Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Pedaço de Saigon

Ho Chi Minh não para nem quando escurece. Seu ritmo se contrapõe, porém, ao clima de paz no delta do Mekong. Das memórias de guerra à beleza de sua tradição milenar, o sul do Vietnã mostra suas peculiaridades

Texto: Bruna Toni, Fotos: Daniel Teixeira, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 03h00

HO CHI MINH - Na margem do Rio Saigon está uma cidade que não quer parar, mesmo quando cai a noite – quente e seca em razão da época do ano, entre fevereiro e abril. Da embarcação turística, atrativo para interessados em provar comidas típicas ao som de música folclórica, o cenário da movimentada Ho Chi Minh, no sul do Vietnã, é colorido e tipicamente urbano: prédios se intercalam em tamanho e ganham destaque por seus letreiros luminosos que estampam marcas do mundo todo. 

Nas ruas, as buzinas não param e são elas que fazem as regras num trânsito caótico aos olhos ocidentais. O barulho vem, principalmente, das cerca de 6 milhões de motos tipo Vespa que invadem as ruas levando, para cima e para baixo, famílias inteiras. Por isso, não se espante ao olhar para o lado e se deparar com um bebê em um dos braços do motorista ou com um cachorro “surfando” no piso da pequena motocicleta – as mais clássicas prendem a atenção dos amantes automotivos.

Na maior e mais populosa cidade do país – estimam-se 12 milhões de habitantes, número que deve passar dos 20 milhões até 2050 – há comércio e negociatas por todos os cantos. Lojas de departamento, mercadinhos, restaurantes, cafés e incontáveis ambulantes não deixam o coração financeiro do Vietnã atrás de nenhuma outra metrópole. Mas há muitas coisas que escapam – e você perceberá isso logo na primeira caminhada – ao nosso mundo globalizado. 

A cultura milenar ainda preserva muitos traços da influência chinesa e dos anos da colonização francesa durante o século 19, traduzidos em arquitetura, língua, religião e costumes cotidianos.

No meio do buzinaço de uma manhã de sábado no centro da cidade, por exemplo, um casal consagra seu amor na Catedral de Saigon Notre-Dame – sim, uma réplica da famosa parisiense –, construída em 1863 pelos próprios franceses. A noiva, vietnamita, num traje vermelho bordado; o noivo, francês, numa espécie de túnica azul. Ambos posam para os intermináveis pedidos de fotos dos curiosos turistas. Estão tão felizes quanto o Buda gigante exposto em uma pagoda nada convencional a uma hora e meia dali, na região do delta do Rio Mekong. O templo Vinh Trang, em My Tho, é assim: por fora, contornos de uma arquitetura tipicamente francesa e detalhes inspirados na cultura do vizinho Camboja; por dentro, inspiração romana; nas paredes, ideogramas chineses.

São esses contrastes que fazem de Ho Chi Mihn – ou Saigon, para os mais antigos – um lugar excepcional no Sudeste Asiático. Das aventuras do jornalista Tintim, criado por Hergé, aos relatos hollywoodianos da Guerra do Vietnã, nosso imaginário se refaz a cada descoberta. Três dias serão suficientes para conhecer o sul do país e perceber que a Cochinchina - sim, ela existia, e ficava nessa região – pode ser mesmo longe (partindo de avião do Brasil, são 20 horas, com escala em Dubai). Mas basta desembarcar para se ter a certeza de que a viagem valeu cada quilômetro percorrido.

A repórter viajou a convite da Emirates Airlines (emirates.com).

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Poder entre o vasto jardim e os estreitos porões do palácio

Em qualquer lugar público você encontrará o mesmo retrato na parede. O rosto de Ho Chi Minh, mais famoso líder político do Vietnã, responsável pela reunificação do país em 1975, está por toda parte. Até nas notas do dinheiro local, o dong. O culto à sua figura pode surpreender no começo, mas a recente história de independência do país talvez explique a importância do homem que rebatizou a antiga capital do Vietnã do Sul, antes chamada de Saigon.

