Pelas águas do Pantanal, sem pisar em terra firme

Hospedado em um barco, chegue mais perto da vida selvagem

Mônica Nóbrega, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2008 | 02h46

O Pantanal está em plena mudança. E não se trata da alternância anual entre cheia e seca, tão característica daquele ecossistema. Percebe-se no ar um discurso de preservação do meio ambiente que vem alterando o perfil do turismo. Ainda não é possível dizer que a pesca predatória, muitas vezes disfarçada de inocente versão esportiva, é coisa do passado. Mas as empresas da região começam a investir em um outro tipo de roteiro, baseado na observação da natureza, com toques de educação ambiental.   Veja também: Cachoeira e pegada de onça na trilha No meio do mato, mas com conforto de cidade   É uma novidade e tanto para os turistas. Barcos-hotéis que até pouco tempo atrás passavam meses ociosos na piracema - a época de reprodução dos peixes, de outubro a março - começam a adaptar a infra-estrutura para viajantes que querem se aventurar pela maior área alagável do globo, mas não têm nenhum interesse nos anzóis. Ângelo Maranhos, capitão dos Portos de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, reivindica a paternidade da idéia. ''Sugeri o turismo fluvial sem pesca aos donos de barcos no começo do ano passado'', diz. A idéia é hospedar os viajantes na própria embarcação, com toda pompa e circunstância, como num cruzeiro. A vantagem evidente é chegar mais perto da vida selvagem, em áreas quase inexploradas do Rio Paraguai, onde é bem raro encontrar um ser humano pelo caminho. Esse é um tipo de passeio muito mais interessante na cheia, que começa em dezembro e vai até a metade do ano seguinte, quando as águas inundam quilômetros e quilômetros de fazendas e pastagens. Traduzindo: quando o Pantanal é realmente um pântano, um lago gigantesco. Pelo Rio Paraguai, o barco-hotel distancia-se de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, onde a viagem começa. Os passeios diários são feitos em canoas com motores e cadeiras giratórias, as voadeiras. Nelas, ganha-se agilidade para seguir pelos corixos, braços de rio ocultos pela vegetação flutuante. A paisagem muda, surpreende e encanta todo o tempo. Mas sempre tem como pano de fundo o imenso espelho d''água pontuado por aguapés floridos e minibosques de piuval, árvores retorcidas do cerrado. Preciosidades surgem aos montes: um ponto de águas muito transparentes para nadar com máscara e snorkel (onde alguns conseguem até ver piranhas), uma lagoa onde brota um jardim de vitórias-régias, emocionante. Tudo imprevisível até para quem conhece bem a região. O Pantanal muda ao sabor das águas. Amanhã, aquele ponto de mergulho pode se tornar um poço completamente turvo. Quem pensa em ver muitos animais pode se decepcionar um pouco. Eles ficam escondidos quase o dia inteiro. Não são bobos de desfilar naquele calorão, mais forte ainda por causa do reflexo do sol na água lisa, sem correnteza. Bem cedo e no fim da tarde, jacarés e pássaros dão o ar da graça. Mas onça é um sonho distante. Segundo os guias, é difícil flagrar uma delas mesmo na seca. Não porque sejam poucas, mas porque se escondem muito bem. A quilômetros de distância de qualquer resquício urbano, tudo é diferente. Precisa dizer que não há sinal de celular? Sem luz elétrica, o céu noturno parece um manto que envolve o barco - como se existissem estrelas em cima e embaixo. O mundo alagado é um espelho que tudo duplica, tudo reflete. Na paisagem tão plana, o sol espalha raios de todas as cores, a grandes distâncias, ao nascer e ao se pôr. Não vá embora do Pantanal sem acordar cedo pelo menos um dia e ficar de queixo caído com o espetáculo. Os olhos terão de se acostumar a muitas outras coisas que não se vêem todo dia, como as casas ribeirinhas alagadas que aparecem aqui e ali. Estão cheias de sinais de que não foram definitivamente abandonadas: um vaso de plantas frescas, um cachorro que toma conta do pedaço. Os moradores estão passando uma temporada fora, explica o guia. Provavelmente, pediram abrigo a um parente em algum ponto seco daquela imensidão. Mas vão voltar quando as águas baixarem. O ritual de limpar, consertar estragos e retomar a rotina à beira do Rio Paraguai se repete ano a ano. Sortudos, Rosa e Benedito puderam, neste ano, permanecer na sua casinha. O rio não chegou até eles. Ali, vivem com o filho, a nora e o neto bebê, de 1 ano. A casa é um quartinho de 2 metros por 3, construído com troncos e uma lona amarela que faz a vez de telhado. Cozinha ao ar livre: um plástico apoiado em quatro tocos. A família tem fonte de renda. ''Pescamos caranguejos aqui na beirada'', diz Benedito. Como a maioria dos moradores, eles não pensam em mudar de vez. Morar longe do rio é ficar fora do único circuito econômico e social possível. PRIMEIROS PASSOS Por enquanto, há um único roteiro fluvial regular sem foco na pesca, lançado pela agência Canaã, de Corumbá, e pela operadora paulistana Climb (leia mais na página 18). O pacote é de três noites com pensão completa e hospedagem no barco Antares, que tem capacidade para 18 pessoas em duas cabines duplas, duas triplas e duas quádruplas. Estão previstas oito saídas até o meio do ano que vem - a primeira será em 2 de julho. O capitão dos portos Ângelo Maranhos informa que outros barcos-hotéis de Corumbá andam fazendo tours de ecoturismo, mas ainda sem regularidade. São passeios contratados por grupos fechados - há até roteiros de evangelização encomendados por turmas de fiéis. Canaã: (0--67) 3231-3667; www.pantanalcanaa.com.br Climb: (0--11) 5052-6305; www.climb.tur.br Viagem feita a convite da Climb    

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