Passos sobre um cartão-postal

Sem perder o fôlego, é possível curtir os 54 quilômetros de belos cenários da Milford Track, na Nova Zelândia

Robert D. Hershey Jr., The New York Times

03 Março 2009 | 02h19

Em 1908, a revista The Spectator considerou ''a melhor caminhada do mundo'' o trajeto de 54 quilômetros pela trilha Milford Track, que atravessa o Parque Nacional Fiordland, na Nova Zelândia. Cem anos depois, a definição ainda se aplica ao caminho - do qual um dos fãs ardorosos foi sir Edmund Hillary, famoso explorador e alpinista neozelandês.

 

Com calma: caminhada em grupo não impede cada um de seguir seu ritmo e de parar quando quiser

 

O parque integra a área do Te Wahipounamu, considerada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Sua beleza, uma rara combinação entre floresta tropical, rios de corredeiras e montanhas pontiagudas de cumes cobertos de gelo, faz o visitante acreditar que está pisando sobre um cartão-postal. O que, vamos admitir, não deixa de ser verdade.

 

Veja também:

linkO desafio do clima úmido e instável

Além disso, trekkers novatos e experientes podem aproveitar os encantos da trilha. O caminho oferece tanta solidão quanto alguém possa querer e a água daquele trecho é tão pura que você não se sentirá intimidado em beber de qualquer bica ao seu alcance.

Estive lá no verão, em fevereiro, como parte de um grupo guiado composto por 50 viajantes. O tour era de cinco dias - três deles, de caminhada pesada. As palavras que mais ouvi nesse período foram ''fantástico'' e ''incrível''. A trilha não é fisicamente difícil, mas tampouco pode ser descrita como fácil. Apenas crianças com menos de 10 anos e pessoas acima dos 70 anos devem primeiro perguntar a seu médico se estão liberados para o passeio.

Em outras palavras: urbanoides que não costumam andar mais que alguns minutos por dia terão certa dificuldade, enquanto caminhantes experientes não se sentirão necessariamente desafiados, ao menos com condições favoráveis. Isso porque tudo depende dos humores do clima - é comum chover e, algumas vezes, até nevar no canto sudoeste da Ilha Sul neozelandesa, mesmo no verão.

Na alta temporada, que vai de outubro a abril, o número de caminhantes é limitado a 90 por dia. Cinquenta são guiados pela empresa Ultimate Hikes New Zealand, que tem franquia exclusiva, e os outros 40 se registram de forma independente no Departamento de Conservação da Nova Zelândia. Fora da temporada e no inverno não existe a necessidade de registro, mas são épocas menos recomendadas para o passeio.

Conforto

Tanto para chegar como para sair do parque o visitante precisa de transporte fluvial. Por esse motivo, a maneira mais prática de fazer a trilha é com a Ultimate Hikes, que leva os turistas diariamente desde sua sede, em Queenstown.

O roteiro segue do Lago Te Anau para o Sandfly Point, no Fiorde Milford Sound. A mesma rota percorrida em 1888 por Quintin Mackinnon Scot e Ernest Mitchell Scot, os primeiros desbravadores a descobrir a passagem pelas montanhas.

O pacote inclui guias, transporte de ônibus e barco, todas as refeições e acomodação em modernos lodges dotados de banheiro, secadores de cabelo e quartos com secagem ultrarrápida de roupas. Os preços são mais altos entre dezembro e março.

Apesar de fazer parte de um grupo, você não se sentirá confinado aos hábitos alheios. Não há pressão alguma para andar em outro ritmo senão o seu próprio nem em fazer nenhuma parada que não seja nos lugares que você deseja fotografar, admirar a paisagem ou simplesmente descansar.

À vontade

''Não estamos em uma corrida. Não há prêmio para quem chega primeiro'', explicou Anneke, a responsável por conduzir a apresentação do passeio antes de eu e minha amiga, Anne, começarmos a caminhada. ''Podem se passar mais de duas ou três horas entre a primeira e a última pessoa chegarem.'' Segundo ela, o tipo de trilha permite que quatro dúzias de trekkers tenham quase total liberdade para curtir o local, com ou sem companhia.

Na verdade, um dos meus poucos momentos não tão fáceis veio depois que eu parei por 15 minutos para conversar com uma diplomata americana que acompanhava seu marido pescador. Um grupo de trekkers me ultrapassou. E, quando retomei a caminhada, estava em uma área aberta, onde a trilha não era bem definida. Por alguns momentos, achei que estivesse perdido. Mas bastou voltar pouco mais de 100 metros para encontrar um casal que fazia parte do meu grupo.

Um dos guias tem o cuidado de sempre ficar atrás do último trekker para poder ajudá-lo caso seja necessário. Ou seja, basta você se manter na trilha principal para não se perder. Se decidir entrar em um dos curtos caminhos adicionais, siga a orientação de deixar a mochila na trilha principal. Assim, não há risco de o último guia ultrapassar você.

Como ir

linkPassagem aérea: há voos da LAN (0800-761-0056), com escala em Santiago, no Chile, e das Aerolíneas Argentinas (0800-707-3313), com escala em Buenos Aires, entre São Paulo e Auckland. De Auckland a Queenstown há opções de voo da Qantas (www.qantas.com.au) e da Air New Zealand (www.airnewzealand.com)

linkVisto: não é necessário para brasileiros

linkPacote: a Ultimate Hikes New Zealand (www.ultimatehikes.co.nz) organiza passeios de cinco dias e quatro noites pela Trilha Milford, entre novembro e abril. Os grupos têm até 50 integrantes. Até o fim de março, alta estação, o pacote custa 1.850 dólares neozelandeses (R$ 2.245) por pessoa, em acomodação para até seis pessoas, e 2.200 dólares neozelandeses (R$ 2.670) em quarto duplo com banheiro. Em abril, os preços diminuem para 1.690 dólares neozelandeses (R$ 2.050) e 2.040 dólares neozelandeses (R$ 2.475), respectivamente. É necessário fazer reserva com pelo menos um mês de antecedência

linkOpção: uma alternativa de passeio no Parque Nacional Fiordland é o trekking de três dias e duas noites pela Trilha Touteburn, também com a Ultimate Hikes New Zealand. Preço sob consulta.

linkCurso: um dia antes do começo da caminhada pela Trilha Milford, o turista precisa fazer um cursinho preparatório em Queenstown. Mochilas e capas de chuva estão disponíveis para empréstimo. Já o aluguel dos bastões para caminhada custa 25 dólares neozelandeses (R$ 30)

linkBagagem: cada turista é responsável por carregar objetos de uso pessoal durante o trekking: roupas, artigos de banho, água e lanches de trilha

linkDia de descanso: não há caminhada no último dia. No período da manhã, os turistas são levados a um passeio de barco pelo Fiorde Milford Sound. Depois, seguem de ônibus de volta para Queenstown

linkIndependentes: aventureiros que dispensam a companhia de guia precisam agendar a visita no Departamento de Conservação para fazer a Trilha Milford na alta estação. O processo pode ser feito pelo site www.doc.govt.nz.  

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