Texto: Bruna Toni, Fotos: Daniel Teixeira, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 03h00

Conhecer a história política e social do Vietnã pode ser bastante revelador. Você não escapará disso nem numa passagem rápida por lá. Pelas ruas, são incontáveis as propagandas do governo socialista, sempre acompanhadas do vermelho-poder e do amarelo-realeza que tingem a bandeira do país. Um contraste com as multimarcas internacionais nas ruas, que ganharam força a partir de 1997, com o fim do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. 

Lam, a guia que nos acompanhou durante todo o período, comenta que hoje há liberdade econômica, o que parece manter a estabilidade diante de um regime sem democracia direta.

Fora das ruas, entender melhor essa história milenar, que começa quando a região fazia parte dos domínios da China Imperial, passa por uma visita ao Palácio da Reunificação (dinhdoclap.gov.vn; 30 mil dongs ou R$ 4). Fica no centro da cidade, onde também está concentrada a maioria dos hotéis e outros pontos turísticos, como o prédio dos Correios e o Mercado Municipal. 

No vasto jardim, pode-se passar horas ouvindo o barulho da água cuspida pela fonte enquanto observa a movimentação de turistas e estudantes extasiados diante das réplicas de tanques de guerra expostos na entrada. Há quiosques para comer ou beber no bosque adiante.

A arquitetura do edifício, mais uma vez, é uma mescla cultural do Ocidente com o Oriente e suas bases contam, por elas mesmas, a conturbada história do país. Projetado para ser sede do governo da Cochinchina em 1868, no período da colonização francesa, passou pelas mãos dos japoneses em 1945 e foi centro de comando dos Estados Unidos até 1975, durante a guerra fria e a Guerra do Vietnã. Nesse período, mais precisamente em 1962, parte de sua estrutura foi destruída pelo bombardeio promovido por dissidentes da Força Aérea do Sul contrários ao regime do presidente Ngo Dinh Diem. A ideia era assassinar o estadista, que não só sobreviveu como ordenou a reconstrução do palácio – a versão que se vê atualmente.

Obra de Nguyen Viet Thu, o mais famoso arquiteto e pintor do país, o Palácio da Reunificação começou a ser reconstruído em 1962 e foi concluído quatro anos depois. Entre as curvas e os antigos elementos de inspiração francesa, imagine encaixar os riscos do ideograma chinês no novo desenho. Assim a estrutura externa foi pensada: suas partes, desde a posição da bandeira até o terraço, vão formando palavras cujos significados remetem a prosperidade, inteligência, força, soberania, liberdade de expressão.

Detalhes. Só mesmo caminhando pelo interior do palácio para se ter ideia de sua dimensão. Os amplos cômodos mantêm preservados cenários de reuniões históricas, como a que selou a união do Norte e do Sul, e do cotidiano dos presidentes e de suas famílias – desde a sala de onde saiam as ordens políticas até a que reunia mulheres. 

A sala de jogos chama a atenção tanto quanto o pequeno cinema com poltronas vinho empoeiradas, no segundo andar. A dualidade das cores se repete em cortinas, tapetes, estofados: o amarelo e o vermelho dão o tom, enquanto o dragão desenhado em um enorme carpete no centro do prédio – presente do governo de Hong Kong em 1973 – lembra o que aquele espaço sempre foi, independentemente de quem o ocupava: o maior símbolo do poder sobre o povo. 

No último piso, um salão abre caminho para o heliponto por onde fugiram os norte-americanos no fim da guerra. Ali existe um bar improvisado, o único dentro do prédio, com bebidas de 15 mil a 20 mil dongs (de R$ 2 a R$ 3, em dinheiro).

