Pela janela, uma vista diferente a cada dia

Conhecer novos lugares e sair da monotonia: eis a motivação dos estradeiros

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2008 | 02h48

Da janela do quarto, a vista muda a cada dia. Campos floridos, picos nevados, mar e areia. Quem tem um motorhome não fica parado: não importa a distância a ser percorrida, a ordem é ganhar a estrada. "Prefiro viajar num fim de semana com chuva do que ficar em casa em um dia de sol", conta João Afonso, de 53 anos. A história de amor de Afonso com a estrada começou há 20 anos, graças a seu trabalho como gerente de concessionária de veículos de grande porte. "Alguns colegas e clientes tinham os seus. Achei interessante e acabei comprando um trailer", conta. Ele lembra que a mulher levou um "choque" quando viu a aquisição. "Os filhos eram pequenos e não tínhamos casa própria", diz. Com o tempo, ela passou a gostar da idéia. "Viajávamos sempre em família." O primeiro trailer foi vendido há tempos e, hoje, Afonso tem um motorhome cuidadosamente decorado. "É minha casa também", explica. Nos fins de semana, ele e a mulher procuram ir a lugares perto de São Paulo, mas já se aventuraram também por Bonito, Chapada dos Guimarães e até Argentina. A família Goldschmidt foi ainda mais longe em seus quase dez anos de estrada: percorreu 90 mil quilômetros em seu motorhome, batizado de Pégaso. "Comprei com a intenção de levar a casa na costas mesmo", conta Peter Paulo, que teve como companheiros de viagem a mulher, Sandra, e os dois filhos. ROTINA? A idéia, segundo ele, era fortalecer os laços familiares e poder acompanhar de perto o crescimento dos filhos. "Foi um instrumento de união." Para Peter, não há diferença na rotina familiar, seja em terra ou sobre rodas. "Não muda nada de uma casa normal. Só o quintal, que é diferente a cada dia." A experiência na estrada rendeu um livro (Giro Pela América, Arx, 296 págs., R$ 39), além de um DVD. E, mesmo com os filhos crescidos (Ingrid está com 16 anos e Erik, com 18), Peter afirma que as aventuras em família vão continuar. "Os namorados deles também vão ter de gostar de viajar." Entre os amigos que a família Goldschmidt fez nessas andanças, pelo menos um também acabou virando estradeiro: a cachorrinha Pepita. Encontrada durante uma das viagens, logo se tornou companheira do grupo. "Ela adora. Tem até um lugarzinho só dela." AMIGOS O companheirismo, aliás, é característica comum entre os aficionados. "Quem encontra um caminho diferente ou um lugar que valha a pena, mapeia tudo e passa para os outros", diz Nivaldo Massa, de 68 anos, presidente do grupo paulista Pé na Estrada, que reúne 191 associados. Além das paisagens, Massa diz que entender o modo de vida das pessoas por onde se passa é importante. "Gosto muito de conversar com os moradores dos lugarejos", afirma. Em suas viagens, pôde ver de perto o contraste social do Brasil. "Há muita pobreza no interior do Nordeste. Os investimentos parecem ficar concentrados nas cidades turísticas." Apaixonado pelo campismo desde os 12 anos, Massa sempre procurou o contato com a natureza. "Comecei com uma barraca, depois um trailer, um motorhome pequeno e daí em diante." Acostumados a ver o pai acampar, os filhos, já casados, vão pelo mesmo caminho. "Eles têm a própria barraca. Assim, vamos todos para os mesmos lugares."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.