Ricardo Freire/AE
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Patagônia sem esforço

As paisagens da Patagônia evocam intrépidas aventuras ao ar livre – caminhadas extenuantes, longos períodos de exposição ao frio e ao vento, ecoturismo em estado bruto. Existem maneiras, porém, de visitar a beleza intocada do extremo sul do continente com conforto. Uma das alternativas com a melhor relação esforço x benefício é embarcar num dos cruzeiros de luxo que a companhia chilena Australis realiza entre Ushuaia, na Argentina, e Punta Arenas, no Chile.

Ricardo Freire, O Estado de S. Paulo

16 Março 2010 | 14h22

 

Durante três, quatro ou sete dias você percorre os fiordes do arquipélago da Terra do Fogo, visitando geleiras e vendo pinguins, elefantes-marinhos e uma profusão de aves patagônicas. Tudo isso sem nunca ficar mais do que duas horas longe do quentinho da sua cabine – ou do bar. O Turista Profissional fez esta viagem no fim de fevereiro e conta os detalhes para você. (A propósito: o terremoto do dia 25 de fevereiro não teve efeito no sul da Patagônia. A região está fora da zona de instabilidade sísmica. Ainda dá para aproveitar o finzinho do verão da região.)

 

O navio. As embarcações são pequenas, para permitir a navegação pelos braços mais rasos do emaranhado de fiordes perdidos entre o Canal de Beagle e o Estreito de Magalhães. São, no máximo, 140 passageiros a bordo, que viajam num clima informal – afinal, trata-se de uma "expedición".

 

As instalações são discretas; o navio parece mais um grande iate. Há apenas um restaurante onde são servidos café e almoço (em sistema de bufê) e o jantar (à la carte). Todas as bebidas estão incluídas, no restaurante e no bar.

 

As horas de navegação são preenchidas com ótimas palestras – ministradas simultaneamente em inglês e espanhol, em salões diferentes – relacionadas ao que será visitado em seguida: as andanças de Darwin pela Patagônia; glaciologia e aquecimento global; aves patagônicas; a vida dos pinguins. Na hora de descer, os passageiros são divididos em grupos (de acordo com os idiomas) e fazem percursos diferentes, de maneira a nunca superlotar um único ponto do local visitado.

 

Ushuaia–Punta Arenas. Espremido em três dias, o programa da perna Argentina-Chile do cruzeiro Australis é um pouco puxado. O navio zarpa às 20 horas, durante o jantar, e às 6h30 da manhã o alto-falante já chama os passageiros para a primeira atividade: a descida ao Cabo de Hornos, o pedaço de terra mais ao sul do planeta antes da Antártida, no ponto onde o Atlântico encontra o Pacífico. As condições do mar por ali costumam ser tão ruins que em apenas 40% das vezes o cruzeiro encontra condições favoráveis ao desembarque. Não descemos. De lá o navio refaz um percurso da viagem de Charles Darwin, que passou dois anos pela Patagônia antes de chegar às Ilhas Galápagos. A parada é na Baía de Wulaia, onde o naturalista inglês teve contato com indígenas patagônicos.

 

O segundo dia começa com o barco passando ao pé de montanhas com cumes nevados. Depois do almoço acontece o grande momento dessa etapa, com a aproximação, em botes salva-vidas, da Geleira Piloto, que fica ao fim de um fiorde estreito. Antes de escurecer o canal ainda oferece outra visão majestosa: a da Geleira Plüschow. O passeio chega ao fim na manhã do terceiro dia, com o desembarque, bem cedinho, na Ilha Magdalena, sede de uma colônia de mais de 200 mil pinguins-de-magalhães.

 

Punta Arenas-Ushuaia. A programação da perna Chile-Argentina, de quatro dias, é um pouco mais relaxada. O navio novamente sai à noite e o dia seguinte é dedicado aos animais marinhos. A primeira parada é na Baía Ainsworth, onde há descida para ver de perto elefantes-marinhos, parentes dos leões e lobos-marinhos, só que ainda maiores. O barco passa pela Geleira Marinelli e ancora mais uma vez, para uma expedição de circunavegação da Ilhota Tucker, refúgio de pinguins-de-magalhães, cormorões e outras aves.

 

O tema do próximo dia são as geleiras. Logo depois do almoço há a descida em botes para ver de perto o Glaciar Pia. E antes do jantar ocorre a travessia da Avenida das Geleiras: durante uma hora e meia o navio passa em revista cinco glaciares imponentes. A cada nova geleira, há uma rodada de brindes no bar e no convés. O último dia de navegação repete a dobradinha Cabo de Hornos/Baía de Wulaia. Para mim, o repeteco valeu: dessa vez conseguimos descer no Cabo de Hornos e ganhei um carimbo no meu passaporte.

 

Ida ou volta. Pouquíssimos passageiros fazem o roteiro completo. A maioria está cumprindo um circuito pelos dois lados da Patagônia – quem desembarca em Punta Arenas segue para Puerto Natales e Torres del Paine; quem desce em Ushuaia continua à Península Valdés ou a El Calafate. A viagem de três dias sai desde US$ 840 por pessoa em cabine dupla; a de quatro dias, US$ 1.120. A temporada vai de setembro a abril. Mais: australis.com.

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