Chegar aos porões é, com o perdão do trocadilho, o ponto alto (e mais claustrofóbico) do passeio. Esqueça os vastos halls dos três pisos superiores: andar por aqui é como entrar num corredor estreito de navio, ou de uma câmera escura, passando por paredes espessas cujo principal objetivo era o de proteger os residentes dos bombardeios. Pequenas salas abrigavam os centros de comunicação, as salas de mapas, a mesa das refeições e o quarto do presidente. Era de uma delas que No Dinh Diem comandava todo o Vietnã do Sul durante os anos críticos.

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Uma Notre-Dame vietnamita em meio à lotação do cotidiano

Era sexta-feira à noite e a Praça da Comuna Parisiense, próxima à Catedral de Notre-Dame, borbulhava. Jovens disputavam cada centímetro do gramado com suas toalhas e garrafas servidas de chá e café. A calçada do entorno também era disputada: sobre ela, uma fileira de motos esperava os donos que aproveitavam o calor – alguns, devorando um prato de noodle (macarrão). Perto dali, cafeterias lotadas. Em todas elas, o cardápio é variado, os preços são modestos, a quantidade e a qualidade, prazerosas. Uma boa opção para turistas que, como nós, estavam desprevenidos e não levaram a própria bebida – só tenha em mente que poucos vendedores falam inglês.

Texto: Bruna Toni, Fotos: Daniel Teixeira, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 03h00

A vida noturna no centro, ou Distrito 1 – as regiões em Ho Chi Minh são divididas em 11 distritos –, costuma ser assim, movimentada até pelo menos as primeiras horas da madrugada. Grande parte do comércio fecha as portas depois das 22 horas, como os shopping centers, mas há sempre uma ou outra loja de conveniência aberta. Nada comparado, claro, ao movimento diurno. Basta reservar um dia para conhecer o Mercado Ben Thanh e você entenderá o que quero dizer. 

Como em qualquer mercado municipal, o movimento é intenso e a organização é o caos. Mas, no de Ho Chi Minh, tudo se mistura: nos mais de 3 mil quiosques apertados em corredores estreitos, estão à venda de roupas a carnes, de frutas a chás, de peixes a perfumes. Percorra o setor de presentes para encontrar uma versão em miniatura de Tintim em Saigon por 150 mil dongs (R$ 20), isqueiros com temas de guerra a 180 mil dongs (R$ 24) ou uma camiseta básica com a foice e o martelo estampados. 

A guia Lam alerta que tudo é mais caro por lá (sim, acredite), mas a qualidade compensa e, principalmente, todo valor pode ser negociado. É só dizer que não vai levar o produto para o vendedor, em inglês básico, tentar barganhar. O assédio pode incomodar um pouco, mas vai valer a pena se você estiver mesmo interessado em comprar. Por isso, procure ir sem pressa – o mercado funciona entre as 5h30 e as 17h30 todos os dias, mas as lojas de roupas e sapatos, por exemplo, abrem mais para o meio da manhã.

Do lado de fora, a confusão não é menor. Ambulantes tentam fazer dinheiro e as ruas são tomadas por ônibus de turismo chegando e partindo, pedestres e donos de motos vendendo aos turistas alguns minutos em cima de suas garupas. Vontade de descobrir Ho Chi Mihn pilotando ou sendo passageiro em uma dessas Vespas não faltará. Para não cair em roubadas, no entanto, o melhor é procurar uma agência. Uma volta de três horas e meia, com direito a uma bebida e parada para comer, sai por US$ 89 por pessoa na Vietravel (vietravel.com.vn).

Herança de Eiffel. O Correio Central é outro bom lugar para fazer umas comprinhas no centro e, ao mesmo tempo, conhecer um prédio histórico. Desenhado pelo francês Gustave Eiffel (sim, o mesmo da Torre Eiffel de Paris), foi erguido entre 1886 e 1891. Reformado recentemente, está conservadíssimo – e lotado diariamente desde a abertura, às 7 horas, até quando tranca as portas às 19 horas (18 horas às quartas-feiras). 

