Aryane Cararo/Estadão
Aryane Cararo/Estadão

Pela passagem secreta dos Médicis

Uma longa fila espera os incautos que não compram seus bilhetes pela internet. Dentro, uma massa de gente se esbarra para contemplar algumas das mais belas obras de arte da humanidade. É assim na baixa temporada, pior na alta. Mas toda paciência será recompensada. A Galleria degli Uffizi, em Florença, é o maior museu de arte da Itália, com cerca de 1.500 obras (a partir de 9,50; uffizi.com). E sabe tratar com distinção aqueles que desejam percorrer um caminho quase secreto, por onde os Médicis circulavam quando não queriam ser vistos: o Corredor Vasariano. Uma exclusividade que o livra da horda de turistas e revela um mundo de retratos e autorretratos de artistas.

FLORENÇA, Aryane Cararo, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2013 | 02h11

A passagem suspensa que permaneceu por quatro séculos inacessível à população não é bela. Na verdade, é fria e singela, com paredes creme e chão de tijolinhos. Mas nela não há tumulto ou vozes. A cada passeio, que precisa ser agendado e custa a partir de 89, poucos privilegiados entram. Das escassas janelas, dá para ver o incrível pôr do sol de cima do Rio Arno. Mas as tintas do sol são coadjuvantes neste corredor de um quilômetro que tem mais de mil pinturas do século 16 ao 20.

Ele foi construído em apenas cinco meses por Giorgio Vasari, a tempo de ficar pronto para o casamento de Francesco, filho de Cosimo I, em 1565. Liga os palácios Vecchio e Pitti, passando sobre a Ponte Vecchio - que teve de desativar seu malcheiroso comércio de carnes na época e permitir apenas ourives. Assim, a nobreza passava com sua estreita carruagem sem ser notada. Ou assistia à missa na Igreja Santa Felicita, acessada no caminho por uma abertura vip.

Hoje, a entrada se dá pela Uffizi, local em que os estragos de um atentado à bomba em 1993, atribuído à máfia, são vistos nas pinturas. Ao longo do corredor, uma curva curiosa contorna a Torre Manelli, cuja família não cedeu terreno aos caprichos dos Médicis. A passagem acaba na Gruta Buontalenti, um exemplo do Maneirismo do século 16, bem no Jardim de Boboli, do Palácio Pitti. O jardim renascentista foi aberto ao público em 1766 e o palácio, hoje, tem Ticiano, Botticelli, Caravaggio, Perugino, Tintoretto e Rafael.

Plebeus. Mas, antes de se render ao caminho do príncipe, dispute seu lugar na Uffizi. Ela concentra obras do gótico até depois da Alta Renascença. Não só é grandiosa em números, com suas 50 salas, mas pelos nomes que abriga: Da Vinci, Botticelli, Caravaggio, Michelangelo, Rafael, Velásquez, Rembrandt...

Em nenhum outro lugar você poderá ver de perto que Da Vinci pintou asas de pássaro com precisão científica no anjo de A Anunciação (1472-1475). Ou notar o terror no rosto de Medusa (1597), de Caravaggio, e a graciosidade de Rafael em A Virgem do Pintassilgo (1506). Mas, se há um campeão de olhares, ele é O Nascimento de Vênus (1485), de Botticelli. A tela de 1,72 x 2,78 metros impressiona pela beleza sutil da deusa do amor. É tudo tão harmônico que só numa análise mais cuidadosa você repara nas desproporções do pescoço e do ombro esquerdo. Ainda assim, é mais bela do que as reproduções podem supor. Tão formosa quanto em Primavera (1480), também exposta.

O próprio prédio (1560-80) é obra a ser apreciada - especialmente a Tribuna, com cúpula de quase 6 mil conchas de madrepérola. E sua moldura para o Arno também pede contemplação.

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