Mariana Veiga
Mariana Veiga

Pedal em família: um tour pelo Vale do Loire

Com um percurso essencialmente plano e estradas tranquilas, que passam por castelos e vinhedos, o Vale do Loire é perfeito para ser desbravado de bicicleta. Empresas especializadas organizam todo o itinerário - e cuidam também da bagagem

Edison Veiga, Especial para o Estado

27 Novembro 2018 | 04h10

Seiscentos anos atrás, boa parte da nobreza francesa decidiu trocar Paris por uma área mais tranquila, bucólica e, principalmente, longe dos ares da cidade grande. Hoje, a região do Vale do Loire, com seus mais de 300 castelos, atrai turistas para uma verdadeira viagem no tempo: um mergulho pelo charme e encantos da França interiorana, com muita natureza e riquíssima história.

Com geografia propícia para isso (a região é relativamente plana) e infraestrutura adequada (ciclovias em boa parte do trecho, estradas rurais seguras), conhecer a região pedalando é uma experiência incomparável.

Foi o que decidimos fazer. Escolhemos a Discover France, uma das empresas que oferecem equipamentos e apoio na região, arrumamos as mochilas e pé nos pedais. Em um roteiro de quatro dias (mas pedalando, de fato, em três), percorremos exatamente 116 quilômetros de bike - 100 quilômetros previstos no itinerário e o restante para conhecer as cidadezinhas -, visitamos castelos, fizemos piqueniques regados a bons vinhos, comemos uvas e maçãs fresquíssimas, conhecemos três cidades peculiares e aproveitamos muito bem a brisa dos últimos dias do verão europeu.

Optamos pelo pacote mais básico, portanto os hotéis eram pequenos, simples, mas aconchegantes. Sempre com café da manhã incluído - energia necessária para começar a pedalar. Como as empresas oferecem o serviço conforme a vontade do cliente, é possível solicitar acomodações de todos os tipos. Ou seja: peça a cotação de acordo com suas necessidades e seu bolso. 

Vale a pena passar em algum mercadinho próximo de cada hotel e comprar itens básicos para um piquenique. Pães, embutidos, queijos, sucos, uma garrafa de vinho, chocolate... Leve no bagageiro da bicicleta. Porque as paisagens são bastante convidativas a um lanchinho relaxante. E não vai ser em todo lugar que você vai encontrar um restaurante pelo caminho.

No geral, os bares e restaurantes estão nas proximidades dos pontos mais turísticos, ou seja, dos castelos que surgem pelo caminho. A comida não vai ser das melhores. E o preço não vai ser o mais justo. Algo como 15 euros (R$ 64) por uma tábua de frios bem simples. Ou 10 euros (R$ 42) por um hambúrguer. 

Material de trabalho

Pouco após nos instalarmos no hotel em Tours, cidade 240 quilômetros a sudoeste de Paris e ponto inicial de nosso percurso, dois funcionários da Discover France foram nos encontrar. Ali conhecemos as fiéis companheiras dos próximos dias de viagem: as bicicletas que seriam nosso meio de transporte. A minha, devidamente equipada com um trailer a reboque, onde Chico, então com 4 anos, viajaria feliz da vida. 

Os funcionários nos entregaram capacetes, odômetros digitais, navegador GPS, kit para pequenos reparos emergenciais (com uma câmara de pneus nova), cadeados e squeezes para água. Ah, também os roadbooks, simpáticos livretinhos com informações gerais sobre o passeio - inclusive números de telefone para emergência - e mapas impressos dos roteiros, além de instruções passo a passo de um trecho a outro. 

Eles também explicaram o modus operandi com relação às bagagens. Em suma, você só precisa carregar aquilo que for essencial para o dia - câmera fotográfica, água, comidinhas e saca-rolhas para um eventual piquenique, por exemplo. As bicicletas contam com uma bolsa-bagageiro ótima para isso, atrelada à garupa. As malas, devidamente etiquetadas com seus dados pessoais, são retiradas no hotel e entregues no hotel seguinte, tudo de acordo com o itinerário previsto.

Estávamos prontos. Na manhã seguinte, a aventura iria começar.

 

 

QUEM LEVA

Abaixo, selecionamos empresas que operam tours de bicicleta no Vale do Loire. Todas permitem personalizar o passeio, ajustando datas para mais ou menos dias e escolhendo hotéis. Os preços são por pessoa, desde que pelo menos duas viajem e fiquem no mesmo quarto. Há também roteiros em grupos.

Discover France

Tem tours por 11 países europeus e pelas vinícolas da Califórnia. A partir de 640 euros (R$ 2.773) por 4 noites, em hotel 2 estrelas, com café e parte dos passeios. 

Detours in France  

Oferece passeios também por outras regiões da France, como Champanhe e Provence. A partir de 850 euros (R$ 3.683), por pessoa, 4 noites em hotéis 3 estrelas com café e dois jantares.

Cycle Breaks

Oferece passeios por 7 países da Europa (Itália, França, Espanha, Inglaterra, Áustria, Holanda e Alemanha). A partir de 497 libras (R$ 2.424) para 3 noites em hotéis 3 estrelas com cafés da manhã e três jantares.

Em Paris

Dá para aproveitar a chegada pela capital e fazer passeios de bike - ou melhor, de vélo - antes de desembarcar no Vale do Loire. Mantido por uma brasileira que mora lá há sete anos, o Meia-Noite em Paris oferece vários pacotes diferentes para pedalar e conhecer a cidade - a partir de 40 euros (R$ 173), com guias em português. Há também o sistema de bicicletas compartilhadas da cidade, o Vélib, com estações por toda capital.

COMO IR

De Paris a Tours, de onde partiu nosso passeio, o trecho de trem leva aproximadamente 2 horas. As passagens custam a partir de 34,40 euros (R$ 149). Outra opção são os ônibus - o mesmo trecho custa 9 euros (R$ 39), mas a viagem dura 4h. Em ambos os casos, pesquise pelo site da SNFC. Na hora da compra, ele mesmo sugere as opções rodoviárias

GUIA PRÁTICO

Como funciona

Os tours são autônomos, ou seja, a empresa oferece os equipamentos e o know-how, mas quem faz é você. Vá de abril a outubro - no inverno não há tours. A paisagem muda ao longo do ano: a primavera reservará muitas cores. Entre agosto e setembro, macieiras e parreiras estão carregados.

Quem pode fazer

Em tese, qualquer um que goste de andar de bicicleta. Não é um passeio para ciclistas profissionais. Tem algumas subidinhas, mas nada impossível. Gostamos de pedalar, mas não praticamos todos os dias - e foi tranquilo. Usamos os capacetes fornecidos pela empresa e nos vestimos com roupas do dia a dia.

Criança a bordo 

Chico, então com 4 anos, curtiu bastante. Na maior parte do tempo ele parecia atento à paisagem. A cada parada que fazíamos - para tirar fotos ou esticar as pernas - ele também saía do trailer para se movimentar e, eventualmente, fazer xixi. Antes da viagem, ele escolheu dois bichos de pelúcia para carregar. Foram as “companhias” permanentes dele. Também procuramos envolvê-los nos preparativos e deixamos um squeeze com água acessível a ele. 

Foi a primeira vez que pilotei com essa carretinha atrás. Sempre utilizei a cadeirinha convencional, fixada na garupa. A empresa me deu ambas as opções: escolhi o trailer por ser mais confortável para o Chico. De forma geral, a cadeirinha convencional é a mais prática: não interfere na dirigibilidade e dá segurança pela proximidade da criança. A carretinha oferece um conforto maior ao seu filho. A desvantagem? Pesa bastante.

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