Eugênio Sá/Divulgação
Eugênio Sá/Divulgação

Pé na cozinha

Das panelas de barro evaporam aromas que vão até as vielas e igrejas coloniais fisgar turistas pelo estômago. Comida boa, arquitetura e arte: eis o cardápio das cidades históricas. Vai resistir?

Bruna Tiussu, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2012 | 15h31

No cardápio de atrações, igrejas barrocas salpicadas por quilos e mais quilos de ouro dividem espaço com o aroma dos quitutes e temperos vindos das panelas de barro. Esculturas de Aleijadinho e outros artistas da época colonial atraem a atenção de quem encara as ladeiras, assim como os fogões à lenha centenários e as cozinheiras que, nos casarões, repetem com toques do jeitinho mineiro as receitas lá do Brasil de antigamente. É esse caldeirão que mistura história, arte e culinária o que melhor define a região das cidades históricas de Minas Gerais. Que ganha o visitante ora pelo olhar, ora pelo paladar.

Pequenina e com apenas 7 mil habitantes (a vizinha Ouro Preto é cerca de dez vez maior, com população de 70 mil), Tiradentes é a que melhor representa essa experiência turística que exige um pé na cozinha. Não à toa, é considerada capital da gastronomia mineira, o que faz com que um roteiro por lá inclua, obrigatoriamente, o legítimo feijão tropeiro.

Seus restaurantes até parecem ter o dom de ir buscar os pedestres pelo cheiro, assim, como quem não quer nada, enquanto as lojinhas atraem pela mescla de cores em suas prateleiras. São doces em compota, em pedaços, queijos, cachaças, temperos... Tudo produzido na região. Como se não bastasse, a cidade convida a ir atrás de suas iguarias lendárias. Ou seja, criadores e criaturas que ganharam fama no mundo gastronômico para além dos limites de Minas Gerais.

Deixe a desconfiança mineira bater e faça o teste. Pergunte a um local onde encontrar os melhores doces de Tiradentes e verá que todas as respostas vão levar à lojinha de Chico Doceiro, que há mais de 40 anos produz gostosuras a preços nunca vistos nas grandes metrópoles. Ou, quando a bordo da maria-fumaça que faz o trajeto Tiradentes - São João Del Rey, fique atento ao nome mais clamado pelos passageiros. E lá vem a sorridente Edna atendendo a cada chamado com seu tabuleiro recheado de açúcares. Doceira há mais de 30 anos, ela (e seus quitutes) deixa o passeio mais saboroso. Anote os imperdíveis: pirulito de mel (R$ 1) e cocada (R$ 2).

Quanto aos pratos salgados, encontre outra estrela da culinária local ao buscar informações sobre um tal leitão à pururuca de que tanto falam. Você acabará batendo à porta da Pousada Villa Paolucci atrás do médico (e chef) Luiz Ney, que revolucionou o modo de preparo do prato. Apesar de a receita ser antiga, herdada de seu avô, o cozinheiro atinge uma crocância inigualável com sua engenhoca, o pururucador. Trata-se de um bastão de cerâmica que atinge 800 graus e, como passe de mágica, faz a pele do animal pipocar.

Estrelado. Com currículo gastronômico que parece transbordar por seu tamanho diminuto, Tiradentes também foi escolhida para receber anualmente um dos mais célebres eventos de culinária do País, o Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes. Sua 15.ª edição está para sair do forno: começa em 24 de agosto e vai até 2 de setembro.

Aclamados chefs nacionais e internacionais - o espanhol Jordi Roca, do restaurante El Celler de Can Roca, em Girona, é a estrela da vez - marcam presença no comando dos festins, os principais jantares do evento. Com menus criativos (e ingressos limitadíssimos) são realizados nas mais charmosas e requintadas pousadas da cidade.

O evento deste ano convida a mirar os talheres em sabores típicos de seis Estados: Pernambuco, Amazonas, Rio de Janeiro, Ceará, Rio Grande do Norte e Minas Gerais - porque ninguém aceitaria deixar de lado as delícias locais em pleno solo mineiro. Além dos jantares, a programação se estende por toda a cidade com palestras e workshops de culinária gratuitos, atrações culturais e uma feira livre, onde o visitante pode garantir sua trouxinha de guloseimas personalizada para levar na mala.

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