Enrique Limbrunner/Divulgação
Enrique Limbrunner/Divulgação

Pela primeira (ou vigésima) vez

Do entusiasmo pelo papa Francisco à Calle Florida, do grafite ao bar com senha para entrar, há sempre algo a ser (re)descoberto

Felipe Mortara / Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2013 | 02h11

Com as melhores recomendações e o endereço em mãos, procurava um tal Caffé Lattente pelas agradáveis ruas de Palermo. Escoltado por aquele misto de azar e sorte que costuma rondar os viajantes, parei numa simpática livraria para pedir informação. Após um ótimo papo, descobri que se tratava da Dain Usina Cultural, que reunia não só livros, mas bom café, exibições de arte e até shows de jazz no meio da tarde. Batata: acabei passando horas por lá e nem sequer fui ao Lattente.

Buenos Aires é assim: são tantas boas atrações que fica difícil fazer tudo em uma só visita. Separada de São Paulo por apenas três horas de avião, a cidade reúne atributos tanto para um fim de semana quanto para um feriado prolongado. Testando uma indicação aqui, descobrindo outra coisa ali, montamos um roteiro de quatro dias inteiros, com atrações fundamentais para quem vai à capital argentina pela primeira vez e cantinhos saborosos para aqueles que estão retornando à cidade.

O estilo e a herança europeia são evidentes não só na arquitetura elegante de boa parte das construções, mas na abundante quantidade de árvores, capaz de deixar São Paulo morrendo de inveja. Buenos Aires já foi chamada - sem exagero - de Paris da América do Sul. As belas livrarias (como El Ateneo) e os charmosos cafés dão uma ideia do porquê. Claro que há trânsito, pobreza e estresse como em todo aglomerado de 3 milhões de pessoas. Mas o lugar tem aura.

Demora pouco para sacar essa nuance romântica e pitoresca. Quando vem à cabeça a história argentina, logo salta aos olhos a gigantesca imagem de Eva Perón (1919-1952) na empena de um prédio no centro. Basta pensar em tango e, pronto, se cruza com o Museu Gardel ou o hipódromo onde o cantor viu muitos cavalos perderem por una cabeza. E, quando menos se espera, a tal rivalidade se faz lembrada assim que o Estádio Monumental de Nuñez (do River Plate) passa pela janela do táxi. Que lugar intenso.

Esperança. Como em qualquer lugar do mundo, fica difícil fugir das atualidades no bate-papo com o taxista ou o garçom. Quando desembarquei ali, apenas alguns dias depois da eleição do novo papa, era natural que todas as esquinas e bancas de jornal tivessem um só assunto. Entre um anúncio e outro do inseticida Cuca Trap ("La marca más temida por las cucarachas"), um locutor empolgado sentenciou: "Ter um papa argentino vale mais do que ganhar uma Copa".

Nas janelas de boa parte dos prédios residenciais se faziam comuns bandeiras com as cores da Argentina e do Vaticano (amarelo e branco). Até o Obelisco da Avenida 9 de Julio, a Champs-Elysées portenha, exibia homenagem ao papa Francisco - cujo retrato estampava broches, pratos e ímãs de geladeira à venda por toda parte.

Na lojinha da catedral há fila por uma lembrancinha e, enquanto embala souvenirs papais, o coroinha Raul Scariole relembra que ajudou o até então cardeal de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio a celebrar a última missa de Natal. "O que tem sido escrito na mídia, que ele é simples, humilde e acessível, tudo isso é... a mais pura verdade", brinca. "Perdi a conta de quantas vezes andei de trem com ele vindo da periferia."

O balanço geral evidente é que a escolha de Bergoglio trouxe uma dose concentrada de esperança ao país, em grave crise econômica há alguns anos, com índice de inflação que, em 2012, alcançou oficialmente 10,8% - para a oposição, a alta teria sido bem maior, de 25,6%. A crise na Europa também colaborou com a queda do turismo e hoje brasileiros são 30% do total de visitantes - só em 2012 foram 1,2 milhão.

Fazer parte das estatísticas em 2013 não será difícil. As promoções de passagens para Buenos Aires são constantes. Por isso, guarde bem este guia. Com ele em mãos, seu único trabalho será o de gastar sola pelas calles da plana e arborizada metrópole.

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