Há, claro, a movimentação dos moradores interessados no serviço de telegrama. Mas a maioria faz do espaço um novo mercado de souvenirs e poucos reparam no design. Não é para menos: são várias lojinhas que apostam em vendedoras vestidas com o ao dai, traje típico vietnamita, para atrair clientes. Caminhe até o fim dos corredores para encontrar o tradicional chapéu nón la em formato de cone desde 30 mil dongs ou (R$ 4), cartões-postais (80 mil dongs ou R$ 10), calendários (150 mil dongs ou R$ 20), miniaturas de motos (250 mil dongs ou R$ 33) e até trabalhadores sentados entre as mercadorias, almoçando o costumeiro noodle.

Não é exagero chamar esse “pedaço de Saigon”, como diria Emílio Santiago, de afrancesado. Saindo do Correio, duas torres avermelhadas em estilo neogótico fazem esquecer por alguns minutos que seus pés estão no Sudeste Asiático e não em algum canto europeu cuja tradição medieval foi preservada. A Catedral de Notre-Dame quebra as expectativas de quem busca apenas o exótico. Tijolo por tijolo, telha por telha, todos trazidos da França no século 19, quando a igreja começou a ser construída. O espaço abrigou a minoria católica que se instalou na região e, hoje, é uma das mais importantes obras arquitetônicas do país predominantemente budista.

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Texto: Bruna Toni, Fotos: Daniel Teixeira, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 03h00

Havia um soldado norte-americano atingido no piso do helicóptero USMC H-34. Ajoelhado, um companheiro deixava escapar um grito, sem tirar as mãos da metralhadora; outro segurava os braços do ferido. O colete à prova de balas não suportou os tiros disparados pelos vietcongues. Era março de 1965 e a cena de horror estava congelada em branco e preto pelas lentes do fotógrafo britânico Larry Burrows. A foto estamparia a capa da revista Life no mês seguinte.

É possível passar longos minutos em silêncio diante dessa imagem, ignorando o entra e sai da sala Réquiem, no terceiro piso do Museu Memórias da Guerra (warremnantsmuseum.com), no centro de Ho Chi Minh, onde estão reunidos, desde 1975, fotos, distintivos, armas, tanques, helicópteros, mapas, roupas de combate, bombas e tantos outros objetos que traduzem a brutalidade dos 20 anos da Guerra do Vietnã (1955 a 1975).

As imagens de Larry Burrows dividem espaço com as de nomes como Robert Capa, Pierre Jahan, Jean Paraud, Dana Stone e Dickey Chapelle, entre outros fotojornalistas e correspondentes do mundo todo, numa homenagem ao trabalho de homens e mulheres que dedicaram suas vidas – e as perderam – cobrindo o conflito que deixou mais de 1 milhão de mortos.

Não espere, por isso, uma visita reconfortante. A guia Lam avisa, ainda no caminho, que raro é não chorar lá dentro. As quatro salas de exposição e o salão no primeiro andar, onde estão agrupadas as principais propagandas contra a guerra, causam angústia. Cada fotografia, história de tortura ou fragmento de avião vai gritar dentro de você.

Do lado de fora, oito tanques de guerra, seis aviões e um barco se espalham pelo jardim para mostrar a dimensão do poderio militar norte-americano. É possível caminhar num espaço que reproduz as prisões da época, com suas salas de tortura e solidão. Em uma hora você vê tudo. A entrada custa 15.000 dongs (R$ 3) e o museu abre das 7h30 às 12 horas e das 13 às 17 horas.

