Isabel Tarrisse/Arquivo Pessoal
Isabel Tarrisse/Arquivo Pessoal

Pelo mundo, na companhia de si mesma

Deixar de viajar para não ir sozinha está fora de cogitação. Cada vez mais mulheres encaram roteiros de forma independente. E não se arrependem

Bruna Tiussu, O Estado de S.Paulo

13 Março 2012 | 03h12

Nem mesmo os perrengues enfrentados na primeira experiência, em 2004, aos 19 anos, quando se viu sozinha em um albergue imundo de Buenos Aires, num clima nada agradável, intimidaram a brasiliense Isabel Tarrisse. Poucos anos mais tarde, com o mochilão nas costas, caiu na estrada novamente sem companhia alguma. Dessa vez para explorar seis países europeus em 40 dias. Depois, foi a vez do Salar de Uyuni, na Bolívia, do Deserto do Atacama e de outras cidades chilenas serem somados às suas aventuras solitárias. E ela garante: a lista não para por aí.

 

“Sozinha em um local novo é quando me sinto completamente livre. Tanto para descobrir o que realmente gosto de fazer e o que me interessa quanto para entender o destino em toda sua complexidade”, explica. É esta oportunidade de autoconhecimento, aliada à liberdade para escolher o destino, montar um roteiro próprio, com horários de sua preferência e – por que não? – a chance de conhecer novas pessoas o que motiva cada vez mais mulheres a fazer as malas. Mesmo na ausência de uma companhia.

 

A atitude independe da nacionalidade da viajante e pode ser uma rica experiência para qualquer idade. Foi o que observou a escritora Teresa Rodriguez, defensora da ideia de que uma viagem solitária é a grande oportunidade de se transformar na pessoa mais importante do mundo, mesmo que por um curto período de tempo. Em seu livro Fly Solo, reúne os porquês essenciais para encorajar novas viajantes a seguir o mesmo caminho. “Nós, mulheres, tendemos a cuidar dos outros antes de nós mesmas. É uma chance perfeita de nos colocar em primeiro plano.”

Falando assim até parece fácil. Porém, são inúmeras as inseguranças que permeiam a decisão de explorar algum canto do mundo sozinha. Os medos vão desde quesitos básicos – segurança em um local novo, comunicação em outra língua, roupas – até dúvidas do tipo onde ir jantar. “Essa questão é frequente. Jantar sozinha pode ser intimidante. A saída é buscar lugares informais, onde é mais comum ver mulheres desacompanhadas, como cafés e bistrôs”, diz Teresa.

 

Outro ponto fundamental é estudar bem o destino a ser visitado. Afinal, nem todo lugar recebe com bons olhos uma viajante desacompanhada. O importante é estar ciente dos costumes do país, se certificar de que respeita os direitos das mulheres e saber a quem procurar caso necessite de ajuda. “Sempre digo que é preciso ser corajosa, o que é bem diferente de não ter medo algum”, acrescenta Teresa.

 

Contando de suas viagens solitárias, Isabel concorda com a autora e nem precisa de muito esforço para lembrar de um imprevisto vivido. “Quando estava a caminho do Atacama, já no Chile, perdi meu passaporte. Tive que me virar sozinha, procurar ajuda, aguentar todo o tranco. Bate um desespero, sabe?”

 

Um drible na solidão. A jornalista Flávia Mariano, que já rodou cerca de 30 países e se tornou outra especialista no assunto, aponta a solidão como um dos grandes temores das leitoras do seu site, o viagemparamulheres.com. “Pra começar, sempre aconselho viajar para um lugar que queira muito conhecer, o destino dos sonhos. Afinal, é mais fácil se distrair onde você sempre quis estar. Também é bom evitar o inverno, quando os dias ficam curtos e as pessoas não saem tanto à rua; hospedar-se em albergues, onde sempre há gente; e, claro, estar aberta para conversas sem compromisso e novas amizades”, explica.

 

O contato com pessoas, aliás, é um das boas recordações que Isabel guarda com carinho de seu mochilão pela Europa e suas aventuras na América Latina. “Às vezes bate uma deprê de ir de um lado para outro sozinha. Mas logo você conhece outros viajantes que estão fazendo a mesma coisa, pessoas interessantes, divertidas que viram companheiras de viagem temporárias. Tenho contato com algumas até hoje, outras simplesmente passaram. E isso é muito bonito”, diz.

 

De mãos dadas. Se mesmo assim cair na estrada sozinha ainda parece um desafio e tanto,uma opção é procurar grupos de mulheres. Desde 2008, o projeto Mulheres pelo Mundo reúne aquelas que querem viajar e, em parceria com a agência Sass Viagens, monta roteiros específicos – há uma saída por semestre, que pode ser tanto nacional quanto internacional.

 

Atualmente, há mais de 2 mil mulheres cadastradas no site e não há limite de idade para as excursões – que acabam se tornando ótimas oportunidade para fazer novas amigas.

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