Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

Pedra Furada e outros postais

A luz da alvorada deixava a paisagem do parque nacional mais delineada, como uma pintura. E assim, antes mesmo de começar a trilha do Circuito do Baixão da Pedra Furada, já deu para notar que o guia Giordano Lopes sabia das coisas. De nível fácil, a caminhada de 1h30 pela trilha que leva aos principais pontos do parque, começou por dentro de uma caatinga que já perdia suas folhas avermelhadas. Indício de que começava naquele julho o período de seca (que dura até dezembro).

SÃO RAIMUNDO NONATO, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2013 | 02h15

Mesmo que haja placas no começo da trilha, bifurcações sinalizam que o guia é indispensável por aqui. Outra vantagem fica evidente quando nos deparamos com o primeiro sítio repleto de figurinhas pintadas na pedra. O que mais se vê na parede áspera do Sítio do Meio são veadinhos, mas as maiores relíquias encontradas aqui estão em exibição no Museu do Homem Americano (leia mais abaixo). Restos de cerâmica e uma machadinha de pedra de mais de 9 mil anos a.C., o mais antigo testemunho de polimento de pedra nas Américas. Um colar de sementes perfuradas também faz parte do achado. Pedras sobrepostas tornam o lugar ainda mais bonito.

Dali por diante a trilha não para de subir, o caminho vai ficando estreito. Quando o suor já escorre incessante, um vento bom invade o rosto. No mirante do Sítio do Meio, o primeiro alívio para o calor seco, gritante (precisa dizer para levar muita água?). Serras pedregosas margeiam o horizonte infinito da caatinga. Atrás de nós, um imenso paredão de arenito alaranjado de cerca de 80 metros.

Bastam cinco minutos para alcançar um outro panorama, bem diferente. Daqui se entende o porquê do nome Baixão da Pedra Furada. Encravada no meio de árvores de pequeno e médio porte, o cartão-postal do parque se sobressai ao longe, cercado de falésias alaranjadas. "Viu que maravilha eu guardei para vocês aqui em cima?", brinca Giordano.

Mostrar primeiro o panorama geral para só depois nos levar para a ver a Pedra Furada de pertinho foi, de fato, uma ótima decisão. Para chegar a ela, pegamos o carro - e bastou dez minutos, numa estrada bem sinalizada, para ficar cara a cara com a atração - que tem piso adaptado para cadeirantes. A melhor foto pode ser feita de manhã cedinho ou no fim de tarde, com o sol atravessando a pedra e uma luminosidade mais sóbria.

Reforçando a teoria de que guia bom não vacila, Giordano guardou a maior joia rupestre do parque para o final. Ali pertinho, um imenso paredão amarelado de arenito de cerca de 100 metros de altura tem uma curva natural que, há 8 mil anos, se transformava em um abrigo perfeito para os dias de chuva. E talvez ali, meio entediados, decidiram passar o tempo pintando uma incrível sequência de desenhos ao longo de 70 metros de extensão. Eis a Toca do Boqueirão da Pedra Furada.

Uma bem projetada passarela de metal corre ao longo do conjunto de pinturas, que reúne algumas das imagens mais famosas, incluindo o veado com filhote, adotado como logotipo do parque nacional. Repare nas cenas de dança, com corpos em movimento: perfeitos.

No fim da tarde, a iluminação noturna proporciona um lindo efeito sobre as pinturas (é preciso agendar no centro de visitantes, R$ 50 para até 10 pessoas). Entre centenas de ilustrações, guias atenciosos como Giordano certamente não deixarão passar o pequeno desenho de um casal se beijando. Amor à moda antiga. / F.M.

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