Na floresta. Apesar de nunca ter sido um desejo do povo vietnamita, a guerra marcou profundamente a história e os rumos do país. Tanto que o turismo por lá está inevitavelmente ligado a ela – o número de visitantes estrangeiros chegou a 6 milhões no último ano. Saindo do centro de Ho Chi Minh em direção ao distrito suburbano de Cu Chi, é possível viver uma experiência ainda mais concreta do conflito. Táxis cobram cerca de R$ 1,40 por quilômetro rodado, hotéis e agências locais indicam passeios (o jeito mais fácil). Há ainda a opção de ir pelo Rio Saigon, em tour guiado de cinco horas que custa a partir de R$ 230 por pessoa (oesta.do/cuchivisit).

Por terra ou água, o cenário caótico de Ho Chi Minh vai se transformando em um ambiente tipicamente rural, parado no tempo. É essa a intenção do parque onde ficam os túneis de Cu Chi, construídos em 1940, durante as lutas pela independência, e usados como base militar pelos soldados vietcongues durante a Guerra do Vietnã. Visitá-los é uma das principais atrações do país, por 90.000 dongs (R$ 14).

O som incessante de tiros acompanha a visita. Em grupos de até 20 pessoas, os visitantes seguem guias que abrem caminho em trilhas. São eles que narram as histórias da época – muitos incluem relatos pessoais dos duros anos de guerra. A cada passo na folhagem seca, uma nova descoberta sobre as táticas que levaram o desacreditado Vietnã a vencer a potência norte-americana. É surpreendente ver como o conhecimento e a simplicidade foram determinantes: dos chinelos feitos com borracha de pneu, cujas pegadas marcavam no chão o caminho inverso ao dos passos, até as mortais armadilhas com bombas e pregos.

A tentadora experiência de entrar nos túneis que se estendem por 121 quilômetros em Cu Chi – a rede tinha ao todo 250 quilômetros e passava por vários distritos, ligando Saigon ao Camboja – não é recomendada a claustrofóbicos. Corpos avantajados, seja pelo peso ou pela altura, terão dificuldade para se movimentar nos minúsculos buracos retangulares, onde só se entra com os braços para cima. Fechados com tampas camufladas pelas folhas, ficam praticamente invisíveis.

É difícil não rir ao ver como somos aprendizes desajeitados de soldados. Mas a experiência é angustiante. Entre 1960 e 1975, esses apertados buracos foram a porta de entrada para os vietcongues alcançarem os três andares subterrâneos que serviam de abrigo contra os intensos bombardeios dos Estados Unidos na região. Ali, homens e mulheres passavam a maior parte do tempo clandestinos, entre salas, cozinhas, quartos, espaço hospitalar, fábricas de munição, tudo arquitetado em túneis com camadas de três, seis e de oito a dez metros de profundidade.

Aos turistas, a tarefa de caminhar dentro deles foi facilitada, mas não se tornou menos tensa. No buraco estreito só conseguimos ficar em pé para uma foto rápida. Um arco permite a passagem para um pedaço de túnel.

O guia dispara na frente – e entendemos, então, o porquê de os pequenos e magros vietnamitas levarem a melhor sobre os norte-americanos. O andar curvado e o clima úmido e quente chegam a acelerar o coração, apressado pela saída. A aventura dura menos de cinco minutos, o suficiente para constatar o tamanho da resistência humana quando o que está em jogo é a sobrevivência.

Fora dos túneis, descobrimos que o som de tiros que nos acompanhou durante todo o passeio não é efeito sonoro. Há uma área onde os turistas podem atirar com variados modelos de armas. Cada tiro custa de 20 a 40 mil dongs (R$ 3 a R$ 6). 

A tarde emocionante termina com um lanche simples de chá quente e mandioca cozida com açúcar – cortesia do parque, a refeição ajudava a sustentar os soldados na guerra.

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... E um delicado dia de paz

MY THO - Um homem de meia idade segurava uma vara no canteiro central da avenida que atravessa os distritos 7 e 8, protegido do sol sob o nón lá, tradicional chapéu cônico. Junto dele, outros moradores que, aos domingos, sentam-se à beira do canal para pescar ou saem em busca de vegetais marinhos. Mais a frente, dezenas de flores de lótus boiam sobre a água escura. No Vietnã, são muito usadas como alimento e na decoração.

