, Olímpia só foi redescoberta em 1766. Na tentativa de ajudar o visitante, o governo agregou desenhos (bem que podiam ser maquetes, não?). A tarefa de abstração fica mais difícil diante do Bouleuterion, usado para o juramento dos atletas, e do Pritaneon, onde a tocha olímpica era acesa, bastante danificados. Já o Filipeon está um pouquinho melhor. Enfim, a visita a esse Patrimônio da Humanidade compensa pelo clima de paz reinante, a vaga idéia daquela gigantesca obra e o legado olímpico. MUSEU Anos de escavações promovidas por equipes alemãs deram ao Museu Arqueológico um acervo bom e compacto. Em pouco mais de uma hora você passa pela fachada do Templo de Zeus, pela estátua de Hermes com Dionísio nos braços e por itens como vasos, armas e utensílios de várias épocas. Uma maquete (enfim!) mostra o santuário em sua antiga e melhor forma. COMO IR (DE ATENAS) Ônibus: os veículos que seguem em direção a Olímpia partem do Terminal A da estação de ônibus de Atenas (Kifisoú 100). São dois horários diários de saída: às 9h30 e às 13 horas. Você vai levar seis horas, aproximadamente, para cumprir o percurso entre as cidades

Mais conteúdo sobre:
olimpia zeus olimpíada

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.