Ilustração: Farrell/AE
Ilustração: Farrell/AE

Pecados viajores

Nosso viajante preparou as malas, escovou os pelos de Trashie, sua inseparável raposa das estepes siberianas, e apontou a proa rumo a Honduras, cujos acontecimentos tem acompanhado com divertido interesse. Ao contrário do que costuma fazer, mr. Miles nem sequer se deu ao trabalho de verificar a disponibilidade de hospedagem em Tegucigalpa. "Em último caso, vou até a Embaixada do Brasil e ali estendo meu sleeping bag". A carta da semana:

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo,

13 Outubro 2009 | 01h41

Mr. Miles: quais são os pecados capitais que as pessoas cometem quando viajam?

Yvonne Solnik, por e-mail

"Well, my dear: é quase impossível viajar sem cometer um pecadilho involuntário, ao menos once in a while. São tantas as regras não escritas de etiqueta que é virtualmente inviável dominá-las. Meu bom amigo Sean O'Connor, solerte executivo londrino, esteve em uma reunião de negócios em Jacarta, na Indonésia, e, as always, envergou uma de suas belas gravatas Drakes. A reunião foi um fracasso. Os indonésios jamais usam gravatas, nem mesmo em ocasiões formais. Sean ficou, literalmente, com um nó na garganta.

Mas não se pode culpá-lo, don't you agree? Em minha modesta opinião, excluindo o grave sacrilégio do desinteresse que, however, já é a própria penitência do viajante que o comete, há outros erros capitais nos quais não se pode incidir. Um deles, que muitos de nós perpetramos com frequência, é o pecado da carne. Be careful, my friends: não deixeis vossas carnes (por mais generosas e bem tratadas que sejam) demasiadamente à mostra, exceto em locais em que esse hábito seja sabidamente bem aceito. Quando houver dúvida, o melhor é estar composto com certo recato. E, by the way, se esse regra lhe parece puritana, tenha em mente que dois terços das nações do planeta pensam o contrário.

Fique atento, também, ao pecado da ignorância política. Cada país, democrático ou não, tem um governo e leis em vigor. Informe-se antes sobre o regime praticado. Ou você corre o risco de repetir o vexame de meu amigo Wernerson Soltenberg, que, embriagado de felicidade, ergueu um brinde aos seus anfitriões em um jantar oficial no Reino de Tonga: " Viva a República!", conclamou o convidado. E, of course, só não foi deportado porque os nobres de Tonga têm um ótimo fairplay.

Há outros pecados viajores, menos mortais, mas não menos constrangedores. Jamais fotografe as pessoas sem pedir-lhes seu consentimento. Para muitos povos, é o mesmo que roubar-lhes o espírito. Para outros - and that's more than enough -, trata-se de pura falta de educação. Esforce-se para aprender algumas palavras básicas no idioma local. Um "bom dia" ou um "obrigado" em italiano, farsi ou húngaro redimirá, for sure, boa parte de seus pecadilhos não intencionais. E ainda, frequently, lhe renderá um sorriso.

At last, não importa onde esteja, demonstre respeito pelos hábitos religiosos locais. Aja com reverência ao entrar em um templo. Mascar chicletes dentro de uma catedral ou de uma mesquita, for instance, pode levá-lo diretamente ao inferno - e, conforme o templo, não será sequer o inferno de sua fé. Já usar meias sujas ou furadas não pode ser considerado um ato pecaminoso. But, I'm very sorry to say: se precisar tirar os sapatos para entrar em alguns desses templos e estiver nessa condição, você talvez se sentisse mais confortável ardendo numa fogueira da Inquisição."

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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