Texto: Bruna Toni, Fotos: Daniel Teixeira, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 03h00

Assim é a paisagem por quase todo o trajeto até My Tho, capital da província Tien Giant, na região do delta do Rio Mekong, a uma hora do centro de Ho Chi Minh. A área vem crescendo nos últimos anos. “É uma nova área residencial, mais barata que os distritos 1 e 2, mas também valorizada”, explica a guia Lam.

Até a estrada, motos e bicicletas ocupam mais espaço que os carros. O tráfego funciona bem porque os motoristas não têm o hábito de correr, nem mesmo nas rodovias, bem conservadas e com pedágios que cobram por quilômetro rodado, num sistema semelhante ao do Japão. Pela janela do carro, a vista é de plantações de arroz, cereal do qual o Vietnã é um dos oito maiores produtores do mundo, e de túmulos distribuídos em grandes campos abertos. Lam explica que, antigamente, os vietnamitas podiam enterrar seus entes queridos onde desejassem, inclusive perto de casa. 

Um caminho de terra anuncia a chegada a My Tho. Pouco a pouco, o comércio popular e a confusão de pessoas vão se intensificando. Vende-se de tudo; há casas de cimento e palafitas, onde homens e mulheres desempenham seus afazeres ajoelhados, com as plantas dos pés inteiras no chão por horas. 

De barco. O pequeno agito provinciano, incomparável ao do centro de Ho Chi Minh, fica para trás assim que deixamos a plataforma de onde partem, diariamente, vários barcos pelo extenso Rio Mekong, o 13º maior rio do mundo. Antigos, mas bem conservados e muito confortáveis, eles nos levam até a aldeia do outro lado da província. Há de todos os tamanhos e os maiores conseguem transportar grupos de até 40 pessoas. Oito empresas oferecem o serviço no local e cobram desde R$ 129 por pessoa. É possível comprar o passeio em agências. 

O caminho pelas águas barrentas e limpas do rio é silencioso. Sentados em uma cadeira de plástico presa ao chão de madeira do barco, só escutamos som de vento e de motor. Este trecho do Mekong, que nasce no Tibete, passa por China, Mianmar, Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã, reserva graciosidade graças ao colorido dos barcos e das palafitas. Quatro ilhas têm nomes simbólicos que dizem muito sobre a cultura do país: à esquerda fica a do Dragão (poder), a menor; à direita, a maior, do Unicórnio (inteligência); à frente está a da Tartaruga (vida longa); e, em direção ao nordeste, a da Fênix (felicidade). 

Na província de Ben Tre, onde desembarcamos, o cotidiano ao redor do Mekong é simples e é da natureza que sai o sustento das famílias, a começar pela produção de alimentos derivados do coco. Os vietnamitas produzem e exportam leite, óleo, doce, vinho e sabão, tudo de coco. Interessante é ver, na entrada da aldeia, como é feita a produção. 

Melhor ainda é experimentar um docinho cuja embalagem é feita de papel de arroz, também comestível. O pacote com 20 unidades sai por R$ 4,30. Procure ainda pelo doce de banana, ou pelo exótico licor feito de cobra e escorpião embebidos no álcool, que funciona, segundo a lenda, como Viagra natural. 

Seguir em frente significa percorrer trilhas onde a flora é demasiadamente curiosa e rica. Um bom observador achará pés da chamada milk apple (maçã branca) e da dragon fruit, a pitaia vermelha, ambas muito comuns na mesa vietnamita. Em uma fazenda com restaurantes, frutas como manga e banana fazem parte da refeição, ao lado de chás e bebidas alcoólicas feitas a partir de arroz, coco e mel quente, muitas com função medicinal. Chegar até ali, num trajeto feito de charrete em terra batida, é uma das vantagens de fechar pacote com agências de Ho Chi Minh. A recepção inclui mesa reservada e os pratos prontos para serem servidos. 

