Para o meu melhor companheiro de viagem

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Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2018 | 00h41

Eu queria enxergar a rua com os olhos do meu cachorro, o Pitoco.

Com ele, todo passeio é uma viagem diferente.

As palavras terminadas em “ar” são imediatamente compreendidas como “passear”. Um dia, assistindo TV, comentei que nunca tinha tido interesse por “caviar”. Imediatamente, ele registrou “passear” e pulou do sofá, correndo até a porta da sala.

A simples possibilidade de uma caminhada faz com que o Pitoco balance o rabo com a alegria de quem acabou de achar uma passagem aérea em promoção. 

Ansioso, desembarca do elevador com o alívio de quem enfrenta um longo voo.

E Pitoco chega ao Japão: subindo o Monte Fuji da nossa calçada e pressentindo a chegada das flores na cerejeira de um poste torto.

E Pitoco marcha pela Praça Vermelha: fazendo xixi no muro da escola como se estivesse regando a estátua do Lenin.

E Pitoco almoça em Paris: fuçando no lixo dos croissants perdidos.

E Pitoco brinca em Roma: lutando com o seu porquinho rosa no Coliseu de um canteiro mal conservado. 

E Pitoco cai na noite de Nova York: pisando devagarinho na 5.ª Avenida que vai da padaria até a portaria do nosso prédio. 

Ele é o melhor tipo de viajante. O viajante-modelo. Do tipo que sempre acorda com o ânimo e a energia de quem vai descobrir coisas novas. 

Seus olhinhos de desembrulhar surpresas nunca se cansam. Ele tem a capacidade de se surpreender com a mesma coisa todos os dias – e de ter um coraçãozinho que dispara diante de qualquer cenário rotineiro. Mesmo sem sair da mesma quadra, suas jornadas são cheias de emoção e aventura. Ele presta atenção. Não conhece o tédio. 

Com ele, tudo é Monalisa. Tudo é Muralha da China. Tudo é Torre Eiffel. 

Toda graminha, um Central Park.

Toda campainha, um Big Ben.

Toda visita, um membro da família real.

Meu sofá, um Everest.

O sol batendo na varanda minúscula tem a mesma luz que varre Wadi Rum, o deserto vermelho, na Jordânia. 

A casa dele, sempre a mesma, é um resort em Bora Bora.

A ração, o ossinho, a bordinha proibida de pizza e o que mais for mastigável têm o sabor de um prato assinado pelo chef Massimo Bottura. 

Eu queria ler um guia de viagem escrito pelo Pitoco, queria ler sobre as coisas boas e divertidas da vida a partir do ponto de vista dele, queria que ele me desse dicas do que é viver bem e satisfeito, queria respirar o universo de possibilidades que o meu cachorro respirava. 

Pois bem, é isso. O Pitoco, que tantas vezes foi personagem dessa coluna, nos deixou no último dia 12.

O amigo que me recebia todo santo dia como se eu estivesse retornando de uma volta ao mundo (ou como se eu estivesse voltando para casa depois de ter sobrevivido a um desembarque na Normandia) não mora mais neste plano. 

Meu viajante preferido foi fazer xixi em outras estrelas. 

Foi conhecer um novo lugar – que deve estar achando superlativamente incrível.

O que antes não era possível, agora é líquido, canino e certo. Para todo o lugar que eu for, Pitoco vai comigo.

Meu melhor companheiro de viagem. 

Vai fazer falta, velhinho.

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