Pelos cenários de 'O Poderoso Chefão'

Nenhuma música estará tocando. Mas ainda assim você ouvirá Speak Softly Love, o tema de O Poderoso Chefão, vindo de algum lugar de suas memórias afetivas quando pisar em Savoca e Forza D'Agro. Afinal, você está mesmo em Corleone, quer dizer, nos locais onde algumas cenas da trilogia foram filmadas.

TAORMINA, O Estado de S.Paulo

20 Março 2012 | 03h07

Nessa parte da Sicília, a 15 quilômetros de Taormina, os relógios parecem ter parado no início do século 20. Savoca foi uma boa opção para Francis Ford Coppola na década de 1970 - conta-se que a cidade de Corleone era muito desenvolvida (e perigosa) para a data em que o filme se passa. Seria boa opção ainda hoje, com seus 1.650 habitantes. Apesar de muitas casas terem sido acrescentadas em 40 anos, a cidade parece não ter sofrido tanto com a globalização nem com os ônibus de turismo.

Equilibrada em colinas da província de Messina, a 300 metros do nível do mar, Savoca é alcançada por uma estrada que serpenteia entre quintais com limoeiros. É vendida como a Cidade das Artes. Mas ali importa mesmo é respirar a atmosfera do filme, reconhecer as cenas, romantizar a máfia, ser um pouco Michael Corleone (Al Pacino).

Sente no Bar Vitelli, na praça principal, peça uma cerveja ou uma granita, a raspadinha italiana. Discorra sobre a beleza do local, como o personagem fez neste mesmo bar em que pediu Apollonia (Simonetta Stefanelli) em casamento no primeiro filme. As cadeiras não são as mesmas e hoje uma trepadeira oferece sombra às mesas. Mas é possível respirar a cena.

Dentro, há fotos da película e objetos antigos, misturados a limões e uma carabina. Dá até para imaginar Coppola se movimentando pela praça para captar o melhor ângulo da festa de casamento dos personagens. Será que ele também ficou encantado com a vista que chega ao Mar Jônico? Talvez por isso este ponto tenha sido escolhido para abrigar uma escultura em sua homenagem.

Dali você verá no alto a igreja San Nicolo (ou Santa Lucia), que pouco guarda de sua fundação no século 13. Foi nela que Michael e Apollonia se casaram e, embora apareça pouco, é emocionante estar ali. É como se nada disso se tratasse de filme e sim da saga real de uma família de sicilianos mafiosos.

Fundada em 1139, Savoca tinha quase o triplo de habitantes de hoje durante a Idade Média. Mas começou a perder moradores e popularidade no começo do século 19, quando muitos seguiram para o litoral. Hoje, os turistas fazem o caminho inverso, atrás das locações. Alguns, é verdade, em busca de uma curiosidade bizarra do Convento dei Cappuccini: 32 cidadãos, que viveram nos séculos 17 e 18, mumificados e vestidos com suas melhores roupas. Um espetáculo de horror em tom verde limbo.

Outro set. O passeio por Savoca é rápido, o suficiente para inebriar a memória com o filme. E é bom que não seja longo, pois assim há tempo de sobra para visitar a encantadora e minúscula vizinha Forza D'Agro, com menos de mil habitantes espalhados em 11 quilômetros quadrados. Ainda menos globalizada, com jeito de aldeia, ela acabou aparecendo em cenas dos três filmes. É na praça principal e na igreja de Santa Annunziata e Assunta (século 15) que Michael leva sua segunda mulher, Kay (Diane Keaton). Ela também irá visitar, no terceiro filme, a Chiesa de SS. Trinita, do século 15.

O Poderoso Chefão não foi o único filme a usá-la como cenário. Ao menos outros 14 foram rodados lá, como Il Richiamo del Sangue (Call of the Blood, 1948), Jessica (A greve do sexo, 1962) e Virilità (1974). Por que tanto interesse em um pedaço de terra tão prazerosamente solitário? Talvez por sua beleza medieval, perfeita para cenas bucólicas. Ou pela vista que se tem do mar, a 420 metros. Quem sabe se o motivo não seria as ruínas do antigo castelo do Conde Ruggero (séculos 11 e 12), envolto em mistérios nas suas passagens secretas - ou sua surrealidade, já que foi usado como cemitério no fim do século 19.

Tudo isso você descobre ao percorrer suas vielas, passando por casas amontoadas, de paredes amarelo-descascadas, com flores e roupas nas janelas - o legítimo som siciliano do tecido balançando ao vento.

Há poucas pessoas nas ruas na hora do almoço, há poucas pessoas na cidade inteira. Mas, quando se juntam, sempre parece o princípio de uma confusão. Falam alto, como se estivessem brigando. Logo as gargalhadas fazem você se lembrar de que isso sim é a Itália, esse jeito expansivo que faz parte da trilha sonora local. Por isso, afaste-se dos turistas, que não vão muito além da igreja Annunziata, tome o caminho da Via Roma e deixe-se levar numa viagem pelos sons da Sicília. / A.C.

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