O começo do retorno a My Tho é atração à parte. Do último restaurante, o Tam Phu, barquinhos menores remados por mulheres levam e trazem turistas num ritmo tão intenso que chegam a congestionar o canal. 

No templo. Também na região do delta do Mekong, o templo budista Vinh Trang, construído em meados do século 19, é especial na arquitetura, que preservou elementos franceses do período de dominação.

No grande jardim, duas estátuas gigantescas chamam a atenção, principalmente do Bo Dai, uma simpática figura gorda e risonha que é tida como a representação do futuro Buda. Preste atenção ao estranho tamanho dos bonsais, no mínimo dez vezes maiores do que os japoneses.

Por volta das 10 horas foi possível acompanhar uma das duas cerimônias diárias que ocorrem na pagoda. Para entrar, fique descalço e caminhe lentamente entre as várias imagens de Budas em altares com oferendas. A luz escura, o vento fresco, o cheiro de incenso e a música de fundo inspiram paz. 

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Texto: Bruna Toni, Fotos: Daniel Teixeira, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 03h00

A dieta vietnamita consegue a proeza de reunir alimentos que são, ao mesmo tempo, saudáveis e saborosos. Não senti nenhuma falta das comidas rápidas e gordurosas das quais, admito, sou uma fã – nem fui à unidade do McDonald’s, a primeira, aberta em Ho Chi Minh apenas em 2014.

“Não há muito mercado para eles aqui”, pondera a guia Lam. “Não temos o costume de comer em fast foods.” 

Já os ingredientes coloridos, legumes, vegetais e frutas, combinados com carnes de frango e porco e com uma boa variedade de peixes e frutos do mar definem a cozinha local. Provavelmente, ajudam também a explicar a silhueta unanimemente esguia dos vietnamitas. 

Os rolinhos primavera, bem conhecidos dos brasileiros, lá têm outro sabor. Os spring rolls são crocantes, sequinhos e preparados com folhas de papel de arroz, o banh trang. O recheio leva vegetais e frutos do mar – o de camarão é delicioso. Fritos, ficam ainda melhores quando mergulhados no molho apimentado que os acompanha. Nos restaurantes, a porção custa, em média, 109 mil dongs (R$ 16). 

Os biscoitos de arroz são servidos com uma salada fria que faz papel de recheio. A berinjela grelhada temperada com molho de peixe, amendoim, alho e cebolinha é outra boa pedida para a entrada.

Guarde espaço, porém, para os pratos principais. Vale a pena pedir frango desossado com vegetais ou peixe crocante, acompanhados do bom e velho arroz. Carne de porco cozida pode ser servida com batatas e casa muitíssimo bem com pão. Apesar da localização geográfica, há épocas em que os frutos do mar são mais caros no Vietnã, mas a variedade de opções nos restaurantes é de encher a boca de água. Pimenta e alho são temperos básicos.

1. No bambuzal: o Vietheritage (Rua 48A, Vo Van; vietheritage.com.vn) é um restaurante turístico em um beco no Distrito 3, não muito fácil de chegar, mas delicioso. Muitos garçons e clientes falam inglês. Pedi uma sopa de camarão com cogumelos, seguida de carne de porco com berinjela grelhadae gastei 225 mil dongs, ou R$ 33) 

2. Romance: o Batalis (2 Nguyen Binh Khiem; batalis.vn) faz o estilo romântico e mais sofisticado. Foi onde comi o melhor rolinho primavera da viagem. O frango com salada de banana é uma receita bem típica do Vietnã. Tente também couve-flor com alho e o creme de camarão feito para passar no pão.

3. Com calma: no caminho de My Tho, o Mekong Rest Stop (mekongreststop.com.ve) foi a parada ideal depois de seis horas de passeio. O peixe grelhado “orelha de elefante” chega inteiro à mesa e é fatiado diante dos clientes. Custa 1.2 milhão de dongs (R$ 175) por quilo, com noodles ou legumes. Escolha as mesas mais afastadas para aproveitar a calmaria. Na saída, visite a loja e a padaria.

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Texto: Bruna Toni, Fotos: Daniel Teixeira, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 03h00

Se ao chegar ao Vietnã já tínhamos, eu e o fotógrafo, uma série de perguntas para fazer à nossa guia Lam, quando conhecemos melhor o cotidiano dos moradores mais curiosidades vieram à tona. Fizemos uma listinha delas para você compreender melhor a cultura e o costume dos vietnamitas.

Máscaras cirúrgicas são um acessório frequente no visual vietnamita. O motivo mais óbvio é se proteger da poluição lançada à atmosfera pelos carros. Mas há outra justificativa, esta, estética: preservar a pele clara dos raios solares. Marca de biquíni não faz sucesso no país, o que explica, também, que as mulheres cubram o corpo todo quando saem às ruas, mesmo nos dias quentes de verão.

Não é só porque o governo é socialista que o vermelho e o amarelo são as cores predominantes na decoração de espaços públicos e oficiais, e mesmo nas ruas do país. Elas também expressam o poder e a realeza, respectivamente. Animais como o dragão, influência chinesa e símbolo imperial, representam qualidades valorizadas – estão presentes nas estampas, arquitetura e nomes de lugares.

Nascidos no Vietnã são vietnamitas. Vietcongues é como eram chamados os membros da Frente Nacional de Libertação, organização do sul do país que lutou contra os governos apoiados pelos Estados Unidos.

O sangrento confronto que marcou o país é conhecido por lá como Guerra Americana, e não do Vietnã. Segundo Lam, a guia, até hoje o país recebe um número pequeno de turistas dos Estados Unidos. "Acho que não se sentem bem ainda diante do que ocorreu", diz.

Tempos atrás, os cassinos eram poucos em Ho Chi Mihn. Hoje em dia, quase todos os hotéis têm espaço de jogos. Para tentar a sorte você precisará apresentar passaporte, já que o governo do país proíbe a brincadeira para moradores. 

Os vietnamitas usam o calendário gregoriano no dia a dia, mas adotam o chinês para certas festividades. No ano-novo chinês, entre janeiro e fevereiro, há cerimônia com luzes, bandeiras e parada de motocicletas nas ruas.

Todos são "Silva"?

Parece que tudo e todos se chamam Nguyen no Vietnã. Trata-se de um sobrenome tão comum lá quanto Silva no Brasil. E, como o nome familiar é usado antes do pessoal, é visto em muitos lugares e distintas situações.

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Cultura pop: confira 4 dicas para mergulhar na história do Vietnã

Distante em quilômetros e nos costumes, o Vietnã sempre mexe com o nosso imaginário. Grande parte disso se deve ao vasto número de materiais produzidos sobre o país no ocidente, a maioria cujo tema e/ou cenário é a Guerra do Vietnã. Selecionamos alguns, entre filmes, livro e música, que valem a pena conferir: 

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 03h00

Premiado no National Book Award, o romance de Denis Johnson, de 2008, narra a história do coronel Skip durante uma operação que busca enlouquecer os vietcongues com tortura psicológica. Mas a ação levará o próprio comandante, um agente duplo, a entrar num labirinto de mentiras e traições. Custa, em média, R$ 77. 

4. ‘Apocalipse Now’

Saiba mais

Aéreo: na Emirates (emirates.com), SP-Ho Chi Minh-SP desde US$ 1.708 (conexão em Dubai). Pela Turkish (turkishairlines.com), desde US$ 1.668 (com conexão em Istambul). Na Qatar (qatarairways.com), desde R$ 5.988, conexão em Doha.
Documentos: exige visto dos brasileiros. Saiba mais em oesta.do/vistovietna

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